Capítulo 18 — Onde a Linha É Cruzada

1090 Palavras
O castelo de Elsemar nunca dormia de verdade. Mesmo quando as luzes se apagavam, quando os corredores ficavam vazios e o vento noturno assobiava entre as torres, havia algo pulsando ali dentro. Uma tensão antiga, feita de decisões engolidas, de silêncios impostos à força. Naquela noite, porém, havia algo novo. Cassian caminhava pelo corredor oeste com passos longos e precisos, o som das botas ecoando como um aviso. Não era o tipo de homem que vagava sem propósito. Cada movimento tinha intenção, mesmo quando ele fingia o contrário. Ele parou diante da porta de Élise. Ficou ali alguns segundos — o suficiente para odiar a própria hesitação. Bateu. Do outro lado, Élise demorou a responder. Quando abriu a porta, estava sem adornos, os cabelos ruivos soltos caindo sobre os ombros, o vestido simples demais para qualquer evento da corte. Ainda assim, parecia perigosamente fora de lugar naquele castelo aristocrático. — Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou. — Sim — Cassian respondeu. — E não vai esperar até amanhã. Ela abriu mais a porta, dando passagem. — Então entre. O quarto era pequeno, mas quente. Havia livros espalhados, anotações médicas, um brinquedo de madeira esquecido perto da janela — algo que August havia levado até ali mais cedo. Cassian fechou a porta atrás de si. — A corte está pressionando — ele disse, sem rodeios. — Não mais em sussurros. — Eu imaginei — respondeu Élise, cruzando os braços. — Eles não gostam de perder controle. — Eles querem que você vá embora. O silêncio caiu pesado. — E você? — ela perguntou, finalmente. Cassian não respondeu de imediato. Ele a encarou como se estivesse travando uma guerra interna — e, de certa forma, estava. — Eu disse não. O olhar de Élise se suavizou por um instante, mas não de alívio. De compreensão. — Isso vai ter um preço — ela disse. — Sempre tem. Ela caminhou até a janela, observando a lua refletida nos jardins internos. — Cassian… — começou. — Eu não vim aqui pra virar um problema político. — Você não é um problema — ele retrucou. — Você é a solução que eles não conseguem controlar. Ela virou-se, surpresa. — Você tem noção do que está dizendo? — Tenho — ele respondeu. — E isso é o que me assusta. O silêncio entre eles mudou de natureza. Não era mais defensivo. Era… carregado. — August dormiu cedo hoje — Élise disse, mudando o foco. — Ele ficou agitado depois do jantar. — Ele percebeu — Cassian respondeu. — Sempre percebe. Ela assentiu. — Ele sente quando o ambiente muda. Quando alguém entra em alerta. — Como você. Ela deu um meio sorriso cansado. — Eu já vivo em alerta desde que cheguei aqui. Cassian deu um passo à frente. — Então por que não foi embora? A pergunta saiu mais crua do que ele pretendia. Élise respirou fundo. — Porque August precisa de estabilidade. — Porque eu sou boa no que faço. — E porque… — ela hesitou. Cassian não desviou o olhar. — Porque o quê? — Porque eu me importo — ela concluiu. — Mesmo sabendo que isso pode dar m***a. Cassian soltou uma risada baixa. — Essa é a definição exata de viver em Velançay. Ele se aproximou mais. Agora estavam perigosamente perto. Perto demais para fingir neutralidade. — Você não tem medo de mim? — ele perguntou. Ela o encarou. — Tenho medo do que você representa — disse. — Do peso, do poder, do nome. — Mas de você? Não. Aquilo foi como um golpe direto no estômago. Cassian sentiu algo ceder. Uma muralha antiga, construída com disciplina e perda. — Você deveria — ele murmurou. — Talvez — ela respondeu. — Mas não vou. O ar entre eles ficou denso, elétrico. Cassian ergueu a mão, tocando finalmente o pulso dela. Foi um contato mínimo — quase nada. Mas foi demais. Élise não se afastou. — Cassian… — ela advertiu, em voz baixa. — Eu sei — ele respondeu, os olhos escuros fixos nela. — Eu sei exatamente o que estou fazendo. — Não — ela disse. — Você sabe o que quer. Não é a mesma coisa. Ele apertou levemente os dedos ao redor do pulso dela, sentindo o calor, o pulso acelerado. — Você complica tudo — ele murmurou. — E você é um péssimo mentiroso — ela devolveu. O olhar dele desceu até a boca dela por uma fração de segundo. Um erro. Um deslize. Élise percebeu. Ela se afastou primeiro. — Não — disse, firme. — Ainda não. Cassian fechou os olhos por um instante, respirando fundo. — Se continuar aqui — ele disse —, eles vão usar você pra me atingir. — Eles já estão fazendo isso — ela respondeu. — A diferença é que agora você está olhando. Ele abriu os olhos. — Eu posso protegê-la. — Não me prometa isso — ela rebateu. — Promessas desse tipo… quebram. O silêncio voltou, pesado, mas agora carregado de algo novo: respeito. — Amanhã — Cassian disse —, haverá uma audiência informal. — Alguns membros da corte querem “avaliar” sua permanência. Élise riu, sem humor. — Avaliar. Claro. — Eu estarei lá — ele continuou. — Mas eles vão provocar. Vão tentar te desestabilizar. — Boa sorte pra eles — ela respondeu. — Eu lido com adultos mimados todos os dias. Um canto da boca dele se ergueu. — Você realmente não entende com quem está lidando. — Entendo melhor do que imagina — ela disse. — Eles são só… mais bem vestidos. Cassian deu uma risada curta, verdadeira. Rara. — Você vai ficar? — ele perguntou, sério. Élise o encarou por um longo momento. — Vou — respondeu. — Enquanto August precisar de mim. — Enquanto eu puder ajudá-lo. Cassian assentiu lentamente. — Então eu também fico — disse. — Do seu lado. O olhar dela vacilou por um instante. — Cassian… — Não como duque — ele completou. — Como pai. E talvez… algo mais. Quando ele saiu do quarto, Élise apoiou a testa na porta fechada, soltando o ar que nem percebera que segurava. Aquilo estava ficando perigoso. Não pela corte. Mas por eles. Na manhã seguinte, August segurou a mão de Élise com força incomum. — Fica — ele murmurou. Ela se ajoelhou diante dele, sorrindo. — Eu fico. Do outro lado do salão, Cassian observava a cena com o coração acelerado. A corte podia vir. Velançay podia chiar. Mas naquele momento, ele sabia: Não havia mais volta.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR