CAPÍTULO 8 – Sob Olhos de Prata

1012 Palavras
A manhã nasceu fria em Velançay. O céu estava coberto por nuvens claras, filtrando a luz em tons prateados que refletiam nos vitrais da Maison Elsemar. Era o tipo de dia que parecia belo demais para carregar algo pesado — e ainda assim, o castelo inteiro parecia em estado de alerta. Élise sentia isso no ar. Desde cedo, a casa estava diferente. Funcionários andavam com passos mais rápidos, seguranças se posicionavam em locais estratégicos, comunicadores murmuravam códigos baixos demais para serem ouvidos com clareza. Tudo era silencioso… mas tenso. — Vai ficar tudo bem — disse ela, ajoelhada diante de August. Ele estava sentado na cama, vestindo roupas novas demais para alguém que odiava mudanças. Calça escura, camisa clara, tecido macio escolhido a dedo para não incomodá-lo. Mesmo assim, ele puxava levemente a manga, desconfortável. Élise tocou a mão dele. — Eu estou aqui — repetiu, como um mantra. August levantou o olhar. Os olhos negros encontraram os dela por alguns segundos, longos, atentos. Depois, ele segurou dois de seus dedos com força. Ela sorriu. — Isso. Assim. Do outro lado do quarto, Cassian observava em silêncio. Ele vestia um traje formal escuro, o brasão Elsemar discretamente preso ao peito. Parecia o duque que todos conheciam: impecável, imponente, distante. Mas os olhos… os olhos estavam diferentes. Estavam presos em August. — O conselho já está reunido — disse ele, quebrando o silêncio. — Assim que chegarmos, não haverá volta. Élise se levantou devagar. — Então não olhe para trás — respondeu. — Ele não precisa disso. Cassian assentiu. Quando August se levantou, hesitou. O espaço parecia grande demais. Barulhos demais. Olhares invisíveis demais. Élise se aproximou, oferecendo o braço. — Pode segurar — disse. — Não tem problema. Ele segurou. E não soltou. O Salão de Conselho de Velançay era amplo, antigo e carregado de história. Colunas de mármore sustentavam o teto alto, onde símbolos das famílias fundadoras estavam entalhados em ouro envelhecido. Assim que Cassian entrou, o murmúrio começou. — O Duque de Elsemar… — Ele trouxe o menino… — Então é verdade… Élise sentiu o peso dos olhares como algo físico. August parou. O corpo dele enrijeceu. Os dedos apertaram o braço dela com força. — Está tudo bem — ela sussurrou. — Olhe pra mim. Ele demorou. Mas olhou. Ela respirou fundo. Inspirar. Expirar. Ele imitou. Cassian percebeu. E algo no peito dele se apertou. Ela é o centro dele, pensou. Não eu. Eles caminharam até o centro do salão. Famílias sentadas em semicírculo observavam com atenção calculada. Alguns rostos curiosos. Outros… frios. Avaliadores. Predatórios. Cassian ergueu a mão. — Senhores e senhoras do Conselho — começou, com voz firme —, estou aqui hoje para formalizar aquilo que muitos já suspeitavam. O salão silenciou. — Este é meu filho, August de Elsemar. — Ele colocou a mão no ombro do menino, com cuidado. — Herdeiro legítimo da Casa Elsemar e protegido direto pelas leis aristocráticas de Velançay. Um murmúrio mais intenso percorreu o salão. — Além disso — continuou Cassian —, informo que qualquer tentativa de aproximação não autorizada, investigação paralela ou pressão indireta será considerada v******o direta da soberania Elsemar. Um homem se levantou. — Duque Cassian — disse, com um sorriso fino demais —, muitos questionam se uma criança… com certas limitações… pode sustentar tal título. Élise sentiu o sangue ferver. Antes que ela dissesse qualquer coisa, August se moveu. Ele soltou o braço dela. Um passo à frente. O salão inteiro pareceu prender a respiração. August levantou o rosto. Os olhos, antes negros, refletiram a luz prateada do teto de forma diferente. Mais intensa. Mais clara. Silêncio absoluto. Ele não falou. Mas olhou. Diretamente para o homem que o questionara. Algo passou pelo ar. Uma sensação estranha, quase elétrica. O homem empalideceu, dando um passo atrás sem perceber. Cassian congelou. — Ele sente padrões — disse Cassian, a voz baixa, perigosa. — E percebe o que está oculto. Isso nunca foi uma limitação. O conselheiro sentou-se, constrangido. August voltou correndo para Élise, escondendo o rosto no abdômen dela. O corpo pequeno tremia. Ela se ajoelhou imediatamente, envolvendo-o. — Você foi incrível — sussurrou. — Muito corajoso. Ele segurou a roupa dela com força. Cassian observou a cena. E naquele instante, entendeu algo que vinha evitando admitir. Se eu perder essa mulher… eu perco meu filho. A reunião terminou sem mais confrontos diretos, mas o estrago estava feito. August havia sido visto. Reconhecido. Marcado. De volta à Maison Elsemar, o menino estava exausto. Dormiu quase imediatamente, agarrado ao pulso de Élise como se fosse uma âncora. Ela permaneceu ali, sentada ao lado da cama, até sentir a presença de Cassian atrás dela. — Eles viram — disse ele, em voz baixa. — E agora sabem que a profecia não era exagero. — Ele não é uma arma — respondeu Élise, sem se virar. — Ele é uma criança. — Eu sei. — Cassian passou a mão pelos cabelos. — E foi por isso que decidi algo mais. Ela se virou. — O quê? — Vou anunciar uma união estratégica. O coração dela disparou. — Com quem? Cassian a encarou. — Com você. Silêncio. — Não como casamento — ele se apressou em dizer. — Ainda não. Mas como guardiã legal de August. Reconhecida oficialmente. Inquestionável. Ela engoliu em seco. — Cassian… isso é— — p******o máxima — completou ele. — Para ele. E para você. Ela olhou para August, dormindo profundamente. Depois, de volta para Cassian. — Se isso for feito… — disse ela —, não tem mais volta. — Eu sei. Ela respirou fundo. — Então faça. Cassian assentiu lentamente. — Obrigado. Ela sorriu, cansada. — Não me agradeça ainda. — Olhou de novo para August. — A partir de agora, ninguém toca nele. Cassian observou os dois. E percebeu que, sem perceber, já não havia mais três pessoas naquela casa. Havia uma família. E fora dos muros, alguém apertava os punhos, observando relatórios recém-chegados. August de Elsemar havia despertado. E Velançay não seria mais a mesma.
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