Coringa Narrando
Desci depois do banho já no estilo Coringa de antes. Roupa certa, corrente no peito, cheiro de homem livre. A pistola na cinta, do jeito que sempre foi. Não é ostentação, é costume. É extensão do corpo. Quem é do morro entende.
Assim que botei o pé na área, geral endireitou a postura. Respeito não some, só fica guardado.
O Patureba tava lá. Carälho, o moleque cresceu pra pörra. Da última vez que vi, ainda tinha cara de pivete. Agora tá homem, largo, olhar atento, postura firme. Sobrinho do Vicente. Hoje é meu gerente. Romano que botou a coroa na cabeça dele.
— Esse aí é sagaz, Coringa — Romano falou, encostando do meu lado. — E é fiel.
Olhei bem pro moleque. Ele sustentou meu olhar sem tremer.
— Fidelidade aqui vale ouro — falei, sério. — Mais que dinheiro.
Ele assentiu.
— Pode confiar, Chefe.
Gostei. Quem fala pouco e faz muito vai longe.
Foi aí que a Laura chegou, Gostosa. Rabuda. Daquelas que entra e muda o clima. Foi ela que, nesses últimos meses, ia fazer visita íntima lá dentro. Sempre sentava e representava. Nunca faltou. Nunca fez cena.
Ela chegou perto, mordeu o lábio, daquele jeito provocante.
— Chegou a minha vez? — ela perguntou, sorrindo.
Levantei a sobrancelha e dei um meio sorriso.
— Calma. Espera um pouco.
Ela riu, virou de costas e foi pegar uma cerveja. Rebolando sem pressa, misturada com as outras, sabendo exatamente o efeito que causa. Mulher esperta é outra parada.
Eu fiquei ali, trocando ideia com os caras. Romano passando tudo. E ouvir tudo assim, cara a cara, sem essa pörra de telefone sem fio, é outra vibe. Outra leitura. Outra confiança.
— A boca tá redonda — ele dizia. — Caixa firme. Nada saiu do controle.
Eu só escutava, observando em silêncio. Liderança não é falar demais.
Tava tudo numa boa. Curtição. Música rolando. Risada solta. Churrasco estalando. Comida quentinha, feita ali, do jeito que eu sempre gostei. Minha casa. Minha quebrada. Por um momento, até esqueci como era a vida lá dentro. Como era acordar com ferro batendo e cheiro de mofo.
Aí eu ouvi um grito que fez meu peito vibrar.
— Coringa!
Virei na hora, era o Vicente.
Abri um sorriso que saiu do fundo da alma. Fui até ele e abracei forte. Daqueles abraços de irmão de verdade.
— Carälho, irmão. — ele falou. — Bom te ver longe daquela jaula fedörenta.
— Pensei que tu ia enjoar de me visitar — zoei.
— Nunca — ele riu. — Tu é família.
Sentamos. Bebemos. Comemos. Rimos. Zoamos como se o tempo não tivesse passado. Como se vinte anos não fossem nada. Vicente sempre foi assim: presença tranquila, palavra limpa.
Depois de um tempo, ele se levantou.
— Vou ali fazer uma ligação rapidinho.
— Vai lá.
Vi ele se afastar. Não sei por quê, mas senti um negócio estranho no peito. Intuição talvez. Fiquei olhando, distraído, quando vi ele voltando.
Mas ele não voltou sozinho.
Quando meus olhos bateram nela, o mundo deu uma desacelerada brusca.
— Milene, Minha filha.
Ela tava ali. Do lado dele. Linda. Mulher feita. Olhos marejados, corpo tremendo, sem saber se vinha ou se ficava.
Levantei devagar. O barulho ao redor sumiu.
— Pai. — ela falou, com a voz quebrada.
Não chorei. Não deixei. Mas o peito doeu como se alguém tivesse enfiado uma faca e girado.
Fui até ela e abracei forte. Forte mesmo. Como se quisesse recuperar vinte anos naquele segundo. Ela desabou. Chorou no meu peito. Chorou tudo que tinha guardado.
