A Maison Elsemar nunca dormia completamente.
Mesmo na madrugada, quando as luzes se apagavam e os corredores mergulhavam numa penumbra elegante, havia sempre algo acordado: o rangido discreto da madeira antiga, o farfalhar distante das árvores no jardim interno, o passo cuidadoso de algum funcionário que se movia como sombra.
Élise aprendera isso rápido.
Naquela noite, porém, ela despertou com a certeza incômoda de que não fora a casa que a acordara.
Foi August.
Ele estava sentado na cama, os olhos abertos demais, fixos em um ponto indefinido do quarto. As mãos apertavam o lençol com força suficiente para deixá-los enrugados.
— Ei… — murmurou Élise, sentando-se ao lado dele.
Não tocou. Apenas ficou ali.
O silêncio entre eles era denso, pesado de algo que não precisava de palavras. August respirava rápido demais. Curto demais. Como se o ar estivesse acabando.
Ela se inclinou um pouco, mantendo a voz baixa e estável.
— Você está seguro. Está comigo.
August piscou.
Seus olhos se moveram lentamente até ela, como se fosse difícil focar. Ele levantou a mão, hesitou… e então segurou o pulso dela com força.
Élise sentiu o aperto.
Não era dor. Era desespero.
— Tudo bem — disse, sem retirar a mão. — Pode segurar.
Ele não chorou.
Mas encostou a testa no braço dela, o corpo pequeno tremendo de maneira quase imperceptível. Ela permaneceu imóvel, oferecendo presença em vez de perguntas.
Minutos se passaram.
Quando a respiração dele finalmente desacelerou, ela soube: aquilo não fora apenas um pesadelo comum.
August sentira algo.
Cassian estava acordado no escritório quando Henriette entrou sem bater.
— Perdoe-me, meu duque — disse em voz baixa. — Mas houve movimento incomum no perímetro externo.
Cassian ergueu o olhar imediatamente.
— Quando?
— Há cerca de vinte minutos. Nada foi violado, mas… alguém observou. De longe.
O silêncio que se seguiu foi afiado.
Cassian fechou o laptop lentamente.
— August?
— Está com a doutora Varnier.
O maxilar dele se contraiu.
— Redobre a segurança. Agora. Quero homens em pontos que ninguém imagina olhar.
Henriette assentiu, mas não saiu de imediato.
— Meu duque… — hesitou. — A doutora percebeu algo. O menino teve uma crise leve.
Cassian fechou os olhos por um instante.
Então se levantou.
— Leve-me até eles.
Élise estava sentada no chão, encostada à lateral da cama, quando Cassian entrou no quarto.
August dormia novamente, deitado de lado, a mão ainda presa ao pulso dela como se temesse perdê-la se soltasse.
Cassian parou à porta.
A visão do filho assim — vulnerável, pequeno, agarrado a alguém que não era ele — provocou uma mistura desconfortável de emoções. Medo. Gratidão. Ciúme silencioso.
Ele se aproximou devagar.
— Ele acordou assustado — explicou Élise em sussurro. — Não foi um pesadelo comum.
Cassian assentiu.
— Eu sei.
Ela ergueu os olhos.
— Houve algo lá fora, não houve?
Ele hesitou apenas um segundo.
— Sim.
Élise respirou fundo.
— Ele sente essas coisas — disse. — Mesmo sem entender.
Cassian olhou para o filho.
Por anos, acreditara que poderia blindar August do mundo apenas com muros altos, segurança privada e poder político. Mas ali estava a prova de que não era assim que funcionava.
— Eu vou resolver — murmurou.
Ela não recuou.
— Cassian… — chamou pelo nome pela primeira vez.
Ele se virou.
— Resolver não pode significar afastá-lo de tudo. Nem de mim.
A frase ficou suspensa no ar.
Cassian sentiu algo apertar no peito.
— Você tem medo? — perguntou.
Élise pensou por um instante.
— Tenho — respondeu com honestidade. — Mas não dele. Nem de você. Tenho medo do que acontece quando pessoas poderosas esquecem que crianças não são armas.
Cassian não desviou o olhar.
— Eu nunca permitiria isso.
— Então confie em mim — disse ela. — Não como médica. Como alguém que está aqui.
O silêncio entre eles não era hostil.
Era denso de escolhas.
Cassian assentiu uma única vez.
— Fique — disse. — Não só esta noite. Fique.
Ela não sorriu.
Mas algo nos ombros dela relaxou.
Na manhã seguinte, a Maison Elsemar parecia… em alerta.
Nada explícito. Nada visível. Mas Élise sentia.
Os empregados falavam menos. As portas eram fechadas com mais cuidado. Havia homens que ela não reconhecia circulando em pontos estratégicos, sempre discretos demais para chamar atenção.
August, curiosamente, estava mais calmo.
Sentado à mesa do café da manhã, ele empurrava pedacinhos de pão de um lado para o outro, observando atentamente quando Élise fazia o mesmo com o próprio prato.
Cassian os observava por cima do jornal.
— Ele dormiu bem depois — comentou.
— Sim — confirmou Élise. — Mas precisamos manter a rotina hoje.
— Mesmo com… isso? — ele indicou vagamente o ambiente.
— Especialmente por causa disso.
Cassian fechou o jornal.
— Então faremos como sempre.
August levantou os olhos ao ouvir a voz do pai. Depois, olhou para Élise.
Bateu de leve os dedos na mesa.
Uma vez.
Ela sorriu.
— Depois do café, a gente vai para o jardim — disse. — Como sempre.
Ele assentiu, concentrado.
Cassian observou a cena com atenção demais.
Algo nele se rearranjava lentamente.
No meio da tarde, Élise levou August para a sala de música.
Era um espaço antigo, raramente usado, com instrumentos que pertenciam à história da família Elsemar. O piano de cauda ocupava o centro, coberto por uma camada fina de poeira.
Ela limpou o banco com a mão antes de se sentar.
— Quer ouvir? — perguntou.
August não respondeu.
Mas aproximou-se.
Ela tocou uma nota.
Depois outra.
Nada elaborado. Nada técnico.
Som suficiente para existir.
August sentou-se no chão, encostando as costas no banco. Fechou os olhos por alguns segundos.
Quando os abriu, olhou para ela.
E fez algo novo.
Levantou-se.
Colocou a mão pequena sobre a mão dela, pressionando uma tecla sozinho.
O som ecoou.
Élise sentiu os olhos arderem.
— Isso — disse baixinho. — Assim mesmo.
Do lado de fora da sala, Cassian observava pela porta entreaberta.
Aquela imagem se gravou nele com força.
O filho. A música. Ela.
Não como uma ameaça.
Mas como um centro.
E Cassian de Elsemar percebeu, talvez tarde demais, que o verdadeiro perigo não era o mundo lá fora.
Era o fato de que, agora, ele tinha algo a perder.
Algo que não sabia mais se conseguiria proteger sozinho.