O ataque não veio com gritos.
Veio com elegância.
Na manhã seguinte à audiência, três carruagens pararam diante do Ducado de Elsemar. Não eram da corte principal. Eram da Comissão Educacional de Velançay — um braço “técnico” da nobreza, famoso por parecer neutro enquanto executava decisões políticas.
Cassian foi avisado quando ainda estava no escritório.
— Eles pedem acesso ao herdeiro — informou Madame Rochefort.
O silêncio que seguiu foi tão pesado que até o relógio da parede pareceu hesitar antes de marcar o próximo minuto.
— Com que justificativa? — Cassian perguntou.
— Avaliação formal. Dizem que o desenvolvimento dele precisa ser “revisado por especialistas certificados pela corte”.
Cassian fechou os olhos por um instante.
Especialistas certificados.
Ou seja: gente que nunca havia passado mais de dez minutos observando August sem tentar “corrigi-lo”.
— Onde está Élise? — ele perguntou.
— Com o menino. Sala de leitura menor.
Ele já estava andando antes mesmo de Madame Rochefort terminar a frase.
A sala de leitura estava tranquila.
August organizava blocos coloridos sobre a mesa. Ele estava particularmente concentrado naquele dia — respiração ritmada, dedos firmes.
Élise percebeu a mudança no ar antes de ouvir os passos.
Cassian entrou.
Ela viu a tensão no maxilar dele. O olhar mais escuro do que o habitual.
— Eles chegaram — ele disse.
Ela entendeu imediatamente.
— Avaliação?
Ele assentiu.
August percebeu o tom. Os ombros dele ficaram rígidos.
— Não — o menino murmurou, quase inaudível.
Élise se ajoelhou na frente dele.
— Ei. Olha pra mim.
Ele não olhou.
Ela não forçou.
— Ninguém vai te tocar sem você permitir. Eu estou aqui.
Cassian observava a cena com o coração acelerado. Ele odiava isso. Odiava que decisões políticas invadissem o único espaço onde o filho finalmente respirava com menos dor.
Batidas na porta.
Firmes.
— Senhor Duque — disse uma voz do lado de fora —, precisamos começar.
Cassian não respondeu imediatamente.
Ele olhou para Élise.
Ela assentiu levemente.
Era hora.
A sala de música foi escolhida para a “avaliação”. Ampla. Iluminada. Oficial.
Três avaliadores estavam presentes. Dois homens, uma mulher. Papéis, pranchetas, olhares clínicos demais.
August entrou segurando a mão de Élise com força.
— A médica não pode interferir — disse um dos homens.
— Ela não é médica da comissão — acrescentou a mulher.
Cassian se posicionou ao lado do filho.
— Ela fica — disse ele.
— Senhor Duque, isso compromete a neutralidade—
— Meu filho não é um experimento — Cassian cortou. — E não ficará sozinho.
O avaliador respirou fundo, claramente irritado.
— Muito bem. Comecemos.
As primeiras perguntas foram simples. Nome. Idade. Cores.
August respondeu baixo, com esforço.
Depois vieram os testes de contato visual forçado.
— Olhe para mim quando eu falar com você.
O menino começou a balançar levemente o corpo.
Élise percebeu na hora.
— Ele não precisa manter contato visual para ouvir — disse ela, calma.
— Senhora, peço que não interfira—
— Não é interferência. É respeito neurológico.
O avaliador ignorou.
— Se não olhar, não podemos confirmar compreensão.
August começou a respirar mais rápido.
Cassian viu.
Algo dentro dele começou a subir.
— Vamos tentar outra abordagem — sugeriu Élise.
— Não precisamos de sugestões externas — disse a mulher da comissão.
August levou as mãos aos ouvidos.
— Chega — Cassian disse.
— Senhor Duque, precisamos concluir o protocolo—
O menino entrou em crise.
Não foi escandaloso.
Foi pior.
Ele enrijeceu. Parou de responder. A respiração ficou irregular. Os olhos perderam foco.
Élise se ajoelhou imediatamente.
— August, respira comigo.
Ela não tocou de imediato. Esperou o momento certo.
— Inspira… isso. Eu estou aqui.
Cassian se virou para os avaliadores.
— Acabou.
— Ainda não finalizamos—
— Eu disse que acabou.
A voz dele não foi alta.
Foi mortalmente fria.
— Isso constará como resistência à avaliação oficial — disse um dos homens.
Cassian deu um passo à frente.
— Então escreva exatamente isso: o Duque de Elsemar interrompeu uma avaliação que estava prejudicando seu herdeiro.
O homem hesitou.
— Isso pode gerar sanções.
Cassian inclinou levemente a cabeça.
— Tentem.
Silêncio.
Os avaliadores recolheram os papéis.
Saíram.
A porta fechou.
O castelo pareceu soltar o ar.
August ainda estava encolhido quando Cassian voltou a atenção para ele.
Élise mantinha a voz baixa, constante, guiando o menino de volta.
Levou tempo.
Muito tempo.
Quando finalmente a respiração de August estabilizou, Cassian sentiu algo quebrar dentro dele.
Ele havia permitido aquilo.
Ele havia confiado que conseguiria controlar a corte.
Ele estava errado.
Mais tarde, no corredor vazio, Cassian segurou o braço de Élise.
Não com força.
Mas com urgência.
— Eu não deveria ter deixado isso acontecer.
— Você não sabia que iriam forçar assim — ela respondeu.
— Eu sabia do que são capazes.
Ela o encarou.
— Então agora você também sabe do que nós somos capazes.
O olhar dele vacilou.
— Nós?
— Sim. Você não interrompeu por política. Interrompeu como pai.
Cassian respirou fundo.
— Se a corte retaliar—
— Eles já retaliaram — ela disse. — A diferença é que agora você escolheu um lado.
O silêncio entre eles era intenso.
Não carregado de desejo.
Carregado de decisão.
Cassian aproximou-se um pouco.
— Se isso escalar — ele disse —, você pode se tornar alvo direto.
— Eu já sou — ela respondeu.
Ele ergueu a mão e, dessa vez, tocou o rosto dela.
Devagar.
Sem impulsividade.
— Eu não vou deixar que te machuquem.
Ela segurou o pulso dele.
— Não me prometa invencibilidade, Cassian.
— Então prometo guerra.
Os olhos dela brilharam.
— Você está disposto a isso?
Ele não hesitou.
— Por ele, sim.
Uma pausa.
— Por você… — a voz dele ficou mais baixa — … também.
O ar entre eles mudou.
Não foi explosivo.
Foi inevitável.
Élise se aproximou meio passo.
Cassian fechou a distância restante.
O beijo não foi suave.
Não foi delicado.
Foi contido demais por tempo demais.
Intenso.
Quase furioso.
Curto.
Mas definitivo.
Quando se afastaram, ambos sabiam:
Agora não havia mais linha.
Não havia mais neutralidade.
Só escolha.
E eles tinham feito a deles.