capítulo 10

1599 Palavras
— Ela rasgou um contrato importante na minha cara, Viper. No meio da Vieira Souto — respondi, minha voz baixando para aquele tom perigoso que fazia os soldados ao redor pararem de conversar. — Quero que você descubra tudo sobre uma tal de Dra. Íris. Pediatra. Provavelmente trabalha no Hospital Central ou em alguma dessas clínicas de luxo que atendem os herdeiros da zona sul. Quero saber onde ela mora, com quem dorme e o que ela faz quando não está gritando com estranhos na rua. Quero a planta da vida dela na minha mesa até amanhã à noite. Viper assentiu, anotando mentalmente cada detalhe. Ele reconhecia o brilho nos meus olhos; não era apenas raiva. Era caça. — Algum motivo especial, chefe? Algum acerto de contas que envolva fuzil? Eu caminhei para dentro do galpão, sentindo o peso da coroa de Pedra Bruta voltar aos meus ombros, mas com a mente ainda em chamas. — Digamos que eu não aceito um "não" como resposta final. E ela acha que pode simplesmente rasgar o meu mundo e ir embora como se nada tivesse acontecido. Vou mostrar pra ela que o Arquiteto desenha as linhas de qualquer mapa, inclusive o dela. Viper deu um passo à frente, encostando o fuzil na parede descascada do galpão enquanto soltava uma fumaça densa do cigarro de palha. Ele me conhecia desde que o meu pai ainda era o dono da p***a toda. Sabia que, para mim, mulheres sempre foram variáveis descartáveis ou alívio de tensão após uma guerra de facção. Ver o Arquiteto chegar com o blindado arregaçado e o nome de uma médica gravado na mente como uma obsessão era um evento inédito. — Dra. Íris... — Viper repetiu o nome, saboreando a ironia. — E aí, Arquiteto? O que ela tem de tão especial para fazer você descer do trono e querer a ficha completa? Ela é bonita? Eu parei na porta do escritório, a luz amarela da entrada batendo de lado no meu rosto. A imagem dela batendo no meu capô, o cabelo de fogo contra o branco do jaleco e aquele olhar de ódio puro que não baixou para a minha sombra... tudo aquilo voltou como um soco no estômago. — Bonita? — Dei uma risada curta, sentindo o rastro do perfume dela ainda impregnado na minha jaqueta de couro. — Bonita não é a palavra, Viper. Aquela ruiva é um incêndio criminoso. Ela é diferente de tudo o que a gente tem por aqui. Tem um fogo ali que não apaga com dinheiro e uma marra que eu não vejo nem em dono de morro rival. Ela me mandou pro inferno sem piscar, no meio do meu território de asfalto. Viper soltou uma gargalhada alta, batendo a mão na coxa, atraindo o olhar curioso de alguns soldados que estavam contando a carga de cocaína no fundo do galpão. — c*****o, Kael! Nunca te vi falando de mulher assim — ele zombou, os olhos brilhando de diversão genuína. — "Um incêndio"? "Fogo que não apaga"? O Arquiteto tá ficando poético ou foi o impacto do airbag que mexeu com os parafusos? Geralmente você só diz se a mulher é útil ou se é um estorvo. Essa aí te deu um nó tático de quatro rodas, foi? — Ela rasgou um cheque meu na minha cara, Viper — respondi, entrando no escritório e jogando as chaves do blindado na mesa de carvalho com um estrondo metálico. — Jogou os pedaços no asfalto e me mandou pro c*****o. Ninguém faz isso. Ninguém desdenha do que eu ofereço sem sofrer as consequências. Ela acha que é independente? Vou mostrar pra ela o custo da autonomia quando o Arquiteto decide entrar no projeto. — Ela rasgou o cheque? — Viper parou de rir, agora genuinamente impressionado, cruzando os braços sobre o peito tatuado. — No meio do Leblon? Rapaz, essa doutora tem coragem ou é louca de pedra. Agora eu entendi por que você quer a ficha. Você não quer um acerto de contas, Arquiteto... você encontrou um desafio à altura do seu tédio. Eu me sentei na minha cadeira de couro, a