CAPÍTULO 11 — Quando o Silêncio Aprende a Gritar

1004 Palavras
A chuva começou fina, quase educada, como se pedisse permissão para tocar os jardins da Maison Elsemar. Élise percebeu primeiro pelo cheiro. Terra molhada. Pedra antiga. Umidade subindo pelos corredores largos da mansão, misturando-se ao aroma suave de chá que esfriava sobre a mesa lateral. August estava sentado no tapete, com as pernas dobradas de um jeito torto, concentrado em abrir e fechar uma pequena caixa de música. Ela observava em silêncio. Havia aprendido que, com ele, o silêncio não era ausência — era linguagem. A caixa tocava a mesma melodia curta repetidas vezes. Um trecho simples, quase infantil, mas August parecia fascinado pelo mecanismo, pelo previsível. Pelo fato de que, não importa quantas vezes ele abrisse a tampa, a música sempre começava do mesmo ponto. — Você gosta porque ela não muda — murmurou Élise, mais para si mesma. August não respondeu. Mas não fechou a caixa. Isso, para ela, já era resposta suficiente. Desde o episódio da noite anterior — quando Cassian os encontrara adormecidos juntos no sofá — algo havia mudado. Não de forma declarada. Não com palavras. Mas com pequenos gestos. Cassian passara a observá-la mais. Não com desconfiança. Com atenção. Ele não questionara o fato de August ter se recusado a dormir no próprio quarto. Não reclamara quando soube que o menino só aceitara jantar se fosse ao lado dela. Não corrigira quando August puxara a manga de seu paletó para apontar, com dedos trêmulos, onde Élise estava sentada. Aquilo… dizia muito. E assustava mais do que qualquer confronto direto. Cassian estava no escritório, diante da lareira apagada, segurando um envelope pardo que chegara sem remetente. Não precisava abrir para saber que não era algo trivial. A Maison Elsemar não recebia correspondências anônimas. Pessoas que ousavam se esconder atrás do anonimato normalmente tinham algo a ganhar — ou algo a ameaçar. Ele rompeu o lacre com calma. Dentro, apenas uma folha. Sem assinatura. Sem brasão. Apenas uma frase impressa em tinta preta: “Tudo o que é precioso pode ser tomado.” O maxilar de Cassian se contraiu. Não era a primeira ameaça velada que recebia desde que assumira o controle total do conglomerado Elsemar. Mas era a primeira que fazia seu sangue esfriar daquela forma específica. Porque, desta vez, ele sabia exatamente quem era o “precioso”. August. Ele dobrou o papel com cuidado excessivo, como se o gesto pudesse conter a violência que crescia por dentro. Apertou o botão do intercomunicador. — Henriette. — Sim, meu duque? — Reforce a segurança. Discretamente. Ninguém deve perceber. Houve uma breve pausa. — Incluindo a doutora Varnier? Cassian fechou os olhos por um segundo. — Especialmente por ela — respondeu. — Ela não pode se sentir observada. Porque se Élise sentisse medo, August sentiria também. E isso… ele não permitiria. No fim da tarde, Élise levou August para o jardim interno. Era um espaço protegido por muros altos, com árvores frutíferas antigas e um pequeno caminho de pedras claras. O som da chuva ali dentro era diferente — mais suave, quase íntimo. August caminhava devagar, pisando exatamente entre as pedras, evitando qualquer rachadura. Ela o seguia a um passo de distância, sem apressar. — Tá tudo bem errar o caminho às vezes — disse com voz leve. August parou. Olhou para o chão. Depois, deliberadamente, pisou fora da linha. Ela sentiu o coração apertar de um jeito bom. — Isso — sorriu. — Muito bem. Foi então que ele fez algo inesperado. Virou-se para ela. Estendeu a mão. Não era um pedido explícito. Não era desespero. Era… escolha. Élise engoliu em seco antes de aceitar. Os dedos dele eram pequenos, mornos, ligeiramente úmidos de ansiedade. Mas o aperto era firme. Presente. Eles caminharam assim por alguns passos. Até que August parou de novo. Seu corpo enrijeceu. Ela sentiu antes mesmo de entender. — O que foi? — perguntou baixo. August levou a mão livre ao próprio peito, depois apontou para a casa. Ele não tinha palavras. Mas tinha intenção. Algo ali dentro o incomodava. Élise respirou fundo. — Vamos entrar, então. Mas, ao se virar, viu Cassian parado sob o arco de pedra, observando-os. O olhar dele não estava duro. Nem distante. Estava… assustado. — Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou. Cassian demorou um segundo a responder. — Não — disse. — Ainda não. Ela percebeu o “ainda”. E não gostou. Naquela noite, August teve uma crise. Não foi intensa. Não houve gritos. Não houve objetos arremessados. Foi pior. Ele se fechou. Sentou-se no chão do quarto, abraçando os joelhos, balançando o corpo levemente para frente e para trás. Não aceitava toque. Não reagia à voz de Cassian. Não respondia a estímulos. Cassian sentiu o pânico subir como uma onda. — August… — chamou, ajoelhando-se à frente do filho. — Está tudo bem. Papai está aqui. Nada. Ele se virou para Élise, o olhar finalmente quebrado. — Eu não sei o que fazer. Ela se aproximou devagar. Sentou-se no chão, a uma distância segura. Não tentou tocá-lo. — August — disse com suavidade. — Você quer ouvir a música? Ela tirou do bolso a pequena caixa de música. Girou a chave. A melodia preencheu o quarto. August não reagiu de imediato. Mas o balanço diminuiu. Aos poucos. Élise continuou ali. Presente. Sem exigir. Depois de longos minutos, August se inclinou para frente. Tocou a caixa. O som parou. Ele respirou fundo. Cassian soltou o ar que nem percebera estar prendendo. — Obrigado — murmurou, a voz rouca. Élise levantou-se. — Ele sente quando algo está errado — disse. — Mesmo que ninguém diga. Cassian fechou os olhos. Ele pensou no envelope. Na ameaça. No mundo que insistia em lembrar que tudo o que ele tocava virava alvo. — Eu vou protegê-lo — disse. — Custe o que custar. Ela o encarou. — Não sozinha — respondeu. Foi a primeira vez que Cassian não contestou. E, naquele instante, ele soube: Élise Varnier não era apenas alguém de passagem. Ela já fazia parte da linha de fogo.
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