O castelo de Elsemar nunca dormia de verdade.
Mesmo quando as luzes se apagavam, quando os corredores ficavam vazios e o vento noturno assobiava entre as torres, havia algo pulsando ali dentro. Uma tensão antiga, feita de decisões engolidas, de silêncios impostos à força.
Naquela noite, porém, havia algo novo.
Cassian caminhava pelo corredor oeste com passos longos e precisos, o som das botas ecoando como um aviso. Não era o tipo de homem que vagava sem propósito. Cada movimento tinha intenção, mesmo quando ele fingia o contrário.
Ele parou diante da porta de Élise.
Ficou ali alguns segundos — o suficiente para odiar a própria hesitação.
Bateu.
Do outro lado, Élise demorou a responder. Quando abriu a porta, estava sem adornos, os cabelos ruivos soltos caindo sobre os ombros, o vestido simples demais para qualquer evento da corte. Ainda assim, parecia perigosamente fora de lugar naquele castelo aristocrático.
— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou.
— Sim — Cassian respondeu. — E não vai esperar até amanhã.
Ela abriu mais a porta, dando passagem.
— Então entre.
O quarto era pequeno, mas quente. Havia livros espalhados, anotações médicas, um brinquedo de madeira esquecido perto da janela — algo que August havia levado até ali mais cedo.
Cassian fechou a porta atrás de si.
— A corte está pressionando — ele disse, sem rodeios. — Não mais em sussurros.
— Eu imaginei — respondeu Élise, cruzando os braços. — Eles não gostam de perder controle.
— Eles querem que você vá embora.
O silêncio caiu pesado.
— E você? — ela perguntou, finalmente.
Cassian não respondeu de imediato. Ele a encarou como se estivesse travando uma guerra interna — e, de certa forma, estava.
— Eu disse não.
O olhar de Élise se suavizou por um instante, mas não de alívio. De compreensão.
— Isso vai ter um preço — ela disse.
— Sempre tem.
Ela caminhou até a janela, observando a lua refletida nos jardins internos.
— Cassian… — começou. — Eu não vim aqui pra virar um problema político.
— Você não é um problema — ele retrucou. — Você é a solução que eles não conseguem controlar.
Ela virou-se, surpresa.
— Você tem noção do que está dizendo?
— Tenho — ele respondeu. — E isso é o que me assusta.
O silêncio entre eles mudou de natureza. Não era mais defensivo. Era… carregado.
— August dormiu cedo hoje — Élise disse, mudando o foco. — Ele ficou agitado depois do jantar.
— Ele percebeu — Cassian respondeu. — Sempre percebe.
Ela assentiu.
— Ele sente quando o ambiente muda. Quando alguém entra em alerta.
— Como você.
Ela deu um meio sorriso cansado.
— Eu já vivo em alerta desde que cheguei aqui.
Cassian deu um passo à frente.
— Então por que não foi embora?
A pergunta saiu mais crua do que ele pretendia.
Élise respirou fundo.
— Porque August precisa de estabilidade.
— Porque eu sou boa no que faço.
— E porque… — ela hesitou.
Cassian não desviou o olhar.
— Porque o quê?
— Porque eu me importo — ela concluiu. — Mesmo sabendo que isso pode dar m***a.
Cassian soltou uma risada baixa.
— Essa é a definição exata de viver em Velançay.
Ele se aproximou mais. Agora estavam perigosamente perto. Perto demais para fingir neutralidade.
— Você não tem medo de mim? — ele perguntou.
Ela o encarou.
— Tenho medo do que você representa — disse. — Do peso, do poder, do nome.
— Mas de você? Não.
Aquilo foi como um golpe direto no estômago.
Cassian sentiu algo ceder. Uma muralha antiga, construída com disciplina e perda.
— Você deveria — ele murmurou.
— Talvez — ela respondeu. — Mas não vou.
O ar entre eles ficou denso, elétrico. Cassian ergueu a mão, tocando finalmente o pulso dela. Foi um contato mínimo — quase nada.
Mas foi demais.
Élise não se afastou.
— Cassian… — ela advertiu, em voz baixa.
— Eu sei — ele respondeu, os olhos escuros fixos nela. — Eu sei exatamente o que estou fazendo.
— Não — ela disse. — Você sabe o que quer. Não é a mesma coisa.
Ele apertou levemente os dedos ao redor do pulso dela, sentindo o calor, o pulso acelerado.
— Você complica tudo — ele murmurou.
— E você é um péssimo mentiroso — ela devolveu.
O olhar dele desceu até a boca dela por uma fração de segundo. Um erro. Um deslize.
Élise percebeu.
Ela se afastou primeiro.
— Não — disse, firme. — Ainda não.
Cassian fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
— Se continuar aqui — ele disse —, eles vão usar você pra me atingir.
— Eles já estão fazendo isso — ela respondeu. — A diferença é que agora você está olhando.
Ele abriu os olhos.
— Eu posso protegê-la.
— Não me prometa isso — ela rebateu. — Promessas desse tipo… quebram.
O silêncio voltou, pesado, mas agora carregado de algo novo: respeito.
— Amanhã — Cassian disse —, haverá uma audiência informal.
— Alguns membros da corte querem “avaliar” sua permanência.
Élise riu, sem humor.
— Avaliar. Claro.
— Eu estarei lá — ele continuou. — Mas eles vão provocar. Vão tentar te desestabilizar.
— Boa sorte pra eles — ela respondeu. — Eu lido com adultos mimados todos os dias.
Um canto da boca dele se ergueu.
— Você realmente não entende com quem está lidando.
— Entendo melhor do que imagina — ela disse. — Eles são só… mais bem vestidos.
Cassian deu uma risada curta, verdadeira. Rara.
— Você vai ficar? — ele perguntou, sério.
Élise o encarou por um longo momento.
— Vou — respondeu. — Enquanto August precisar de mim.
— Enquanto eu puder ajudá-lo.
Cassian assentiu lentamente.
— Então eu também fico — disse. — Do seu lado.
O olhar dela vacilou por um instante.
— Cassian…
— Não como duque — ele completou. — Como pai.
E talvez… algo mais.
Quando ele saiu do quarto, Élise apoiou a testa na porta fechada, soltando o ar que nem percebera que segurava.
Aquilo estava ficando perigoso.
Não pela corte.
Mas por eles.
Na manhã seguinte, August segurou a mão de Élise com força incomum.
— Fica — ele murmurou.
Ela se ajoelhou diante dele, sorrindo.
— Eu fico.
Do outro lado do salão, Cassian observava a cena com o coração acelerado.
A corte podia vir.
Velançay podia chiar.
Mas naquele momento, ele sabia:
Não havia mais volta.