Capítulo 20 — Quando o Nome Não Basta

1039 Palavras
O ataque não veio com gritos. Veio com elegância. Na manhã seguinte à audiência, três carruagens pararam diante do Ducado de Elsemar. Não eram da corte principal. Eram da Comissão Educacional de Velançay — um braço “técnico” da nobreza, famoso por parecer neutro enquanto executava decisões políticas. Cassian foi avisado quando ainda estava no escritório. — Eles pedem acesso ao herdeiro — informou Madame Rochefort. O silêncio que seguiu foi tão pesado que até o relógio da parede pareceu hesitar antes de marcar o próximo minuto. — Com que justificativa? — Cassian perguntou. — Avaliação formal. Dizem que o desenvolvimento dele precisa ser “revisado por especialistas certificados pela corte”. Cassian fechou os olhos por um instante. Especialistas certificados. Ou seja: gente que nunca havia passado mais de dez minutos observando August sem tentar “corrigi-lo”. — Onde está Élise? — ele perguntou. — Com o menino. Sala de leitura menor. Ele já estava andando antes mesmo de Madame Rochefort terminar a frase. A sala de leitura estava tranquila. August organizava blocos coloridos sobre a mesa. Ele estava particularmente concentrado naquele dia — respiração ritmada, dedos firmes. Élise percebeu a mudança no ar antes de ouvir os passos. Cassian entrou. Ela viu a tensão no maxilar dele. O olhar mais escuro do que o habitual. — Eles chegaram — ele disse. Ela entendeu imediatamente. — Avaliação? Ele assentiu. August percebeu o tom. Os ombros dele ficaram rígidos. — Não — o menino murmurou, quase inaudível. Élise se ajoelhou na frente dele. — Ei. Olha pra mim. Ele não olhou. Ela não forçou. — Ninguém vai te tocar sem você permitir. Eu estou aqui. Cassian observava a cena com o coração acelerado. Ele odiava isso. Odiava que decisões políticas invadissem o único espaço onde o filho finalmente respirava com menos dor. Batidas na porta. Firmes. — Senhor Duque — disse uma voz do lado de fora —, precisamos começar. Cassian não respondeu imediatamente. Ele olhou para Élise. Ela assentiu levemente. Era hora. A sala de música foi escolhida para a “avaliação”. Ampla. Iluminada. Oficial. Três avaliadores estavam presentes. Dois homens, uma mulher. Papéis, pranchetas, olhares clínicos demais. August entrou segurando a mão de Élise com força. — A médica não pode interferir — disse um dos homens. — Ela não é médica da comissão — acrescentou a mulher. Cassian se posicionou ao lado do filho. — Ela fica — disse ele. — Senhor Duque, isso compromete a neutralidade— — Meu filho não é um experimento — Cassian cortou. — E não ficará sozinho. O avaliador respirou fundo, claramente irritado. — Muito bem. Comecemos. As primeiras perguntas foram simples. Nome. Idade. Cores. August respondeu baixo, com esforço. Depois vieram os testes de contato visual forçado. — Olhe para mim quando eu falar com você. O menino começou a balançar levemente o corpo. Élise percebeu na hora. — Ele não precisa manter contato visual para ouvir — disse ela, calma. — Senhora, peço que não interfira— — Não é interferência. É respeito neurológico. O avaliador ignorou. — Se não olhar, não podemos confirmar compreensão. August começou a respirar mais rápido. Cassian viu. Algo dentro dele começou a subir. — Vamos tentar outra abordagem — sugeriu Élise. — Não precisamos de sugestões externas — disse a mulher da comissão. August levou as mãos aos ouvidos. — Chega — Cassian disse. — Senhor Duque, precisamos concluir o protocolo— O menino entrou em crise. Não foi escandaloso. Foi pior. Ele enrijeceu. Parou de responder. A respiração ficou irregular. Os olhos perderam foco. Élise se ajoelhou imediatamente. — August, respira comigo. Ela não tocou de imediato. Esperou o momento certo. — Inspira… isso. Eu estou aqui. Cassian se virou para os avaliadores. — Acabou. — Ainda não finalizamos— — Eu disse que acabou. A voz dele não foi alta. Foi mortalmente fria. — Isso constará como resistência à avaliação oficial — disse um dos homens. Cassian deu um passo à frente. — Então escreva exatamente isso: o Duque de Elsemar interrompeu uma avaliação que estava prejudicando seu herdeiro. O homem hesitou. — Isso pode gerar sanções. Cassian inclinou levemente a cabeça. — Tentem. Silêncio. Os avaliadores recolheram os papéis. Saíram. A porta fechou. O castelo pareceu soltar o ar. August ainda estava encolhido quando Cassian voltou a atenção para ele. Élise mantinha a voz baixa, constante, guiando o menino de volta. Levou tempo. Muito tempo. Quando finalmente a respiração de August estabilizou, Cassian sentiu algo quebrar dentro dele. Ele havia permitido aquilo. Ele havia confiado que conseguiria controlar a corte. Ele estava errado. Mais tarde, no corredor vazio, Cassian segurou o braço de Élise. Não com força. Mas com urgência. — Eu não deveria ter deixado isso acontecer. — Você não sabia que iriam forçar assim — ela respondeu. — Eu sabia do que são capazes. Ela o encarou. — Então agora você também sabe do que nós somos capazes. O olhar dele vacilou. — Nós? — Sim. Você não interrompeu por política. Interrompeu como pai. Cassian respirou fundo. — Se a corte retaliar— — Eles já retaliaram — ela disse. — A diferença é que agora você escolheu um lado. O silêncio entre eles era intenso. Não carregado de desejo. Carregado de decisão. Cassian aproximou-se um pouco. — Se isso escalar — ele disse —, você pode se tornar alvo direto. — Eu já sou — ela respondeu. Ele ergueu a mão e, dessa vez, tocou o rosto dela. Devagar. Sem impulsividade. — Eu não vou deixar que te machuquem. Ela segurou o pulso dele. — Não me prometa invencibilidade, Cassian. — Então prometo guerra. Os olhos dela brilharam. — Você está disposto a isso? Ele não hesitou. — Por ele, sim. Uma pausa. — Por você… — a voz dele ficou mais baixa — … também. O ar entre eles mudou. Não foi explosivo. Foi inevitável. Élise se aproximou meio passo. Cassian fechou a distância restante. O beijo não foi suave. Não foi delicado. Foi contido demais por tempo demais. Intenso. Quase furioso. Curto. Mas definitivo. Quando se afastaram, ambos sabiam: Agora não havia mais linha. Não havia mais neutralidade. Só escolha. E eles tinham feito a deles.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR