A primeira carta chegou ao amanhecer.
Não foi entregue a Cassian. Foi entregue à governanta-chefe, selada com cera azul — a cor da alta nobreza de Velançay. Isso, por si só, já era um aviso.
Madame Rochefort leu o conteúdo com a testa franzida, os lábios comprimidos numa linha rígida. Quando terminou, dobrou o papel com cuidado excessivo, como se o simples ato de amarrotá-lo pudesse causar um escândalo.
— Então… começou — murmurou para si mesma.
Ela não precisava dizer em voz alta o que significava. Todo o castelo sentia.
Élise Varnier estava sendo notada.
E, em Velançay, ser notada sem um título era perigoso pra c*****o.
Horas depois, Élise estava na sala de leitura menor, um espaço que havia descoberto quase por acaso. As janelas davam para o jardim interno, e o som da água da fonte criava um ritmo constante, previsível — algo que August apreciava profundamente.
O menino estava sentado ao seu lado, folheando um livro ilustrado com cuidado quase reverente.
— Você gosta daqui — disse Élise, em tom baixo.
August assentiu, sem erguer os olhos.
— Silêncio — murmurou.
Ela sorriu.
— Eu também.
O som da porta abrindo quebrou a tranquilidade.
Cassian entrou sem anunciar sua presença. Usava um traje escuro, perfeitamente alinhado, mas havia algo fora do lugar nele. Não era a postura. Não era o olhar.
Era a tensão.
— Precisamos conversar — disse ele.
Élise fechou o livro devagar.
— August — ela falou com suavidade. — Você pode continuar olhando as figuras. Eu volto já.
O menino hesitou, lançou um olhar rápido para o pai, depois assentiu.
Cassian esperou até que eles estivessem no corredor.
— A corte começou a perguntar sobre você — ele disse, direto.
— Isso era inevitável — respondeu Élise. — Eu sabia desde o primeiro dia.
— Você não parece preocupada.
— Porque não estou — disse ela. — Eu não fiz nada de errado.
Cassian soltou uma risada curta, sem humor.
— Em Velançay, isso nunca impediu ninguém de ser atacado.
Ela o encarou.
— Está me avisando… ou me ameaçando?
O maxilar dele se contraiu.
— Estou tentando te proteger.
As palavras ficaram suspensas entre eles, pesadas.
— Proteger… de quê, exatamente? — ela perguntou.
Cassian deu alguns passos pelo corredor, como um animal preso.
— Estão dizendo que você está se aproveitando da fragilidade de August.
— Que usa sua posição para se aproximar demais da família Elsemar.
— Que busca influência.
Cada frase era dita com mais dureza que a anterior.
— E você acredita nisso? — Élise perguntou, calma demais.
Cassian parou.
O silêncio respondeu por ele antes que a boca pudesse mentir.
— Não — disse, por fim. — Mas eles não precisam que eu acredite.
Ela assentiu lentamente.
— Então deixe-me adivinhar — disse. — Vão sugerir que eu vá embora.
— Vão sugerir que você seja substituída — corrigiu. — Por alguém… mais conveniente.
— Alguém que não escuta August — ela rebateu. — Que o force a se adaptar.
— Que o trate como um problema.
Cassian fechou os olhos por um segundo.
— Eu não vou permitir isso.
— Você já permitiu coisas piores — disse ela, sem acusação. — Antes de mim.
Aquilo doeu.
Cassian não estava acostumado a ser confrontado assim. Muito menos por alguém que não levantava a voz, não precisava de drama.
— Você não entende o peso do meu nome — ele disse.
— Eu entendo — ela respondeu. — É justamente por isso que August sofre.
Ele a encarou, algo escuro se movendo em seu olhar.
— Você é perigosa, Élise Varnier.
— Não — ela disse. — Eu sou inconveniente.
O olhar dele desceu por um instante. Rápido demais para ser óbvio. Lento demais para ser ignorado.
— Isso não muda o fato de que você está aqui por minha decisão — disse Cassian. — E eu não costumo errar.
Ela deu um meio sorriso.
— Todos erram — disse. — A diferença é o que fazem depois.
Naquela noite, a corte chegou.
Carruagens alinharam-se diante do Ducado de Elsemar, lanternas iluminando o brasão prateado como um lembrete c***l de poder e expectativa. Nobres atravessaram os portões com sorrisos afiados, olhos curiosos, bocas cheias de perguntas não ditas.
Élise não deveria estar presente.
Mas Cassian a levou mesmo assim.
Vestida com um traje simples, elegante sem ostentação, Élise entrou no salão ao lado do duque. O murmúrio foi imediato. Olhares se viraram. Avaliaram. Julgaram.
— Quem é ela?
— Não reconheço o nome.
— Médica, dizem…
— Próxima demais do herdeiro.
Cassian sentiu cada palavra como uma lâmina.
Ele manteve a mão firme nas costas de Élise, um gesto sutil, mas impossível de ignorar. Não era possessivo — era declaratório.
Ela percebeu.
E, pela primeira vez desde que chegara àquele castelo, sentiu o peso real da escolha que havia feito ao ficar.
— Está tudo bem — ela murmurou, sem olhá-lo.
— Não — ele respondeu. — Não está.
Um dos duques mais antigos de Velançay se aproximou.
— Cassian — disse ele, com um sorriso ensaiado. — Vejo que trouxe companhia.
— Trouxe alguém essencial — respondeu Cassian.
O homem ergueu uma sobrancelha.
— Essencial… é uma palavra forte.
— Eu não costumo usar palavras fracas.
O silêncio que se seguiu foi delicioso.
Élise manteve a postura ereta, o olhar tranquilo. Ela não sorria para agradar. Não se curvava. Não pedia espaço.
Ela simplesmente ocupava.
Mais tarde, no terraço, Cassian encontrou Élise sozinha, observando as luzes distantes da cidade.
— Você não deveria ter feito isso — ela disse, sem se virar.
— Eu sei — ele respondeu.
— Vai complicar as coisas.
— Já estavam complicadas.
Ela se virou, finalmente.
— Você não me deve nada, Cassian.
Ele deu um passo à frente.
— Eu devo tudo ao meu filho — disse. — E ele escolheu você.
O vento frio cortou entre eles.
— Velançay não perdoa escolhas feitas com o coração — ela murmurou.
Cassian ergueu a mão, parando a poucos centímetros do rosto dela. Não tocou. Não ainda.
— Então talvez esteja na hora de Velançay aprender.
O olhar deles se prendeu. Algo ali passou do limite silencioso que haviam mantido até então.
Não era amor.
Ainda.
Mas já era inevitável.
E ambos sabiam.