Pré-visualização gratuita O Demônio Surgiu Da Dor
DALILA NARRANDO
Tem coisa que a gente não esquece. Não é porque quer lembrar, é porque o corpo não deixa esquecer. Eu lembro do cheiro. Do barulho do ventilador velho girando no teto. Do ranger da porta abrindo devagar. Eu era só uma menina. O corpo ainda não tinha forma de mulher, mas os olhos dele já tinham fome. E ele era meu irmão.
Minha mãe ainda tava viva naquela época. Tava morrendo aos poucos, enferrujada por dentro, tossindo sangue todo dia. Mas viva. E ele esperou ela dormir. Eu vi ele se aproximando, pé por pé, como quem sabe que tá fazendo m***a e mesmo assim segue em frente. Eu congelei. Nem gritei. Só virei de lado, tentando me esconder debaixo do lençol como se fosse uma armadura. Ele puxou devagar, o lençol, como quem desfia uma mentira.
Mas Deus , ou o d***o, vai saber .. Interveio. Um barulho na cozinha. A mãe tossiu alto. Ele parou. Me olhou
Vagner — Se tu contar, eu mato ela e depois tu — A porta fechou devagar. Eu chorei sem fazer barulho. Chorar alto era dar motivo pra morrer.
Desde esse dia, homem nenhum me encosta sem minha permissão. Homem nenhum manda em mim. Nunca mais.
O morro era dele. Do Barroso. Aquele tipo de homem que todo mundo teme, mas ninguém ama. Ele comandava na bala, no grito, na brutalidade. E eu? Eu observava. Calada. Escondida nos cantos. Aprendendo tudo. O que se faz com um traidor. O que se faz com um espião. O que se faz com um soldado que hesita. E, principalmente, o que se faz com quem tenta subir sem permissão. Eu fui aprendendo o jogo dele. Só que diferente.
Ele ria de mim. “Menina bonita dessa, devia era tá desfilando no baile, não rondando barraco com pistola.” Eu sorria. Engolia o orgulho. Fingia que não via o que ele não via em mim: o perigo.
A morte do Barroso não foi tragédia. Foi justiça. O coração dele parou numa noite de exagero , cocaína, uísque e uma mulher que ele bateu até ela desmaiar. Ninguém chorou. Nem eu. Enterraram ele com pressa. Alguém precisava assumir. E eles estavam prontos pra dividir o morro em pedaços. Só que eu fui mais rápida.
Tomei a frente. Falei firme.
— Ninguém divide p***a nenhuma. O morro é um só. E agora é meu.
Alguns riram. Três dias depois, dois dos que riram estavam mortos. Um sumiu. O outro? Implorou joelho no chão. Eu perdoei. Mas castrei. Homem que trai não anda com p*u. Essa é a minha lei.
Desde então, sou a dona do morro. Dona com D maiúsculo. A primeira mulher a comandar sozinha um território que só conheceu sangue masculino. Eu transformei o baile em território seguro pras minhas meninas. Quem levanta a mão contra mulher aqui, não vive pra levantar de novo.
Tem quem diga que eu sou fria. Mas não sou. Eu só aprendi a amar com faca no pescoço. E se amar for deixar alguém chegar perto o bastante pra machucar… então prefiro seguir sozinha.
De noite, quando tudo silencia e o morro dorme, às vezes eu lembro. Do lençol. Da respiração pesada. Da porta abrindo. E lembro também da minha mãe. Da mulher forte que, mesmo morrendo, me ensinou a levantar sozinha.
Solange — Não espera por ninguém, Dalila. Mulher que espera, apanha.
Então eu não espero. Eu comando.
E quem quiser me tirar daqui vai ter que me m***r.
(...)
Os homens desceram o morro quando souberam que uma mulher mandava. Veio o Alemão, do lado de lá do túnel. Veio com dez, vinte, trinta homens armados. Mandou recado:
Xxx — Se rende, Dalila. Tu é mulher. Isso aqui não é teu
Eu respondi com silêncio. E com bala.
Naquela madrugada, o céu ficou vermelho. Choveu fogo nas vielas. Criança chorando, gente se trancando em casa, e eu no alto da laje com o fuzil na mão e o coração batendo calmo. Eu não tremo. Não mais. A menina que tremia debaixo do lençol morreu naquele dia. Nasceu outra no lugar , uma que não fecha os olhos, que não abaixa a cabeça.
