A manhã nasceu fria em Velançay.
O céu estava coberto por nuvens claras, filtrando a luz em tons prateados que refletiam nos vitrais da Maison Elsemar. Era o tipo de dia que parecia belo demais para carregar algo pesado — e ainda assim, o castelo inteiro parecia em estado de alerta.
Élise sentia isso no ar.
Desde cedo, a casa estava diferente. Funcionários andavam com passos mais rápidos, seguranças se posicionavam em locais estratégicos, comunicadores murmuravam códigos baixos demais para serem ouvidos com clareza. Tudo era silencioso… mas tenso.
— Vai ficar tudo bem — disse ela, ajoelhada diante de August.
Ele estava sentado na cama, vestindo roupas novas demais para alguém que odiava mudanças. Calça escura, camisa clara, tecido macio escolhido a dedo para não incomodá-lo. Mesmo assim, ele puxava levemente a manga, desconfortável.
Élise tocou a mão dele.
— Eu estou aqui — repetiu, como um mantra.
August levantou o olhar. Os olhos negros encontraram os dela por alguns segundos, longos, atentos. Depois, ele segurou dois de seus dedos com força.
Ela sorriu.
— Isso. Assim.
Do outro lado do quarto, Cassian observava em silêncio.
Ele vestia um traje formal escuro, o brasão Elsemar discretamente preso ao peito. Parecia o duque que todos conheciam: impecável, imponente, distante. Mas os olhos… os olhos estavam diferentes.
Estavam presos em August.
— O conselho já está reunido — disse ele, quebrando o silêncio. — Assim que chegarmos, não haverá volta.
Élise se levantou devagar.
— Então não olhe para trás — respondeu. — Ele não precisa disso.
Cassian assentiu.
Quando August se levantou, hesitou. O espaço parecia grande demais. Barulhos demais. Olhares invisíveis demais.
Élise se aproximou, oferecendo o braço.
— Pode segurar — disse. — Não tem problema.
Ele segurou.
E não soltou.
O Salão de Conselho de Velançay era amplo, antigo e carregado de história. Colunas de mármore sustentavam o teto alto, onde símbolos das famílias fundadoras estavam entalhados em ouro envelhecido.
Assim que Cassian entrou, o murmúrio começou.
— O Duque de Elsemar…
— Ele trouxe o menino…
— Então é verdade…
Élise sentiu o peso dos olhares como algo físico.
August parou.
O corpo dele enrijeceu. Os dedos apertaram o braço dela com força.
— Está tudo bem — ela sussurrou. — Olhe pra mim.
Ele demorou. Mas olhou.
Ela respirou fundo. Inspirar. Expirar.
Ele imitou.
Cassian percebeu.
E algo no peito dele se apertou.
Ela é o centro dele, pensou. Não eu.
Eles caminharam até o centro do salão.
Famílias sentadas em semicírculo observavam com atenção calculada. Alguns rostos curiosos. Outros… frios. Avaliadores. Predatórios.
Cassian ergueu a mão.
— Senhores e senhoras do Conselho — começou, com voz firme —, estou aqui hoje para formalizar aquilo que muitos já suspeitavam.
O salão silenciou.
— Este é meu filho, August de Elsemar. — Ele colocou a mão no ombro do menino, com cuidado. — Herdeiro legítimo da Casa Elsemar e protegido direto pelas leis aristocráticas de Velançay.
Um murmúrio mais intenso percorreu o salão.
— Além disso — continuou Cassian —, informo que qualquer tentativa de aproximação não autorizada, investigação paralela ou pressão indireta será considerada v******o direta da soberania Elsemar.
Um homem se levantou.
— Duque Cassian — disse, com um sorriso fino demais —, muitos questionam se uma criança… com certas limitações… pode sustentar tal título.
Élise sentiu o sangue ferver.
Antes que ela dissesse qualquer coisa, August se moveu.
Ele soltou o braço dela.
Um passo à frente.
O salão inteiro pareceu prender a respiração.
August levantou o rosto. Os olhos, antes negros, refletiram a luz prateada do teto de forma diferente. Mais intensa. Mais clara.
Silêncio absoluto.
Ele não falou.
Mas olhou.
Diretamente para o homem que o questionara.
Algo passou pelo ar. Uma sensação estranha, quase elétrica. O homem empalideceu, dando um passo atrás sem perceber.
Cassian congelou.
— Ele sente padrões — disse Cassian, a voz baixa, perigosa. — E percebe o que está oculto. Isso nunca foi uma limitação.
O conselheiro sentou-se, constrangido.
August voltou correndo para Élise, escondendo o rosto no abdômen dela. O corpo pequeno tremia.
Ela se ajoelhou imediatamente, envolvendo-o.
— Você foi incrível — sussurrou. — Muito corajoso.
Ele segurou a roupa dela com força.
Cassian observou a cena.
E naquele instante, entendeu algo que vinha evitando admitir.
Se eu perder essa mulher… eu perco meu filho.
A reunião terminou sem mais confrontos diretos, mas o estrago estava feito.
August havia sido visto.
Reconhecido.
Marcado.
De volta à Maison Elsemar, o menino estava exausto. Dormiu quase imediatamente, agarrado ao pulso de Élise como se fosse uma âncora.
Ela permaneceu ali, sentada ao lado da cama, até sentir a presença de Cassian atrás dela.
— Eles viram — disse ele, em voz baixa. — E agora sabem que a profecia não era exagero.
— Ele não é uma arma — respondeu Élise, sem se virar. — Ele é uma criança.
— Eu sei. — Cassian passou a mão pelos cabelos. — E foi por isso que decidi algo mais.
Ela se virou.
— O quê?
— Vou anunciar uma união estratégica.
O coração dela disparou.
— Com quem?
Cassian a encarou.
— Com você.
Silêncio.
— Não como casamento — ele se apressou em dizer. — Ainda não. Mas como guardiã legal de August. Reconhecida oficialmente. Inquestionável.
Ela engoliu em seco.
— Cassian… isso é—
— p******o máxima — completou ele. — Para ele. E para você.
Ela olhou para August, dormindo profundamente.
Depois, de volta para Cassian.
— Se isso for feito… — disse ela —, não tem mais volta.
— Eu sei.
Ela respirou fundo.
— Então faça.
Cassian assentiu lentamente.
— Obrigado.
Ela sorriu, cansada.
— Não me agradeça ainda. — Olhou de novo para August. — A partir de agora, ninguém toca nele.
Cassian observou os dois.
E percebeu que, sem perceber, já não havia mais três pessoas naquela casa.
Havia uma família.
E fora dos muros, alguém apertava os punhos, observando relatórios recém-chegados.
August de Elsemar havia despertado.
E Velançay não seria mais a mesma.