mesma onde eu planejava as invasões e as rotas de fuga internacionais. Abri o notebook, mas a planilha de lucros da semana parecia vazia, cinza, sem vida, comparada à memória daquela ruiva me mostrando o dedo médio enquanto arrancava com o SUV destruído, o para-choque batendo no asfalto. — Só faz o que eu mandei — ordenei, fechando a cara para retomar a postura de gelo. — Quero tudo. Horários de plantão, endereço exato, família, onde ela se esconde quando sai daquele hospital. Se ela acha que o Rio de Janeiro é grande o suficiente para ela se livrar de mim, eu vou mostrar que o Arquiteto redesenha qualquer limite geográfico. Viper assentiu, o brilho de curiosidade ainda dançando em seus olhos, mas a postura dele mudou instantaneamente quando o som de passos pesados e arrogantes ecoou contra o concreto do galpão. Breno entrou no recinto como sempre fazia: como um animal que não sabe a diferença entre presença e provocação barulhenta. Ele trazia o fuzil pendurado no ombro como se fosse um acessório de moda e um sorriso torto que nunca chegava aos olhos, exalando aquela impaciência crônica que era o seu maior defeito e a minha maior dor de cabeça. — Que p***a é essa que vocês estão cochichando aí? — Breno perguntou, a voz alta demais, quebrando o silêncio estratégico que eu gostava de manter. — "Redesenhar limites"? "Dra. Íris"? Estão planejando uma invasão na zona sul ou o Viper agora virou poeta de porta de hospital nas horas vagas? Eu nem sequer levantei os olhos da tela do notebook. Continuei digitando, as teclas batendo com uma cadência fria que servia como uma barreira invisível entre mim e a impulsividade destrutiva do meu irmão. A última coisa que eu precisava no mundo era do Breno sabendo da existência da ruiva. Se ele sentisse um pingo da minha obsessão, ele usaria aquilo como alvo, tentaria atingi-la só para me ferir, ou pior, tentaria pegá-la para provar que podia ter o que eu queria. — Negócios da cúpula, Breno — respondi, minha voz saindo plana, desprovida de qualquer emoção, o tom exato que eu usava para tratar com advogados e políticos. — Coisas que exigem cálculo e discrição, não barulho e fuzil pra cima. Viper, percebendo a eletricidade estática que sempre se formava quando os dois filhos do Velho estavam no mesmo metro quadrado, deu um passo para trás, ajeitando a bandoleira da arma. Ele era o mestre em ler o ambiente e sabia que, quando eu ficava naquele estado de silêncio absoluto, o ar ficava rarefeito. — Bom, eu vou fazer a ronda pela contenção Norte — Viper disse, lançando-me um olhar rápido que confirmava que a missão da "ficha da doutora" já era prioridade máxima. — O movimento lá embaixo está estranho e eu não quero surpresas antes da carga de amanhã. Fica na paz aí, Arquiteto. Breno. Ele saiu rápido, deixando o eco das suas botas para trás. Breno caminhou até a minha mesa, apoiando as mãos calejadas e sujas de óleo no tampo de madeira polida e se inclinando na minha direção. Ele cheirava a fumo barato e a uma agressividade que ele m*l conseguia conter sob a pele. — Você está muito misterioso ultimamente, Kael — ele sibilou, os olhos percorrendo o escritório antes de voltarem para mim, cheios de uma inveja m*l disfarçada. — O para-choque do seu blindado está um lixo lá fora. Viper disse que foi um "erro de cálculo". Desde quando o grande Arquiteto comete erros de cálculo no asfalto limpo da Vieira Souto? Ou será que você está ficando mole, perdendo o foco com a vidinha de bacana que você tanto admira lá embaixo? — O carro se conserta, Breno. O que não tem conserto é a burrice de quem não sabe esperar o momento certo de agir — rebati, finalmente fechando o notebook e encarando-o de frente. O granito do meu olhar colidiu com o fogo desordenado e burro do dele. — