Olá Meus amores, mais uma história começando.
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BOA LEITURA AMORAS ❤️
Coringa Narrando
Vinte anos. Parece pouco quando a gente fala, mas pesa pra Carälho quando cai na conta. Tô sentado numa pedra de cimento, quente pra pörra, no meio do pátio do presídio, sol rachando minha cabeça. Banho de sol, eles chamam. Eu chamo de lembrança forçada. Aqui, o passado não pede licença, ele invade.
Fecho os olhos e volto praquela noite como se fosse agora.
Eu tinha acabado de comer. Prato simples, do jeito que eu gostava. Barriga cheia, cabeça tranquila, aquela falsa sensação de que tava tudo no controle. Tava no apê da Bárbara, minha fiel. Patricinha, dessas que o asfalto cria com tudo na mão. A gente era assumido, geral sabia. Ela dizia que me amava, jurava de pé junto que era só questão de tempo. Depois do casamento, ela subia de vez pro morro comigo. Conversa bonita, dessas que embala Bandïdo burro.
Lembro de deitar no sofá. O ar-condicionado gelando o osso, a TV ligada em qualquer mërda que eu nem prestava atenção. Meu corpo começou a pesar. Primeiro as pernas, depois os braços. Pensei que era só o cansaço. Muita coisa na cabeça, muita responsa nas costas.
Não lembro quando dormi.
Acordei no inferno.
— Acorda, desgraçado!
O primeiro tapa veio seco. Estalo alto. Minha cara virou pro lado. Antes de entender qualquer coisa, veio o soco. Outro. Mais um. Tonto, visão embaçada, gosto de sangue na boca.
— Que Pörra é essa? — tentei falar, mas a língua parecia grossa, pesada.
Mão pra trás. Ferro frio no pulso. Algemas. O barulho do metal fechando ainda ecoa na minha cabeça até hoje.
— Alexandre, você tá preso.
Alexandre. Nem Coringa eles chamaram. Ali, eu já não era nada.
— Bárbara! — gritei, desesperado, procurando com os olhos.
Ela tava lá. Em pé, cabelo arrumado, camisola clara. Cara limpa. Nenhuma lágrima. Nenhum tremor.
— Desculpa… — ela disse, a voz fina, quase um sussurro. — Eu não tive escolha.
Mentira do Carälho.
— Tu me vendeu, sua filha da püta. — tentei ir pra cima, mas os caras me seguraram.
— Cala a boca. — outro soco. — Anda.
— Valeu a pena? — perguntei quando passei por ela algemado, já na porta.
Ela desviou o olhar, Covarde.
Me arrastaram pelo corredor do prédio. Vizinhos espiando pela fresta da porta, fome de desgraça alheia. Elevador, garagem, camburão. A porta fechou com um estrondo que parecia sentença.
Dentro do carro, a ficha começou a cair. O corpo ainda mole, a mente tentando entender. Eu tinha sido traído. Não por inimigo, não por X9 do morro. Pela mulher que dormia do meu lado. Pela que falava em futuro, em família, em amor.
Daí pra frente, foi tudo rápido e lento ao mesmo tempo. Delegacia, flashes, perguntas que eu não respondi. Audiência. Grade fechando. O primeiro portão. O segundo. O terceiro. Cada um arrancando um pedaço meu.
Vinte anos.
Abro os olhos de novo. O pátio tá barulhento. Risada nervosa, grito distante, metal batendo. O cheiro de concreto quente misturado com suor e ódio.
Aqui dentro eu virei pedra. Endureci na marra. Aprendi a engolir o choro, a matar saudade no silêncio. Meus filhos cresceram sem mim. Minha mulher sumiu do mapa como se eu nunca tivesse existido. Nenhuma visita. Nenhuma carta. Nada.
Só um ficou.
Meu irmão. Meu amigo irmão. O único que nunca soltou minha mão, nem quando o mundo inteiro virou as costas. Ele vinha sempre que dava. Trazia notícia do morro, força nas palavras, respeito no olhar.
— Tu vai sair, Coringa — ele dizia, firme. — E quando sair, o morro ainda é teu.
Eu ria sem humor.
— Se eu sair vivo, já é lucro.
Ele não desistia de mim. Nunca.
Às vezes, sentado aqui, eu penso na minha filha. Quando fui preso, ela tinha três anos. Eu lembro do rostinho dela. Ela pequena correndo pela laje, rindo alto. Milene é minha filha, com a Mayara, uma garota que eu tive um lance. Mas nunca passou da cama. Depois que eu fui preso, O Vicente que traz notícias de todos.
