A primeira coisa que Cassian fez foi mentir.
Não em voz alta. Não para a imprensa, nem para os aliados, nem para os homens armados que agora ocupavam pontos estratégicos da Maison Elsemar. Ele mentiu no silêncio, naquele espaço íntimo onde decisões realmente perigosas eram tomadas.
Ele disse a si mesmo que aquilo era apenas estratégia.
Que cruzar aquela linha era necessário.
Que não havia escolha.
Mas Cassian sabia reconhecer quando estava enganando a própria consciência. E, desta vez, o motivo não era o poder. Era o medo.
Medo de perder.
O nome surgiu pouco depois do amanhecer.
— Armand Valecourt — disse o homem do outro lado da linha. — Ele está se mexendo há semanas. Comprando silêncio, testando limites. Acreditamos que foi ele quem mandou o observador.
Cassian fechou os olhos.
Valecourt.
Um sobrenome antigo. Rico. Discreto. Perigosamente paciente. A família Valecourt havia sido aliada dos Elsemar por gerações, até que uma disputa silenciosa por influência econômica os transformara em rivais cordiais — o tipo mais venenoso que existia.
— Ele sabe do August — disse Cassian.
— Ele sabe que o mundo sabe — respondeu a voz. — E isso, para homens como Valecourt, é oportunidade.
Cassian desligou sem despedidas.
O nome ecoou em sua mente como um sino fúnebre.
Élise estava no quarto de August quando percebeu a mudança.
Não foi algo óbvio. Cassian continuava controlado, educado, distante o suficiente para manter a fachada de sempre. Mas havia algo diferente em seus movimentos, na maneira como observava os corredores, como respondia às perguntas com frases mais curtas.
Como se estivesse economizando energia.
August também percebeu.
Ele passou a seguir Cassian com o olhar, mesmo quando estava concentrado em outra atividade. Observava cada entrada e saída do pai, o corpo levemente tenso, como um animal pequeno em alerta constante.
— Ele sente quando você está assim — disse Élise, em voz baixa, quando Cassian passou pelo quarto pela terceira vez em menos de uma hora.
Cassian parou.
— Assim como?
Ela hesitou.
— Preparado para algo r**m.
Ele a encarou.
— Você não deveria estar envolvida nisso.
— Eu já estou — respondeu sem elevar o tom. — No momento em que alguém entrou naquela biblioteca, eu já estava.
O silêncio entre eles se estendeu.
— O nome é Armand Valecourt — disse Cassian, enfim.
Ela sentiu um frio leve na espinha.
— Ele é…?
— Um homem que acredita que tudo tem preço — respondeu. — Inclusive pessoas.
August bateu os dedos no braço da cadeira.
Uma vez.
Duas.
Três.
Élise se aproximou dele imediatamente, tocando de leve seu ombro.
— Ei, tudo bem — disse. — Estamos aqui.
Cassian observou a cena.
E algo dentro dele endureceu.
O encontro aconteceu naquela mesma noite.
Não em salões iluminados, nem em mesas longas de negociação. Cassian escolheu um lugar neutro, antigo, carregado de história: um teatro fechado há décadas, no coração da capital de Velançay.
Armand Valecourt chegou sozinho.
Era um homem elegante demais para a idade, cabelos grisalhos perfeitamente alinhados, sorriso educado demais para ser honesto. Seus olhos percorreram o espaço antes de pousarem em Cassian com uma familiaridade que beirava o desrespeito.
— Cassian — disse, abrindo os braços. — Quanto tempo.
— Não o suficiente para você esquecer seus limites — respondeu Cassian.
Armand riu baixo.
— Limites mudam.
— Crianças não são limites negociáveis.
O sorriso de Armand não vacilou.
— Não estou falando da criança — disse. — Estou falando do que ela representa.
Cassian avançou um passo.
— Você entrou na minha casa.
