Dia a dia

825 Palavras
Já se passava uma semana desde o início das aulas, e eu e Amanda continuávamos na nossa rotina dupla — de manhã no colégio, à tarde trabalhando numa lanchonete no centro da cidade. Era cansativo, mas me fazia sentir viva, útil… no controle da minha vida. Amanda, minha melhor amiga, era tudo o que eu não era: livre, intensa, despachada. Ela nunca se prendia a ninguém, e dessa vez, estava envolvida com um carinha do comércio ao lado da lanchonete. Como sempre, ela fazia questão de me cutucar com seus comentários nada sutis. — Ah, Kelly, pelo amor de Deus! Aproveita a vida, mulher! O novato tá te comendo com os olhos, e você aí... igual uma freira tonta! Revirei os olhos e suspirei fundo, tentando conter a irritação. — Amanda, me deixa em paz. Eu sou assim, gosto do meu tempo, do meu jeito. Vai curtir teus peguetes e me deixa quieta, por favor. Mas ela não parava. Sempre voltava ao mesmo assunto, como se meu jeito calmo fosse um problema a ser consertado. Tá, eu não vou mentir… o menino novo, Otávio, era lindo. Daqueles que fazem o coração dar um tropeço só de olhar. Havia algo nele… um ar misterioso, um olhar curioso. Mas eu não era como a Amanda. Pra mim, tudo tinha seu tempo. Só se passou uma semana! Eu não ia sair me jogando assim, sem pensar, sem entender o que eu estava sentindo. Naquela tarde, cansada das provocações dela e querendo um pouco de paz, resolvi ir até a biblioteca. Precisava esfriar a cabeça. E, como se o universo tivesse me pregando uma peça, lá estava ele. Otávio. Sentado tranquilamente entre as estantes, folheando um livro como se fosse cena de filme. Fingi que não o vi. Passei direto, o coração acelerado, e comecei a procurar um livro. Enquanto meus dedos percorriam as lombadas, eu repetia mentalmente: “Por onde eu vou, esse menino aparece... será que é coincidência?” Depois de alguns minutos, encontrei um livro que há tempos queria ler. Mas minha paz durou pouco. Amanda, como sempre, apareceu do nada. — Aí, Kelly! O que você tá fazendo aqui, cara? Vem lá pra fora com o pessoal, vamos socializar, mulher! — Não, Amanda… vou ficar aqui mesmo. Não tô a fim de barulho hoje. Vai lá você, e me deixa. Deixa a nerd careta em paz, tá? Ela me lançou aquele olhar meio ofendida, meio debochada, e saiu batendo os pés como uma criança contrariada. Fingi que nem vi. Voltei pro meu livro, tentando me concentrar, tentando calar a confusão que era minha mente. Depois de um tempo, fui pra casa. Tomei um banho rápido, e fui almoçar com minha mãe antes de ir pro trabalho. — O que houve, filha? — ela perguntou, enquanto colocava a salada no meu prato. Suspirei. Sentei à mesa, cansada emocionalmente. — Ah, mãe… Amanda de novo. Tem um menino novo na escola que… sei lá, ele me olha o tempo todo. E ela fica me perturbando, dizendo que eu sou boba por não fazer nada. Eu acabei discutindo com ela… me irritei e saí. Minha mãe me olhou com aquele olhar de quem já viveu muito mais. — Filha… você conhece a Amanda. No mínimo, ela quer que você aja como ela. Ou, pior: talvez ela esteja interessada nele e queira saber se você também tá. Se ela achar que você não tá nem aí, pode ser que vá atrás dele sem culpa. — Será, mãe? Não acho que ela faria isso… Ela sabe que eu gosto dele. Só não quero me precipitar. Tenho medo de me machucar, de esperar algo que não existe. Prefiro dar tempo ao tempo. Minha mãe sorriu de lado. — Só fica atenta, filha. Os olhos veem muito mais do que as palavras dizem. Depois do almoço, me despedi dela e fui trabalhar. Cheguei na lanchonete às 13h50, como sempre. Amanda já estava lá. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela se virou pra mim com um olhar arrependido. — Me desculpa, amiga. Juro que não vou mais te encher com esse assunto. Você já deixou bem claro como se sente. — Bom, sendo assim, obrigada — respondi, aliviada, e segui pra minha função. Eu trabalhava na recepção, cuidando do caixa e das entregas. Amanda era garçonete, sempre animada, sorrindo pra todo mundo. Às vezes, isso me cansava, mas também admirava a leveza com que ela lidava com tudo. Trabalhar me fazia bem. Me distraía, me fazia sentir útil. Além disso, eu estava juntando cada centavo para o meu sonho: fazer faculdade de Farmácia e me tornar uma policial federal. Muita gente ria quando ouvia isso. Dizia que era sonho alto demais, que eu estava delirando. Mas eu não ligava. Porque dentro de mim, eu sabia… eu vou conseguir. Não importa quanto tempo leve. Não importa quantas vezes duvidem de mim. Porque quando você carrega um sonho no peito, ninguém pode te parar.
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