O inverno começava a se anunciar em Velançay.
Não pela neve — ainda distante —, mas pelo ar mais cortante nas manhãs e pelo céu que insistia em tons de chumbo. As torres do Ducado de Elsemar surgiam envoltas em névoa ao amanhecer, imponentes como sempre, mas havia algo diferente nelas agora. Algo menos intocável.
Talvez fosse apenas a presença de Élise Varnier.
Ela atravessava o corredor leste com passos contidos, o som suave de seus sapatos ecoando entre as paredes de pedra. O castelo jamais fora silencioso, mas havia aprendido rápido que existiam sons que chamavam atenção — e outros que se perdiam na rotina dos criados.
Ela preferia os segundos.
Usava um vestido simples para os padrões da nobreza local, em tons de verde profundo, mangas longas e gola alta. O tecido marcava discretamente sua silhueta, mas nada ali gritava ambição. Nada além de seus cabelos ruivos, presos de maneira prática, ainda assim impossíveis de ignorar.
Cassian de Elsemar ignorava quase tudo.
Menos aquilo.
Ele observava da extremidade do salão superior, imóvel, mãos cruzadas atrás do corpo, postura rígida como se fosse parte da própria arquitetura do castelo. O brasão prateado dos Elsemar refletia a luz fraca das janelas altas.
— Ela ainda está aqui — murmurou um dos conselheiros, sem perceber que Cassian escutava cada palavra como se fossem direcionadas a ele.
— O duque permitiu — respondeu outro, num tom carregado de julgamento. — Ainda que ninguém entenda por quê.
Cassian não se virou. Não respondeu.
Não precisava.
Ele sentia a presença dela como uma perturbação constante, quase física. Como se o ar mudasse de densidade sempre que Élise atravessava um ambiente. Era irritante. Desconcertante.
E perigoso.
Ela não deveria estar ali. Não daquela forma. Não tão próxima.
Mas estava.
E isso era culpa dele.
Horas depois, Élise estava ajoelhada ao lado de August, no quarto aquecido por uma lareira discreta. O menino organizava pequenas figuras de madeira no chão, alinhando-as por tamanho, cor e textura. Ele murmurava sons baixos, concentrado, completamente alheio ao mundo exterior.
— Muito bem — ela disse com suavidade. — Você percebeu que essa aqui é diferente das outras?
August tocou a peça indicada. Seus dedos hesitaram. Depois, ele assentiu.
— Mais… áspera — murmurou, com esforço.
Élise sorriu, genuinamente.
— Exato.
Ela não forçava contato visual, não exigia respostas rápidas, não pressionava. Aprendera que August florescia quando se sentia seguro — e segurança, naquele castelo frio, era algo raro.
— Ele gosta de você.
A voz de Cassian surgiu da porta.
Élise não se assustou, mas sentiu o impacto. Sempre sentia.
Ela se levantou devagar.
— Ele gosta de constância — respondeu. — E de respeito. Não é algo tão comum por aqui.
O olhar dele se estreitou levemente.
— Está insinuando algo?
— Estou afirmando — disse ela, sem agressividade. — Mas não é uma acusação. É uma observação.
Cassian entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. O estalo ecoou mais alto do que deveria.
— Você fala como se conhecesse este lugar melhor do que eu.
— Eu conheço August — ela respondeu. — E, no momento, isso é o que importa.
Houve um silêncio tenso.
Cassian olhou para o filho. Depois, para Élise.
— Você não age como alguém que teme sua posição — disse ele, por fim.
— Eu temo coisas reais — respondeu. — Títulos não costumam estar entre elas.
Essa mulher.
Cassian sentiu algo apertar em seu peito. Um incômodo antigo, quase esquecido. Ele estava acostumado a ser obedecido, respeitado, temido. Mas Élise não se curvava. Não desafiava abertamente — o que tornava tudo ainda pior.
Ela simplesmente… permanecia.
— Velançay não é gentil com quem não entende suas regras — ele disse.
— E ainda assim, August precisa de alguém que não viva segundo elas — rebateu.
Cassian deu um passo à frente. Depois outro. Parou a poucos centímetros dela.
— Você fala como se fosse indispensável.
Ela ergueu o queixo, encontrando o olhar dele.
— Eu sou — disse. — Para ele.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de coisas não ditas. Cassian percebeu, com um desconforto que não sentia há anos, que ela estava certa.
E isso o enfurecia.
Mas havia algo mais. Algo que ele não nomeava. Não ainda.
À noite, quando o castelo mergulhou em quietude, Cassian permaneceu acordado. Observava as chamas da lareira, o copo de vinho esquecido intacto ao lado.
Pensava nela.
Na maneira como se movia sem pedir permissão. Na forma como falava com August como se o mundo não estivesse sempre prestes a esmagá-lo. Na coragem silenciosa que carregava — aquela que não precisava ser anunciada.
Era inadmissível.
Ele não precisava dela.
Mas o castelo parecia… diferente desde sua chegada.
Mais quente.
Mais vivo.
E Cassian de Elsemar, Duque da Prata, percebeu tarde demais que aquela mulher não era apenas uma visitante temporária em sua casa.
Ela era uma rachadura.
E, se não tomasse cuidado, poderia se tornar um vício.