— Eu observei — corrigiu Armand. — Como tantos outros estão observando agora.
O ar pareceu esfriar.
— Você quer dinheiro? — perguntou Cassian. — Influência?
— Quero equilíbrio — respondeu Armand. — A Maison Elsemar sempre teve demais. Agora, tem algo que pode… nivelar as coisas.
Cassian sentiu o impulso visceral de atravessar aquele homem ali mesmo.
Mas se conteve.
— Se chegar perto do meu filho outra vez — disse, com voz perigosamente baixa — não haverá negociação. Nem aviso.
Armand inclinou a cabeça.
— O problema, Cassian, é que agora você não é o único a decidir isso.
Cassian entendeu naquele instante:
Valecourt não estava sozinho.
Quando voltou para a Maison Elsemar, já era madrugada.
Élise estava acordada.
Sentada no sofá da sala menor, com um livro aberto no colo que ela claramente não estava lendo. August dormia ao lado, o rosto relaxado, uma das mãos fechada no tecido da manta.
Cassian parou na entrada.
Por um segundo, apenas observou.
Ela parecia… parte da cena. Não uma visitante. Não uma funcionária. Parte.
— Ele dormiu fácil — disse Élise, percebendo a presença dele. — Foi um dia cheio.
Cassian assentiu.
— Você deveria estar dormindo.
— Você também.
Ele se aproximou.
— Não consegui.
Ela fechou o livro.
— Encontrou o homem?
Cassian hesitou.
Era ali que a mentira continuaria.
— Sim — respondeu. — E resolvi.
Ela o encarou com atenção demais.
— Resolvi… como?
Ele desviou o olhar por um instante.
— Da forma que precisava.
Élise sentiu o estômago apertar.
— Cassian — disse com firmeza suave. — Se você cruzar certas linhas, isso respinga em todos nós. Inclusive nele.
Ela indicou August com um gesto mínimo.
Cassian respirou fundo.
— Eu já cruzei — confessou.
Ela se levantou devagar.
— Então não minta para mim.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Eu ameacei coisas que não deveriam ser usadas como ameaça — disse ele, por fim. — Pessoas. Negócios. Vidas.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Você fez isso por ele — disse.
— Por vocês — corrigiu.
Ela abriu os olhos.
— Cassian…
— Eu sei — interrompeu. — Eu sei que isso muda como você me vê.
Ela o encarou longamente.
— Muda — disse. — Mas não do jeito que você imagina.
Ele ergueu o olhar, surpreso.
— Eu não preciso de um homem perfeito — continuou. — Preciso de alguém que saiba quando parar.
Cassian sentiu o golpe.
— E você acha que eu sei?
Ela se aproximou mais um passo.
— Ainda não. Mas está aprendendo.
August se mexeu no sofá, murmurando algo baixo.
Élise se virou imediatamente, ajeitando a manta.
Cassian observou o gesto automático, protetor, íntimo demais para ser casual.
E foi ali, naquele instante simples, que ele entendeu algo perigoso:
Ele não estava apenas tentando proteger Élise e August.
Ele estava se tornando dependente da presença dela.
Do equilíbrio que ela trazia.
Da forma como August se organizava ao redor dela.
E isso… era fraqueza.
Ou talvez fosse exatamente o contrário.
Naquela noite, Élise demorou a dormir.
Deitada no quarto que agora parecia menos provisório, ela encarou o teto, sentindo o peso das escolhas que fizera sem perceber.
Ela viera para cuidar de uma criança.
Agora estava no meio de uma disputa de poder entre famílias antigas.
E, pior: começava a se importar demais com o homem no centro disso tudo.
Cassian de Elsemar não era seguro.
Não era simples.
Mas quando ela pensava em ir embora…
o rosto de August vinha primeiro.
E, logo depois, o dele.
E isso a aterrorizava.
Porque Élise sabia:
quando se começa a amar em um campo minado, não há saída limpa.