O som da porta principal da Maison Elsemar se fechando ecoou pelo corredor como um aviso silencioso.
Cassian havia partido.
Élise ficou parada por alguns segundos, observando o espaço vazio onde o duque estivera instantes antes. Ele vestia o sobretudo escuro habitual, postura impecável, expressão controlada — mas havia algo diferente em seus olhos quando se despediu de August. Um cuidado maior. Um medo m*l disfarçado.
— Volto antes do anoitecer — dissera ele, ajoelhando-se brevemente diante do filho. — Comporte-se.
August não respondeu com palavras. Apenas segurou o dedo do pai por um segundo a mais do que o habitual antes de soltá-lo. Cassian congelou por um instante, como se aquele pequeno gesto fosse mais poderoso do que qualquer discurso.
Depois partiu.
Agora, restavam apenas Élise, August e o silêncio enorme daquela casa antiga.
Ela respirou fundo, forçando o próprio corpo a relaxar. Está tudo bem, disse a si mesma. Você já cuidou de situações piores.
— Vamos brincar um pouco, tudo bem? — perguntou, agachando-se diante de August.
Ele a observou por alguns segundos, os olhos atentos, analisando. Depois assentiu, quase imperceptivelmente.
No salão de brinquedos — um espaço amplo, iluminado por janelas altas — Élise espalhou alguns objetos sensoriais sobre o tapete: blocos macios, tecidos com texturas diferentes, um pequeno piano colorido.
August se aproximou do piano, tocando uma tecla de cada vez. Os sons ecoavam suaves, irregulares. Ele franziu o cenho, testando padrões.
— Isso — incentivou Élise, sentando-se perto. — Um som de cada vez.
Ela não o apressava. Nunca. Sabia que o mundo já fazia isso por ela.
Durante quase uma hora, ficaram assim. August explorando, Élise acompanhando. Em alguns momentos, ele se afastava; em outros, voltava e sentava tão perto que o ombro dele tocava o braço dela.
Era um avanço enorme.
Em determinado momento, August empurrou um dos blocos na direção dela.
Élise congelou.
— Quer que eu…? — perguntou, com cuidado.
Ele empurrou de novo. Um pouco mais forte.
Ela sorriu, pegando o bloco e colocando ao lado do dele.
August observou. Depois empurrou outro.
Eles começaram a construir algo juntos. Nada definido. Nada perfeito. Mas era junto.
O coração de Élise se apertou de um jeito estranho.
Myrielle… você veria isso?
O primeiro sinal de que algo estava errado veio como um arrepio.
Não um som. Não uma imagem.
Uma sensação.
Élise sentiu como se o ar tivesse mudado. Como se a casa, tão silenciosa, tivesse ficado… alerta.
Ela se levantou devagar, olhando ao redor.
Nada.
— August — disse baixo —, vamos até o quarto, sim?
Ele franziu o cenho, claramente incomodado com a interrupção, mas se levantou quando ela estendeu a mão.
Ele segurou.
Mais um avanço.
Enquanto caminhavam pelo corredor, Élise percebeu algo que fez seu estômago se contrair: uma das janelas laterais estava entreaberta.
Ela tinha certeza absoluta de que todas haviam sido fechadas pela manhã.
O castelo tinha segurança. Câmeras. Funcionários treinados. Mas Cassian fora claro: não confie cegamente.
Ela respirou fundo, mantendo a calma.
— Vamos entrar aqui rapidinho — disse, conduzindo August para uma sala menor.
Ela fechou a porta, trancou com cuidado e pegou o comunicador interno que Cassian havia deixado com ela.
— Segurança da ala leste — disse, mantendo a voz firme. — Temos uma janela aberta no corredor principal do segundo andar. Solicito verificação imediata.
— Recebido — respondeu a voz do outro lado.
Ela soltou o ar lentamente.
August estava agitado agora. Andava de um lado para o outro, os dedos apertando a manga da blusa.
— Está tudo bem — disse Élise, ajoelhando-se para ficar na altura dele. — Olha pra mim.
Ele demorou, mas olhou.
Ela colocou a mão sobre o próprio peito, respirando fundo, exagerando o movimento.
— Respira comigo.
Inspirar. Expirar.
August imitou. Desajeitado. Irregular. Mas tentou.
Ela repetiu. Uma vez. Duas.
Na terceira, ele se aproximou e encostou a testa no ombro dela.
Élise sentiu os olhos arderem.
— Eu estou aqui — sussurrou. — Não vou sair.
A porta se abriu alguns minutos depois. Dois seguranças apareceram, expressão séria.
— Nada encontrado, senhorita Varnier — disse um deles. — Mas reforçamos a vigilância.
Ela assentiu, mas algo dentro dela permanecia inquieto.
Alguém testou os limites, pensou. E isso é só o começo.
Quando Cassian retornou, o céu já estava tingido de tons lilases e prateados. Ele entrou com passos firmes, mas o rosto estava tenso, o maxilar travado.
— Onde ele está? — perguntou imediatamente.
— Dormindo — respondeu Élise. — Foi um dia cheio.
Cassian passou a mão pelos cabelos, soltando o ar.
— Houve algum problema?
Ela hesitou por meio segundo. Depois decidiu que ele precisava saber.
— Uma janela aberta. Segurança verificou, não encontrou nada. Mas… — ela o encarou —, não foi por acaso.
Os olhos dele escureceram.
— Eles estão sondando — murmurou. — Malditos.
— Cassian — ela disse, firme —, isso não pode continuar assim. August sentiu. Ele ficou agitado. Isso… isso deixa marcas.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
Silêncio.
Depois, ele a encarou de um jeito diferente. Mais direto. Mais humano.
— Obrigado por ficar com ele — disse. — Por protegê-lo.
Ela cruzou os braços, tentando esconder o cansaço.
— Eu não fiz nada além do que era necessário.
Cassian deu um passo à frente.
— Fez muito mais do que imagina.
Eles ficaram próximos demais. O tipo de proximidade que fazia o ar ficar denso.
— Élise… — ele começou, a voz mais baixa —, se em algum momento você quiser ir embora… eu vou entender.
Ela riu, sem humor.
— Você realmente acha que depois de tudo isso eu conseguiria simplesmente virar as costas?
Ele a observou em silêncio.
— Você é perigosa — disse ele, de repente.
— Como assim?
— Porque faz eu querer acreditar que as coisas podem dar certo. — Um meio sorriso surgiu. — E isso é algo que eu não me permitia há muito tempo.
O coração dela acelerou.
— Cassian… — Ela parou, respirando fundo. — Vamos com calma.
— Eu sei — respondeu ele. — Não estou pedindo nada.
Mas o olhar dizia o contrário.
Mais tarde, quando Élise passou no quarto de August para checá-lo, encontrou Cassian sentado ao lado da cama, observando o filho dormir.
— Ele segurou minha mão hoje — disse Cassian, quase em um sussurro.
— Ele está aprendendo que pode confiar — respondeu Élise.
Cassian levantou o olhar para ela.
— E você… — ele hesitou —, está me ensinando o mesmo.
Ela sorriu, suave.
— Então estamos aprendendo juntos.
Do lado de fora, o vento balançava as árvores prateadas de Elsemar.
E, em algum lugar além dos muros, alguém observava.
Esperando.