A sala do conselho de Elsemar era fria de propósito.
Não por ausência de lareiras — havia três, todas acesas —, mas pela forma como fora construída: teto alto demais, janelas estreitas, cadeiras rígidas alinhadas em semicírculo. Nada ali convidava ao conforto. Era um lugar feito para lembrar a todos que poder não precisava ser gentil.
Élise sentiu isso no instante em que entrou.
Cassian caminhava ao seu lado, postura impecável, expressão indecifrável. Ele não tocou nela. Não precisava. A presença dele era um campo de força silencioso.
Os membros da alta corte já estavam sentados.
Duques, marqueses, conselheiros antigos demais para lembrar quando haviam sido úteis pela última vez. Olhares se voltaram para ela com curiosidade disfarçada de cortesia.
— Senhor Duque — disse o Marquês de Bellune, com um sorriso polido demais. — Agradecemos por atender ao nosso convite.
— Não foi um convite — Cassian respondeu. — Foi uma intimação disfarçada.
O sorriso do marquês vacilou por meio segundo.
— Vejo que está… direto hoje.
— Sempre sou — Cassian disse. — Vocês é que costumam fingir surpresa.
Élise manteve o olhar calmo. Não desviou. Não se encolheu. Sabia que qualquer gesto fora do lugar seria usado contra ela.
— Senhorita Varnier — disse uma duquesa de cabelos grisalhos, voz suave como veneno. — Agradecemos sua presença.
— Eu não — Élise respondeu, educada. — Mas estou à disposição.
Alguns murmúrios surgiram. Cassian reprimiu um sorriso.
— Vamos ser objetivos — continuou a duquesa. — Sua permanência no Ducado de Elsemar tem levantado… questionamentos.
— Imagino — Élise respondeu.
— O herdeiro August apresenta uma condição delicada — disse outro conselheiro. — E sua influência sobre ele tem sido… intensa.
— Chama-se cuidado contínuo — ela disse. — É recomendado em todos os tratados médicos sérios.
— Médicos — o homem repetiu, com certo desdém. — Velançay tem seus próprios métodos.
Cassian se inclinou ligeiramente à frente.
— E é exatamente por isso que meu filho sofreu durante anos — disse, frio. — Porque “métodos tradicionais” ignoram o indivíduo.
O silêncio caiu pesado.
— Senhor Duque — tentou intervir o marquês —, não estamos aqui para discutir o passado.
— O passado é o que vocês estão tentando repetir — Cassian rebateu. — Com outra vítima.
Élise respirou fundo.
— Se me permitem — ela disse. — August não é um problema a ser corrigido.
— Ele é uma criança a ser compreendida.
— Compreendida… ou moldada? — provocou a duquesa.
Élise sorriu. Não de alegria. De precisão.
— Moldar alguém é quebrar o que não se entende — disse. — Eu não faço isso com crianças.
— E acha que nós fazemos?
— Vocês fazem com tudo — ela respondeu. — Pessoas, histórias, verdades.
O ar ficou denso.
Cassian observava, atento. Orgulhoso. Alarmado.
— Senhorita Varnier — disse o marquês —, seu envolvimento emocional pode estar comprometendo seu julgamento profissional.
— Meu julgamento profissional salvou August de crises constantes — ela respondeu. — Melhorou sua comunicação. Reduziu seu sofrimento.
— Ainda assim — o homem insistiu —, sua posição aqui não é… adequada.
Cassian se levantou.
O som da cadeira arrastando ecoou como um tiro.
— Chega — ele disse. — Se querem atacar alguém, façam isso olhando pra mim.
Todos se voltaram para ele.
— Élise Varnier está aqui por minha decisão — continuou. — E continuará enquanto eu decidir.
— Está colocando seu nome em risco — alertou a duquesa.
— Meu nome sobreviveu a coisas piores — Cassian respondeu. — O que eu não vou permitir é que matem o pouco de humanidade que restou neste castelo.
Élise sentiu algo apertar no peito. Não era medo.
Era… algo perigoso demais para nomear.
— Então é isso? — perguntou o marquês. — Vai desafiar a corte inteira por causa de uma médica?
Cassian olhou para Élise. Depois, voltou-se para eles.
— Não — disse. — Vou desafiá-los por causa do meu filho.
A audiência terminou sem decisão formal.
Mas Élise sabia: aquilo não havia acabado.
Horas depois, ela encontrou Cassian no jardim interno. Ele estava de mangas arregaçadas, o brasão ausente — só um homem, não um duque.
— Você não precisava ter feito aquilo — ela disse.
— Precisava — ele respondeu. — Há anos.
Ela se aproximou.
— Eles não vão esquecer.
— Eu também não — ele disse.
Houve um silêncio confortável. Raro.
— Você foi impressionante lá dentro — ele acrescentou.
— Eu estava furiosa — ela respondeu. — Só soube esconder.
Cassian riu baixo.
— É uma habilidade valiosa.
Eles caminharam lado a lado.
— Cassian… — Élise começou. — Isso está indo longe demais.
— Está indo exatamente onde precisa — ele respondeu.
Ela parou.
— Você está misturando coisas — disse. — Meu trabalho. Seu filho. E… nós.
Cassian virou-se para ela.
— Não — disse. — Eu só parei de fingir que dá pra separar.
O olhar entre eles ficou preso. O mundo pareceu encolher.
— Isso não termina bem — ela murmurou.
— Talvez — ele disse. — Mas termina de verdade.
Ele se aproximou. Não tocou. Não ainda.
— Eu não quero ser sua fraqueza — ela disse.
— Tarde demais — ele respondeu. — Você é minha lucidez.
Ela engoliu em seco.
— Cassian…
Ele inclinou a cabeça, a testa quase tocando a dela. O ar entre eles era quente, elétrico.
— Se eu passar dessa linha — ele disse —, não volto atrás.
Élise fechou os olhos por um segundo.
— Então não passe — ela murmurou.
Ele respirou fundo. Se afastou.
— Hoje não — disse. — Mas essa linha… já está marcada.
Do outro lado do jardim, August observava os dois pela janela.
Ele ergueu a mão pequena e fez um sinal simples.
Juntos.
Cassian viu.
Élise também.
E ambos souberam:
não era mais só sobre eles.