02 - Coringa

1190 Palavras
Coringa Narrando Meu nome é Alexandre Spinelli, vulgo Coringa. Quarenta e três anos nas costas. Fui preso com vinte e três. Vinte anos enterrado em concreto, ferro e silêncio. Tempo suficiente pra envelhecer o corpo, mas não pra matar quem eu sou. Sou moreno, alto, forte. O corpo quase todo fechado de tatuagem. E não vem com essa ideia errada, não. Não é tatuagem torta de cadeia, feita no escuro, com agulha improvisada. Nada disso. Cada tattoo minha foi pensada, desenhada, paga caro. Traço limpo, sombra perfeita. Coisa que tu olha e fala: isso aí saiu de estúdio chique da Zona Sul. E saiu mesmo. No peito, do lado esquerdo, tenho um leão de olhos fechados. Fiz no terceiro ano de tranca. Leão dormindo não é fraco, é paciente. Aprendi cedo que quem se mostra demais vira alvo. No braço direito, uma bússola quebrada. Fiz quando perdi a noção do tempo aqui dentro. Significa que mesmo perdido, eu sei onde é meu norte. No esquerdo, um rosário virando corrente. Fé e prisão andando juntas, se misturando. Deus nunca saiu de mim, mas também nunca me salvou de tudo. Nas costas, um trono vazio envolto em fumaça. Esse foi o último. Aviso claro: rei nunca perde o lugar, só se afasta. Sou dono do Complexo do Salgueiro. Famoso. Respeitado. Temido. Minha família nunca aceitou meu caminho. Nunca. Tenho mãe. Tenho irmãos. Ou tinha. Porque quando eu subi pro morro pra morar com meu pai, eles viraram as costas pra mim como se eu fosse lixo. Igual fizeram com ele anos antes. Meu pai tinha uma história pesada. Não nasceu no crime. Eu também não. Mas a vida empurra, o mundo cobra, e ele subiu pro morro. Nunca mais quis descer. Herdou o Salgueiro no sangue e na marra e depois passou pra mim. Cheguei lá moleque, 14 anos, dando trabalho pra minha mãe. Ela cansou. Me mandou morar com ele e com a marmita dele. E, na moral? Eu curti o coroa. Homem seco, poucas palavras. Não me sufocava, não gritava. Ensinava olhando. A mulher dele? Minha madrasta. Não se metia na minha vida. Lavava, cozinhava, cuidava da casa. Cada um no seu quadrado. Respeito puro. Cresci ali. Aprendi tudo com meu pai. Movimento, leitura de gente, silêncio estratégico. Respeito eu nunca pedi. Eu conquistei ficando de pé quando todo mundo caía. Assumi o complexo com 20 anos. Meu pai foi morto por uns bota, desses que acham que farda dá direito de brincar de Deus. Não tive tempo nem de chorar. O morro ficou quieto, observando pra ver se eu ia fraquejar. Não fraquejei. Naquele dia, virei praticamente um deus dentro do Salgueiro. Não por crüeldade, mas por ordem. Onde tem regra, o caos abaixa a cabeça. E quem derrubou meu Coroa, eu fiz questão de fazer o mesmo. Tive muita mulher na minha cama. Nunca neguei. Uma delas foi Mayara. Bonita, intensa, perigosa do jeito que eu gostava. Com ela tive minha única filha, Milene. Nunca prometi amor pra Mayara. Nunca menti. Fiz DNA pra confirmar. Era minha. Sempre foi. Milene é meu sangue. Minha herdeira. Quem sempre esteve comigo foi o Vicente. Amigo. Irmão que a vida me deu. Padrinho da Milene. O único em quem eu confio de verdade. Vicente não é do movimento. Nunca foi. Ele é contador. Trabalha pra mim, cuida dos números, não se mete em pörra nenhuma errada. Sempre respeitou isso. Sempre foi correto. Minha madrasta veio me ver umas três vezes antes de morrer. Minha família, nenhuma. Mas o Vicente, esse não soltou minha mão nunca. Toda semana tava aqui. Chuva, sol, perigo, não importava. Trazia comida, roupa, sabonete, tudo. Não falava do movimento. Pra isso eu tinha advogado. Ele falava da Milene. — Ela tá bem, Coringa. — Tá estudando. — Se formou. — Virou professora. Ela nunca veio me ver. Doeu? Doeu. Mas eu nunca deixei de liberar o malote pra ela. Nunca. Porque pai não abandona, mesmo de longe. E então, hoje um dia qualquer, como se fosse pouco, a vida resolveu virar. Eu tava na cela, sentado na beira da cama, quando ouvi passos diferentes. O som da chave parou na minha grade. — Coringa! Olhei na hora. — Que foi, Pörra? O carcereiro me encarou, com aquele sorriso torto. — O alvará cantou. Te arruma. Naquele momento, o mundo ficou mudo. Meu peito apertou, minhas mãos tremeram. Não era medo. Era impacto. — Tá falando sério? — perguntei, seco. — Vinte anos certinho. Teu nome já tá rodando. Bora. Levantei devagar. Cada gesto parecia pesado. Arrumei minhas poucas coisas. Dobrei a roupa com calma. Peguei minhas anotações, meus livros. Respirei fundo antes de sair da cela. Olhei para aquele espaço que me engoliu por duas décadas. — Nunca mais — murmurei. Passei por procedimento atrás de procedimento. Assinatura. Digital. Conferência de nome. Documento. Registro. Cada porta que abria fazia um barulho diferente. Cada tranca que soltava parecia um pedaço da minha alma voltando pro lugar. Quando cheguei no último portão, ouvi um som que eu nunca achei que ouviria de novo. A tranca foi liberada, Lili cantou. O portão se abriu. O sol bateu na minha cara de um jeito que doeu. Ar puro. Liberdade cheirando forte. Fechei os olhos por um segundo. Só um. Pra nunca esquecer esse gosto. Sorri de canto. Dei o primeiro passo pra fora. O mundo tava diferente. Mas eu tava vivo. E inteiro. O advogado me levou de volta pro Salgueiro. Assim que o carro começou a subir, meu peito apertou de um jeito estranho, bom e dolorido ao mesmo tempo. Carälho, vinte anos. Cada curva era uma memória batendo na cara. O cheiro, o barulho, o jeito do morro respirando. Tudo igual e tudo diferente. Eu encostei a cabeça no banco e ri sozinho. — Parece que eu nunca saí daqui — falei baixo. Ele não respondeu. Nem precisava. Fomos direto pra minha goma. Que agora, claro, quem mora é o Romano. Meu braço direito. Meu leal. Assim que o carro parou, a porta abriu e eu vi ele ali, de pé, do mesmo jeito de sempre, só com mais marcas no rosto e mais peso no olhar. — Bem-vindo de volta, Irmão. Nos abraçamos forte. Daqueles abraços que não precisam de palavra nenhuma. E aí eu vi os moleque. Os mesmos que eu deixei pequenos, correndo descalço, com nariz sujo. Agora tudo homem, tudo vapor, postura ereta, respeito no olhar. — Olha o Coringa aí, pörra. Virou festa. Grito, riso, música estourando. Churrasco na piscina, cerveja rodando, gente que eu nem lembrava mais aparecendo pra me ver. Algumas mulheres que eu conhecia bem. Romano sempre mandava visita pra mim lá dentro, nunca deixou faltar nada. Depois de tudo, subi pro banheiro. Sozinho. Fechei a porta. Abri o chuveiro. Quando a água caiu no meu corpo, quente, de verdade, sem tempo contado, sem ninguém batendo na grade, eu fechei os olhos. — Voltei. — sussurrei. Me lavei devagar. Tirei vinte anos de cadeia da pele. Vesti minhas roupas. Minhas correntes. Meu cheiro. Olhei no espelho e vi o Coringa inteiro de novo. Voltar a ser eu, isso não tem preço.
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