Passei a mão no cabelo dela, devagar.
— Tu tá linda, minha princesa. — falei baixo. — Linda demais.
Ela levantou o rosto, me olhando como quem tenta reconhecer um estranho que sempre esteve presente de longe.
— Eu… eu não sabia se vinha… — ela disse.
— Tá tudo bem — respondi. — Agora eu tô aqui. E quero fazer parte da tua vida. Do jeito que tu permitir.
Beijei a testa dela. Com respeito. Com amor contido. Amor de pai que aprende a amar no silêncio.
Vicente pigarreou atrás da gente.
— Vou levar ela em casa — ele disse. — Depois vou pra minha.
Abracei minha filha mais uma vez.
— Vai com calma. A gente vai ter tempo.
Depois fui até o Vicente. Apertei ele forte.
— Obrigado por tudo, irmão. Por tudo mesmo.
Ele sorriu, emocionado.
— Sempre. Sempre vou tá aqui.
Vi os dois se afastarem. Fiquei parado, olhando, sentindo o peso bom e ruïm de estar de volta.
A festa continuava atrás de mim.
Mas agora tinha começado outra história.
A noite já tinha caído de vez quando a galera começou a meter o pé. Um por um foi vazando, música abaixando, risada ficando distante. O Salgueiro foi entrando naquele silêncio barulhento de madrugada, que só quem é cria conhece.
Chamei a Laura com um gesto simples.
— Vem.
Ela veio na hora, sorriso malandro, olho brilhando. Subimos pro quarto. Meu quarto. Minha cama. Tudo ainda meio estranho, mesmo sendo meu. O corpo reconhece antes da cabeça.
O que rolou ali foi intenso, quente, sem romantizar. Corpo com corpo, sem pressa, sem relógio contando tempo. Não preciso desenhar. Quem viveu cadeia sabe o peso que é isso. Prazer misturado com alívio, com descarga de tensão.
Quando acabou, eu levantei, fui ao banheiro, joguei fora o preservativo, lavei as mãos. Voltei mais calmo, cabeça já em outro lugar. Laura tava sentada na cama, passando a mão no lençol.
— Vou ficar aqui — ela disse, tranquila. — Dormir contigo.
Balancei a cabeça, negando.
— Não vai rolar.
Ela franziu a testa.
— Ué, por quê?
Sentei na beira da cama, peguei a cueca.
— Porque eu não vou dormir com ninguém — falei, direto.
— Mas tu não tá com ninguém. — ela insistiu.
Olhei pra ela, sério, sem grosseria.
— Justamente. Eu tô solteiro. E vai continuar assim.
Ela ficou em silêncio por um segundo, depois sorriu de canto, daquele jeito de quem entende mais do que pergunta.
— Então quer dizer que…
— Quer dizer que eu te como quando eu quiser — completei — mas dormir do lado, dividir silêncio, isso não.
Ela levantou, sem drama. Vestiu a roupa com calma.
— Tranquilo, Coringa. Eu sei meu lugar.
— Sempre soube — respondi.
Acompanhei ela até a porta. Ela desceu rebolando de leve.
Voltei pro quarto, apaguei a luz e deitei.
Mas o sono não veio.
Mesmo na minha casa, na minha cama, com o cheiro da minha roupa, meu corpo não desligava. O instinto ainda era de cadeia. Sono leve. Ouvido atento. Qualquer barulho fazia eu abrir o olho. Vinte anos dormindo assim não se apaga numa noite.
Fiquei olhando pro teto, sentindo o peso bom de estar livre misturado com a inquietação de quem reaprende a viver. Pensei na Milene. No Vicente. No Salgueiro pulsando lá fora. Pensei até na desgraçada da Bárbara.
Respirei fundo.
— Calma. — murmurei pra mim mesmo. — Um passo de cada vez.
A liberdade também exige adaptação. E eu sei: aos poucos, a vida vai normalizar.
Mas nessa noite, eu ainda dormi como quem nunca deixou a jaula por completo.