Entre Irmãos e Raiva

566 Palavras
A noite estava abafada, com o bar movimentado, vozes se cruzando, copos tilintando e o cheiro de petiscos gordurosos misturado ao amargor do chope. Mas naquela mesa, a tensão era mais forte que qualquer coisa. Otávio, Leandro, João e Caio estavam reunidos como sempre, mas a leveza de outros encontros havia ficado para trás. Otávio estava mais calado do que o normal, os olhos fixos em um ponto qualquer, a mandíbula travada, os dedos tamborilando no copo como se cada batida marcasse um pensamento furioso. Foi quando Caio, sempre o mais observador, lançou de supetão: — Cara… você tá com ciúmes do Rafael, não é? Otávio trincou os dentes na hora. Os músculos do maxilar saltaram, o olhar endureceu. Ele virou lentamente para os amigos e respondeu com a voz carregada de frustração: — Vocês perceberam? João, que até então estava calado, fez que sim com a cabeça, olhando diretamente para Otávio. — Claro que a gente percebeu, mano. Aquele cara tá olhando demais pra Kelly. E não é olhar de admiração, não. É de desrespeito. Ele tá desejando ela na cara dura. Isso é nojento. — Ela é sua, mano — disse Leandro, com o tom firme. — É tua mulher. E ele sabe disso. Não tem como não saber. — Desde o começo da faculdade, a gente virou grandes amigos — completou Caio. — E a Kelly virou nossa irmã. A gente tem um carinho gigante por ela. A forma como ele fica babando em cima dela é desrespeitosa pra c*****o, cara. Inaceitável. João bateu com força o copo na mesa, os olhos acesos de raiva. — Esse Rafael tá cruzando todas as linhas. Ele tá passando de todos os pontos, velho. Se faz de bom moço, mas é um escroto disfarçado. E se ele acha que vai conseguir alguma coisa, ele vai se dar m*l. Otávio respirou fundo. O sangue fervia. Pegou o copo de cerveja e virou tudo de uma vez só, sentindo o líquido gelado descer como se apagasse por um segundo a fúria que queimava por dentro. Quando terminou, bateu o copo vazio na mesa e falou com os olhos vermelhos de tensão: — Ele tá passando dos limites. E eu tô me segurando pra ele não conhecer de verdade quem eu sou. Porque se eu me deixar levar… vai dar merda. Grande. — Se esse filho da p**a encostar nela — disse João, com o olhar duro — eu mesmo parto pra cima. Porque isso aqui não é só entre você e ele, não. A gente tá junto nessa. A Kelly é parte do nosso grupo. E ninguém mexe com quem é nosso. — A gente não vai deixar ele ir longe — completou Leandro. — Ele tá cavando a própria cova dentro da faculdade. E se precisar, a gente cava mais fundo. Otávio olhou para os três, o coração ainda disparado, mas agora com um pouco mais de controle. Sabia que podia contar com eles. Não estava sozinho naquele sentimento, nem na vontade de proteger Kelly a qualquer custo. Eles continuaram a conversa, agora entre estratégias, desabafos, risadas nervosas e um ou outro plano sobre como deixar claro pra Rafael que ele estava mexendo com a mulher errada... e com o grupo errado. Porque ali, naquela mesa de bar, quatro amigos não eram apenas colegas de faculdade. Eram irmãos de alma. E ninguém mexia com a família deles.
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