O castelo nunca dormia de verdade.
Mesmo durante a madrugada, a Maison Elsemar parecia respirar — madeira estalando, o vento deslizando pelas janelas altas, passos distantes de seguranças que jamais abandonavam seus postos. Ainda assim, naquela noite, o silêncio tinha um peso diferente. Não era apenas quietude. Era expectativa.
Cassian permanecia acordado.
Sentado em seu escritório, com a luz baixa e os punhos cerrados sobre a mesa de carvalho escuro, ele encarava uma única folha de papel à sua frente. O brasão Elsemar estampado no topo parecia observá-lo, lembrando-o de tudo que ele era… e de tudo que nunca quis ser.
Uma decisão.
Era isso que aquela folha exigia.
Do outro lado do castelo, Élise acordou com um som suave — um gemido baixo, quase imperceptível. Não era um choro. Era algo mais contido. Mais interno.
Ela se levantou imediatamente.
August estava sentado na cama, os joelhos puxados contra o peito, o olhar perdido em algum ponto invisível do quarto. As mãos pequenas apertavam o tecido do pijama com força.
— Ei… — sussurrou Élise, aproximando-se devagar.
Ela se sentou na beira da cama, mantendo distância suficiente para não invadir o espaço dele. Esperou. Sempre esperava.
August balançava levemente o corpo. Um movimento repetitivo, rítmico. Autocontrole.
— Está tudo bem — disse ela com voz baixa e estável. — Você acordou assustado?
Ele não respondeu. Mas os olhos se moveram. Procuraram.
Ela estendeu a mão, deixando-a visível entre eles.
— Posso ficar aqui?
August hesitou. Depois, tocou a ponta dos dedos nos dela. Não segurou. Mas não afastou.
Élise sentiu o peito apertar.
Ela começou a respirar fundo, exagerando o movimento. Inspirar. Expirar. Lentamente.
August a observou. Tentou imitar. O primeiro fôlego saiu irregular. O segundo, melhor.
No terceiro, ele se inclinou para frente e encostou a testa no braço dela.
Era um pedido silencioso.
Ela envolveu o corpo pequeno com cuidado, sem apertar, sem prender. Apenas presente.
— Eu estou aqui — murmurou. — Mesmo quando você acorda no meio da noite. Mesmo quando tudo parece estranho.
O corpo dele relaxou aos poucos.
August dormiu novamente com a mão agarrada ao punho do pijama dela.
Élise não se moveu.
Ficou ali por mais de uma hora, até ter certeza de que ele estava profundamente adormecido. Só então se levantou, cobrindo-o melhor.
Quando saiu do quarto, encontrou Cassian parado no corredor.
Ele a observava em silêncio.
— Eu ouvi passos — disse ele, em voz baixa. — Ele está bem?
— Teve um pesadelo — respondeu ela. — Mas já passou.
Cassian assentiu, mas não se afastou.
— Ele costuma ter?
— Às vezes — respondeu Élise. — Mudanças, tensão… ele sente tudo. Mesmo quando não entende.
Cassian desviou o olhar, o maxilar endurecendo.
— Isso não pode continuar — disse ele, finalmente. — Eles não podem transformar a vida dele em um campo de guerra.
Ela cruzou os braços.
— Então faça parar.
Ele voltou o olhar para ela. Havia algo diferente ali. Menos duque. Mais homem.
— É isso que eu estava tentando decidir.
Eles caminharam até a sala de estar menor, onde a lareira ainda mantinha brasas acesas. Cassian sentou-se no sofá, passando a mão pelo rosto cansado.
— As famílias rivais estão se movimentando mais rápido do que eu previa — começou. — Convites “cordiais”, reuniões inesperadas, sondagens veladas. Eles querem confirmar se August é… o que acham que ele é.
— E você vai permitir isso? — Élise perguntou, incrédula.
— Não — respondeu ele de imediato. — Jamais.
Silêncio.
— Mas para impedir… — ele respirou fundo —, preciso assumir algo que evitei por anos.
Ela o encarou.
— O quê?
— Um posicionamento público. — Cassian se levantou, caminhando até a janela. — Reconhecer August como herdeiro legítimo diante do conselho aristocrático de Velançay. Isso o coloca oficialmente sob p******o legal máxima.
— E o que isso muda? — ela perguntou.
— Tudo. — Ele se virou para ela. — Isso significa vigilância reforçada, exposição, protocolos rígidos… e uma pressão absurda sobre ele. Sobre nós.
— Sobre nós? — Élise repetiu.
Cassian hesitou.
— Se você continuar aqui… estará envolvida. Não apenas como pediatra.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Cassian… você não pode decidir isso sozinho.
— Eu sei — ele respondeu. — Por isso estou falando com você agora.
Ele se aproximou lentamente.
— Élise… se eu fizer isso, você ficará. Não como funcionária. Não como alguém temporária.
Ela engoliu em seco.
— E como o quê, exatamente?
Os olhos prateados dele se fixaram nos dela.
— Como parte da família Elsemar.
O ar ficou pesado.
— Você está me pedindo para assumir um papel que muda toda a minha vida — disse ela, com cuidado.
— Eu sei. — A voz dele falhou levemente. — Mas também estou oferecendo p******o. Estabilidade. Um lugar onde você não será descartável.
Ela riu, sem humor.
— Você fala como se isso fosse um acordo racional. Mas não é. Isso envolve sentimentos. Envolve August. Envolve você.
Cassian fechou os olhos por um instante.
— Justamente por isso estou com medo.
Ela se aproximou dele.
— Cassian… eu não preciso de títulos. Nem de privilégios. Eu só preciso saber de uma coisa.
— O quê?
— Você está fazendo isso pelo poder… ou pelo seu filho?
Ele respondeu sem hesitar:
— Pelo meu filho. Sempre foi por ele.
Ela assentiu lentamente.
— Então eu fico.
Cassian abriu os olhos, surpreso.
— Fica?
— Fico — repetiu. — Mas com condições.
— Diga.
— August vem primeiro. Sempre. Nenhuma decisão política acima do bem-estar dele. — Ela o encarou com firmeza. — E você não vai me tratar como uma peça nesse jogo.
Um canto da boca dele se curvou.
— Não conseguiria. Mesmo se tentasse.
Eles ficaram próximos outra vez. Perto demais. O tipo de proximidade que fazia o coração bater errado.
— Élise… — ele começou, mas parou.
— Não diga agora — ela respondeu, antecipando. — Algumas coisas precisam de tempo.
Ele assentiu.
— Então está decidido — disse ele. — Amanhã, anuncio oficialmente.
Ela respirou fundo.
— Então amanhã… tudo muda.
— Sim — respondeu ele. — Mas talvez… para melhor.
Do andar de cima, um som suave ecoou.
Um pequeno riso.
Ambos olharam na direção da escada.
— Ele está sonhando — disse Élise, sorrindo.
Cassian observou o teto por um instante.
— Que continue assim — murmurou. — Pelo máximo de tempo possível.
Mas, em algum lugar fora dos muros de Elsemar, engrenagens antigas começaram a se mover.
E o mundo, silenciosamente, passou a olhar para August de Elsemar.