Eles perderam oito homens. Eu perdi dois. Dois irmãos de farda que sabiam que morrer por mim era morrer por uma causa. Enterrei eles com honra. Prometi vingança, mas só se viesse com lucro. Eu não desperdiço sangue.
O morro ficou em silêncio por uma semana. Era o tipo de silêncio que só vem depois da guerra — ou antes de outra.
Foi então que apareceu ela.
Clarice.
Cabelo preso, olhar que desafiava o mundo. Disse que vinha de outro estado, que tinha fugido do tráfico de lá, que queria trabalhar comigo. Eu mandei seguir. Desconfiar é regra. Mas ela passou nos testes. Era fria. Calculista. Rápida no gatilho e mais rápida ainda no raciocínio. Em dois meses, virou minha sombra. E, sem querer, meu espelho.
Clarice era diferente. Não me olhava com medo, nem com desejo. Me olhava com respeito. Com fome de crescer. E isso me assustava mais do que os fuzis apontados. Porque pela primeira vez em muito tempo… eu quis confiar.
Mas confiar tem preço.
Clarice não era de falar muito. Mas quando falava, cada palavra carregava o peso de quem já enterrou mais do que contou. Nunca me perguntou do meu passado, e eu nunca exigi saber do dela. No morro, o silêncio às vezes vale mais que uma confissão. A gente se reconheceu no olhar. Cicatriz com cicatriz.
Começou aos poucos. Primeiro, ela me cobria no baile. Sempre a dois passos de distância, fuzil na mão, olho nos becos. Depois, foi nas reuniões com os donos de outros territórios — sentava do meu lado, ouvia mais do que falava, mas quando falava, fazia homem baixar o olhar. Clarice era lâmina. Silenciosa, afiada. E leal.
Uma noite, o Barro Preto tentou tomar um dos nossos pontos. Pegaram dois dos nossos moleques e deixaram os corpos pendurados na passarela. Era provocação. Era recado. Eu sabia que se a gente não respondesse rápido, perdia o respeito.
Clarice — eu vou — disse. O rosto calmo, mas os olhos queimavam.
— Vai nada — eu respondi — Você é meu braço direito, não é bucha de canhão.
Ela se levantou, firme..
Clarice — Eu sou o que você precisar que eu seja. Se for pra morrer por você, eu morro. Mas antes disso, vou fazer eles sangrar.
E ela fez. Invadiu o ponto com quatro dos nossos. Fuzilou o líder do Barro Preto no meio da reunião deles. Saiu ilesa. Deixou um recado escrito com sangue no chão
“A mulher comanda. E quem duvida, morre.”
Ali, naquele momento, ela se selou comigo.
Depois disso, chamei ela pra subir até a laje onde eu tomo minhas decisões. O lugar onde poucos pisam. Estendi o colete com o brasão do morro.
— A partir de hoje, tu é minha sub. Meu espelho. Se eu cair, tu assume. Se eu mandar, tu cumpre. E se tu trair…
Clarice — Eu morro antes disso — ela cortou.
Apertei a mão dela. Firme. Aliança feita.
Com o tempo, o povo do morro passou a respeitar Clarice como respeitava a mim. Ela cuidava dos soldados , mantinha a ordem no baile, fazia a contabilidade da boca com uma precisão cirúrgica. E mais do que isso: me fazia rir. Rir de verdade, com o corpo todo, coisa que eu não lembrava como era.
Uma madrugada, depois de um corre pesado, a gente dividiu uma garrafa de cachaça na laje. O céu sem estrela, só fumaça e silêncio.
— Por que ficou comigo, Clarice? — perguntei.
Ela me olhou, séria
Clarice — Porque você é a única pessoa nesse mundo que entende o que é comandar com dor no peito. E porque contigo eu tenho uma chance de não morrer à toa.
Eu não respondi. Só deixei que o silêncio falasse por mim.
A partir daquele dia, quem olhava pra mim, via duas. Duas sombras armadas, duas mentes afiadas, dois corações desconfiados, mas leais um ao outro. Parceiras de guerra. Irmãs não de sangue, mas de escolha.
E no morro, isso vale mais que qualquer família.
OBS: MAIS UM LANÇAMENTO QUENTE ORA VOCÊS ..
PARA MAS CAPITULOS COMENTEM E DEIXEM BILHETES LUNARES ..
COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA..