CAPÍTULO 10 — A Casa Que Respira

1031 Palavras
A Maison Elsemar nunca fora silenciosa de verdade. Cassian sabia disso melhor do que ninguém. Mesmo quando os corredores pareciam vazios, mesmo quando os empregados se recolhiam e o vento cessava nos jardins, havia algo ali — uma presença constante, quase um peso invisível. A casa respirava. Sempre respirara. Naquela manhã, porém, ele sentia essa respiração diferente. Talvez fosse o fato de August não estar grudado à sua perna desde o amanhecer. Talvez fosse o cheiro de chá de ervas que não fazia parte da rotina habitual da mansão. Ou talvez fosse simplesmente a presença de Élise Varnier, infiltrada na vida dos Elsemar de um modo que Cassian jamais permitiria… se tivesse tido escolha. Ele ajustou o nó da gravata diante do espelho do escritório. O reflexo devolveu um homem de postura impecável, cabelos pretos alinhados com precisão excessiva, expressão fria como mármore polido. O Duque de Elsemar. O CEO. O homem que nunca hesitava. Mas por trás daquele olhar, algo rangia. — O senhor não vai se despedir? — perguntou Henriette, a governanta, da porta. Cassian virou-se lentamente. — Ele está com a doutora — respondeu. — Não quero quebrar a rotina. Henriette arqueou levemente a sobrancelha, gesto mínimo, quase imperceptível. — Desde quando o senhor se preocupa tanto com rotinas, meu duque? Cassian não respondeu. Apenas pegou o casaco e saiu. Élise estava sentada no tapete da sala de estar secundária, um espaço antes raramente usado, agora transformado em um pequeno universo particular. Almofadas espalhadas, brinquedos de madeira, livros de pano e uma luz suave entrando pelas janelas altas. August estava deitado de barriga para baixo, concentrado em alinhar pequenos blocos por tamanho e cor. A língua aparecia discretamente no canto da boca, sinal claro de foco absoluto. Ela observava em silêncio. Não havia pressa. Não havia ansiedade. Apenas presença. — Você sabia — murmurou ela, quase como se falasse com a casa — que lugares também aprendem? August não respondeu, mas moveu um bloco vermelho para mais perto dela. Élise sorriu. Desde que chegara à Maison Elsemar, sentia-se estranhamente… acolhida. Não de forma calorosa, não com abraços ou palavras doces. Era um acolhimento silencioso, quase respeitoso. Como se a casa estivesse observando, avaliando se ela merecia ficar. E, aos poucos, fosse permitindo. Ela pegou um livro ilustrado e o abriu lentamente, mostrando as figuras para August sem forçar contato visual. — Olha… um gato. August tocou a imagem com a ponta dos dedos. Depois, tocou a manga do casaco dela. Um toque rápido, quase acidental. Mas Élise sentiu como se tivesse sido algo enorme. Cassian passou a manhã em reuniões tensas. Os chefes das famílias industriais aliadas — e rivais — estavam reunidos em uma sala ampla, rodeada por vidro e aço. Todos sorriam demais. Todos falavam baixo demais. — A Maison Elsemar anda… diferente — comentou um deles, girando o copo de água entre os dedos. — Mais vulnerável. Cassian ergueu o olhar. — Vulnerável não é uma palavra que costumo aceitar quando se refere a mim. — Não falo de você — respondeu o homem. — Falo do herdeiro. Um silêncio pesado caiu sobre a mesa. Cassian fechou lentamente a pasta à sua frente. — Meu filho não é um ponto fraco — disse, a voz firme como aço. — É uma linha que não deve ser cruzada. Os olhares se desviaram. Alguns por medo. Outros por cálculo. Ele saiu da reunião com um gosto amargo na boca. Aquela conversa confirmava algo que ele já temia: August não era apenas uma criança frágil aos olhos do mundo. Era uma peça em um jogo que Cassian nunca quis jogar com o próprio sangue. Na Maison Elsemar, o dia seguia outro ritmo. Élise havia conseguido algo que ninguém mais conseguira até então: fazer August dormir fora do quarto. Ele adormecera no sofá, a cabeça apoiada em seu colo, os dedos ainda segurando um pedaço do tecido de sua saia. Ela não se moveu. Ficou ali, sentindo o peso leve, o ritmo da respiração, o calor pequeno e real daquele corpo que confiava nela sem entender o motivo. Foi então que ouviu o som. Um estalo seco, distante. Ela ergueu a cabeça. A casa respirou fundo. Élise levantou-se com cuidado extremo, ajeitando August no sofá, cobrindo-o com uma manta. Caminhou até a janela lateral e afastou levemente a cortina. Nada. Mas a sensação não se dissipou. Seu coração acelerou, não por pânico, mas por instinto. Algo estava errado. Não agora, talvez não ali, mas… perto. Ela fechou a cortina e voltou imediatamente para perto de August. — Está tudo bem — sussurrou, mais para si mesma do que para ele. August se mexeu, murmurou algo ininteligível e se aproximou mais. Cassian retornou à mansão no início da noite. O céu estava pesado, carregado de nuvens cinzentas que prometiam chuva. Ele caminhou pelos corredores com passos silenciosos, tirando o casaco antes mesmo de chegar à escada principal. Foi então que viu a cena. Élise dormia sentada no sofá, o corpo inclinado de maneira desconfortável. August estava enroscado contra ela, a cabeça no peito dela, os dedos presos ao colar simples que ela usava. Cassian parou. Não respirou por alguns segundos. A imagem não fazia sentido. Não se encaixava na lógica fria que ele usara por anos para proteger tudo ao seu redor. Ela parecia… parte da casa. Parte deles. Henriette surgiu ao seu lado. — Ele não quis sair — disse em voz baixa. — Chorou quando tentamos. Cassian assentiu lentamente. — Deixe-os. Ele observou por mais alguns segundos antes de se aproximar. Com cuidado extremo, ajoelhou-se diante do sofá. August abriu os olhos. Por um instante, Cassian temeu o choro, o afastamento, a rejeição. Mas o menino apenas piscou, olhou para o pai… e voltou a se aconchegar em Élise. Cassian sentiu algo quebrar. Não foi dor. Foi aceitação. Ele se levantou, o olhar agora diferente ao encarar Élise adormecida. Talvez aquela mulher ruiva, de gestos suaves e coragem silenciosa, não fosse apenas uma médica temporária. Talvez fosse a única coisa que tornava aquela casa novamente habitável. E, pela primeira vez desde a morte de Myrielle, Cassian pensou que a Maison Elsemar talvez estivesse aprendendo a respirar de novo.
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