Capítulo 17 — O Que a Corte Vê, o Que o Coração Cala

1056 Palavras
A primeira carta chegou ao amanhecer. Não foi entregue a Cassian. Foi entregue à governanta-chefe, selada com cera azul — a cor da alta nobreza de Velançay. Isso, por si só, já era um aviso. Madame Rochefort leu o conteúdo com a testa franzida, os lábios comprimidos numa linha rígida. Quando terminou, dobrou o papel com cuidado excessivo, como se o simples ato de amarrotá-lo pudesse causar um escândalo. — Então… começou — murmurou para si mesma. Ela não precisava dizer em voz alta o que significava. Todo o castelo sentia. Élise Varnier estava sendo notada. E, em Velançay, ser notada sem um título era perigoso pra c*****o. Horas depois, Élise estava na sala de leitura menor, um espaço que havia descoberto quase por acaso. As janelas davam para o jardim interno, e o som da água da fonte criava um ritmo constante, previsível — algo que August apreciava profundamente. O menino estava sentado ao seu lado, folheando um livro ilustrado com cuidado quase reverente. — Você gosta daqui — disse Élise, em tom baixo. August assentiu, sem erguer os olhos. — Silêncio — murmurou. Ela sorriu. — Eu também. O som da porta abrindo quebrou a tranquilidade. Cassian entrou sem anunciar sua presença. Usava um traje escuro, perfeitamente alinhado, mas havia algo fora do lugar nele. Não era a postura. Não era o olhar. Era a tensão. — Precisamos conversar — disse ele. Élise fechou o livro devagar. — August — ela falou com suavidade. — Você pode continuar olhando as figuras. Eu volto já. O menino hesitou, lançou um olhar rápido para o pai, depois assentiu. Cassian esperou até que eles estivessem no corredor. — A corte começou a perguntar sobre você — ele disse, direto. — Isso era inevitável — respondeu Élise. — Eu sabia desde o primeiro dia. — Você não parece preocupada. — Porque não estou — disse ela. — Eu não fiz nada de errado. Cassian soltou uma risada curta, sem humor. — Em Velançay, isso nunca impediu ninguém de ser atacado. Ela o encarou. — Está me avisando… ou me ameaçando? O maxilar dele se contraiu. — Estou tentando te proteger. As palavras ficaram suspensas entre eles, pesadas. — Proteger… de quê, exatamente? — ela perguntou. Cassian deu alguns passos pelo corredor, como um animal preso. — Estão dizendo que você está se aproveitando da fragilidade de August. — Que usa sua posição para se aproximar demais da família Elsemar. — Que busca influência. Cada frase era dita com mais dureza que a anterior. — E você acredita nisso? — Élise perguntou, calma demais. Cassian parou. O silêncio respondeu por ele antes que a boca pudesse mentir. — Não — disse, por fim. — Mas eles não precisam que eu acredite. Ela assentiu lentamente. — Então deixe-me adivinhar — disse. — Vão sugerir que eu vá embora. — Vão sugerir que você seja substituída — corrigiu. — Por alguém… mais conveniente. — Alguém que não escuta August — ela rebateu. — Que o force a se adaptar. — Que o trate como um problema. Cassian fechou os olhos por um segundo. — Eu não vou permitir isso. — Você já permitiu coisas piores — disse ela, sem acusação. — Antes de mim. Aquilo doeu. Cassian não estava acostumado a ser confrontado assim. Muito menos por alguém que não levantava a voz, não precisava de drama. — Você não entende o peso do meu nome — ele disse. — Eu entendo — ela respondeu. — É justamente por isso que August sofre. Ele a encarou, algo escuro se movendo em seu olhar. — Você é perigosa, Élise Varnier. — Não — ela disse. — Eu sou inconveniente. O olhar dele desceu por um instante. Rápido demais para ser óbvio. Lento demais para ser ignorado. — Isso não muda o fato de que você está aqui por minha decisão — disse Cassian. — E eu não costumo errar. Ela deu um meio sorriso. — Todos erram — disse. — A diferença é o que fazem depois. Naquela noite, a corte chegou. Carruagens alinharam-se diante do Ducado de Elsemar, lanternas iluminando o brasão prateado como um lembrete c***l de poder e expectativa. Nobres atravessaram os portões com sorrisos afiados, olhos curiosos, bocas cheias de perguntas não ditas. Élise não deveria estar presente. Mas Cassian a levou mesmo assim. Vestida com um traje simples, elegante sem ostentação, Élise entrou no salão ao lado do duque. O murmúrio foi imediato. Olhares se viraram. Avaliaram. Julgaram. — Quem é ela? — Não reconheço o nome. — Médica, dizem… — Próxima demais do herdeiro. Cassian sentiu cada palavra como uma lâmina. Ele manteve a mão firme nas costas de Élise, um gesto sutil, mas impossível de ignorar. Não era possessivo — era declaratório. Ela percebeu. E, pela primeira vez desde que chegara àquele castelo, sentiu o peso real da escolha que havia feito ao ficar. — Está tudo bem — ela murmurou, sem olhá-lo. — Não — ele respondeu. — Não está. Um dos duques mais antigos de Velançay se aproximou. — Cassian — disse ele, com um sorriso ensaiado. — Vejo que trouxe companhia. — Trouxe alguém essencial — respondeu Cassian. O homem ergueu uma sobrancelha. — Essencial… é uma palavra forte. — Eu não costumo usar palavras fracas. O silêncio que se seguiu foi delicioso. Élise manteve a postura ereta, o olhar tranquilo. Ela não sorria para agradar. Não se curvava. Não pedia espaço. Ela simplesmente ocupava. Mais tarde, no terraço, Cassian encontrou Élise sozinha, observando as luzes distantes da cidade. — Você não deveria ter feito isso — ela disse, sem se virar. — Eu sei — ele respondeu. — Vai complicar as coisas. — Já estavam complicadas. Ela se virou, finalmente. — Você não me deve nada, Cassian. Ele deu um passo à frente. — Eu devo tudo ao meu filho — disse. — E ele escolheu você. O vento frio cortou entre eles. — Velançay não perdoa escolhas feitas com o coração — ela murmurou. Cassian ergueu a mão, parando a poucos centímetros do rosto dela. Não tocou. Não ainda. — Então talvez esteja na hora de Velançay aprender. O olhar deles se prendeu. Algo ali passou do limite silencioso que haviam mantido até então. Não era amor. Ainda. Mas já era inevitável. E ambos sabiam.
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