CAPÍTULO 6 – Quando o Silêncio Grita

1129 Palavras
O som da porta principal da Maison Elsemar se fechando ecoou pelo corredor como um aviso silencioso. Cassian havia partido. Élise ficou parada por alguns segundos, observando o espaço vazio onde o duque estivera instantes antes. Ele vestia o sobretudo escuro habitual, postura impecável, expressão controlada — mas havia algo diferente em seus olhos quando se despediu de August. Um cuidado maior. Um medo m*l disfarçado. — Volto antes do anoitecer — dissera ele, ajoelhando-se brevemente diante do filho. — Comporte-se. August não respondeu com palavras. Apenas segurou o dedo do pai por um segundo a mais do que o habitual antes de soltá-lo. Cassian congelou por um instante, como se aquele pequeno gesto fosse mais poderoso do que qualquer discurso. Depois partiu. Agora, restavam apenas Élise, August e o silêncio enorme daquela casa antiga. Ela respirou fundo, forçando o próprio corpo a relaxar. Está tudo bem, disse a si mesma. Você já cuidou de situações piores. — Vamos brincar um pouco, tudo bem? — perguntou, agachando-se diante de August. Ele a observou por alguns segundos, os olhos atentos, analisando. Depois assentiu, quase imperceptivelmente. No salão de brinquedos — um espaço amplo, iluminado por janelas altas — Élise espalhou alguns objetos sensoriais sobre o tapete: blocos macios, tecidos com texturas diferentes, um pequeno piano colorido. August se aproximou do piano, tocando uma tecla de cada vez. Os sons ecoavam suaves, irregulares. Ele franziu o cenho, testando padrões. — Isso — incentivou Élise, sentando-se perto. — Um som de cada vez. Ela não o apressava. Nunca. Sabia que o mundo já fazia isso por ela. Durante quase uma hora, ficaram assim. August explorando, Élise acompanhando. Em alguns momentos, ele se afastava; em outros, voltava e sentava tão perto que o ombro dele tocava o braço dela. Era um avanço enorme. Em determinado momento, August empurrou um dos blocos na direção dela. Élise congelou. — Quer que eu…? — perguntou, com cuidado. Ele empurrou de novo. Um pouco mais forte. Ela sorriu, pegando o bloco e colocando ao lado do dele. August observou. Depois empurrou outro. Eles começaram a construir algo juntos. Nada definido. Nada perfeito. Mas era junto. O coração de Élise se apertou de um jeito estranho. Myrielle… você veria isso? O primeiro sinal de que algo estava errado veio como um arrepio. Não um som. Não uma imagem. Uma sensação. Élise sentiu como se o ar tivesse mudado. Como se a casa, tão silenciosa, tivesse ficado… alerta. Ela se levantou devagar, olhando ao redor. Nada. — August — disse baixo —, vamos até o quarto, sim? Ele franziu o cenho, claramente incomodado com a interrupção, mas se levantou quando ela estendeu a mão. Ele segurou. Mais um avanço. Enquanto caminhavam pelo corredor, Élise percebeu algo que fez seu estômago se contrair: uma das janelas laterais estava entreaberta. Ela tinha certeza absoluta de que todas haviam sido fechadas pela manhã. O castelo tinha segurança. Câmeras. Funcionários treinados. Mas Cassian fora claro: não confie cegamente. Ela respirou fundo, mantendo a calma. — Vamos entrar aqui rapidinho — disse, conduzindo August para uma sala menor. Ela fechou a porta, trancou com cuidado e pegou o comunicador interno que Cassian havia deixado com ela. — Segurança da ala leste — disse, mantendo a voz firme. — Temos uma janela aberta no corredor principal do segundo andar. Solicito verificação imediata. — Recebido — respondeu a voz do outro lado. Ela soltou o ar lentamente. August estava agitado agora. Andava de um lado para o outro, os dedos apertando a manga da blusa. — Está tudo bem — disse Élise, ajoelhando-se para ficar na altura dele. — Olha pra mim. Ele demorou, mas olhou. Ela colocou a mão sobre o próprio peito, respirando fundo, exagerando o movimento. — Respira comigo. Inspirar. Expirar. August imitou. Desajeitado. Irregular. Mas tentou. Ela repetiu. Uma vez. Duas. Na terceira, ele se aproximou e encostou a testa no ombro dela. Élise sentiu os olhos arderem. — Eu estou aqui — sussurrou. — Não vou sair. A porta se abriu alguns minutos depois. Dois seguranças apareceram, expressão séria. — Nada encontrado, senhorita Varnier — disse um deles. — Mas reforçamos a vigilância. Ela assentiu, mas algo dentro dela permanecia inquieto. Alguém testou os limites, pensou. E isso é só o começo. Quando Cassian retornou, o céu já estava tingido de tons lilases e prateados. Ele entrou com passos firmes, mas o rosto estava tenso, o maxilar travado. — Onde ele está? — perguntou imediatamente. — Dormindo — respondeu Élise. — Foi um dia cheio. Cassian passou a mão pelos cabelos, soltando o ar. — Houve algum problema? Ela hesitou por meio segundo. Depois decidiu que ele precisava saber. — Uma janela aberta. Segurança verificou, não encontrou nada. Mas… — ela o encarou —, não foi por acaso. Os olhos dele escureceram. — Eles estão sondando — murmurou. — Malditos. — Cassian — ela disse, firme —, isso não pode continuar assim. August sentiu. Ele ficou agitado. Isso… isso deixa marcas. Ele fechou os olhos por um instante. — Eu sei. Silêncio. Depois, ele a encarou de um jeito diferente. Mais direto. Mais humano. — Obrigado por ficar com ele — disse. — Por protegê-lo. Ela cruzou os braços, tentando esconder o cansaço. — Eu não fiz nada além do que era necessário. Cassian deu um passo à frente. — Fez muito mais do que imagina. Eles ficaram próximos demais. O tipo de proximidade que fazia o ar ficar denso. — Élise… — ele começou, a voz mais baixa —, se em algum momento você quiser ir embora… eu vou entender. Ela riu, sem humor. — Você realmente acha que depois de tudo isso eu conseguiria simplesmente virar as costas? Ele a observou em silêncio. — Você é perigosa — disse ele, de repente. — Como assim? — Porque faz eu querer acreditar que as coisas podem dar certo. — Um meio sorriso surgiu. — E isso é algo que eu não me permitia há muito tempo. O coração dela acelerou. — Cassian… — Ela parou, respirando fundo. — Vamos com calma. — Eu sei — respondeu ele. — Não estou pedindo nada. Mas o olhar dizia o contrário. Mais tarde, quando Élise passou no quarto de August para checá-lo, encontrou Cassian sentado ao lado da cama, observando o filho dormir. — Ele segurou minha mão hoje — disse Cassian, quase em um sussurro. — Ele está aprendendo que pode confiar — respondeu Élise. Cassian levantou o olhar para ela. — E você… — ele hesitou —, está me ensinando o mesmo. Ela sorriu, suave. — Então estamos aprendendo juntos. Do lado de fora, o vento balançava as árvores prateadas de Elsemar. E, em algum lugar além dos muros, alguém observava. Esperando.
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