O apito corta o ar.
— Acabou o banho de sol! — o guarda grita.
Levanto devagar. As costas doem, o joelho estala. O corpo paga o preço de duas décadas enjaulado, mas a cabeça ainda funciona. Ainda lembra. Ainda sente. E ainda pede vingança.
Enquanto caminho de volta pra cela, uma certeza bate forte no peito: eu sobrevivi. À prisão, à traição, à solidão. E quem sobrevive desse jeito não volta pro mundo do mesmo tamanho que saiu.
Alexandre morreu naquela noite no apê da Bárbara. E só Coringa sobreviveu.
O dia tava arrastado, daquele jeito que só quem tá preso conhece. O tempo aqui dentro não anda, ele se arrasta, se esfrega na tua cara só pra lembrar que tu não manda em p***a nenhuma. Eu tava na cela, sentado no beliche de baixo, olhando pro nada, quando escuto meu nome ecoar no corredor.
— Coringa! Visita no parlatório.
Meu coração deu um pulo seco. Visita fora do dia comum nunca é coisa pequena. Levantei devagar, ajeitei a camisa surrada e fui escoltado. Cada passo parecia mais pesado que o outro.
Quando entrei na sala, vi ele. Meu advogado. Terno simples, pasta na mão, cara de quem tava segurando notícia grande.
— Senta aí, Alexandre — ele falou, puxando a cadeira.
Sentei, coloqueinas as mãos algemadas em cima da mesa, encarei firme.
— Fala logo, doutor. Aqui dentro ninguém chama a gente pra conversar por gentileza.
Ele respirou fundo, abriu a pasta, mas antes de olhar qualquer papel, levantou os olhos pra mim.
— Você vai sair.
Na hora, eu travei. O som do presídio sumiu. Só ficou aquela frase martelando.
— Como é que é? — perguntei, desconfiado. — Não brinca comigo, não.
— Não é brincadeira — ele disse, sério. — Sua pena expirou. Você foi condenado a vinte anos de regime fechado. Cumpriu cada dia. Teve bom comportamento, não se envolveu em rebelião, não tem falta grave, nada que te ligue oficialmente ao crime lá fora nesses anos.
Soltei o ar devagar. Vinte anos, batendo dentro do meu peito de uma vez só.
— Então, acabou? — minha voz saiu rouca.
— Acabou. A qualquer momento pode sair o alvará de soltura. Pode ser hoje, pode ser amanhã. Mas é questão de horas, no máximo dias.
Passei a mão no rosto, senti a barba rala, os dedos tremendo de leve. Não era medo. Era fome de mundo.
— Eu avisei que ia sair — murmurei mais pra mim do que pra ele.
Ele fechou a pasta.
Vou voltar para o meu morro, O morro nunca ficou sem comando. Quem segurou tudo foi o Romano. Meu braço direito.
Um sorriso torto puxou meu canto de boca. Aquele ali é leal até o osso.
Ele manteve tudo funcionando. Respeito, hierarquia, caixa em dia. Ele executou lá fora, o que eu ordenei daqui de dentro.
Dei uma risada baixa.
— Cadeia não cala rei, doutor. Só muda o trono de lugar.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Aí, uma sombra passou pela minha cabeça. Um rosto que eu tentei esquecer, mas nunca consegui.
— E a Bárbara? — perguntei, seco.
O advogado fez uma careta.
— Sumiu. Depois do processo, vendeu tudo. Dizem que fugiu do país. Outros falam que se enfiou no quinto dos infernos.
Meu maxilar travou. O sangue ferveu.
— Ela pode ter fugido pro inferno mesmo — falei, sentindo a raiva subir quente — mas eu vou encontrar.
Ele me olhou com atenção.
— Alexandre, você tá saindo limpo. Qualquer passo errado.
Interrompi na hora.
— Limpo no papel, doutor. Minha alma não esquece.
Levantei da cadeira, me inclinei um pouco pra frente.
— Romano cuidou do meu trono enquanto eu tava enjaulado. Agora eu volto. E vou assumir tudo de novo.
— Só toma cuidado — ele disse, se levantando também. — O mundo lá fora mudou.
Sorri de canto, daquele jeito que só quem já perdeu tudo sorri.
— O mundo pode mudar. Coringa não.
O guarda bateu na porta.
— Tempo encerrado.
Antes de sair, olhei pro advogado mais uma vez.
— Avisa ao Romano. Que eu tô voltando.
Quando a porta fechou atrás de mim, o corredor nunca pareceu tão curto. Pela primeira vez em vinte anos, o ferro não me parecia eterno.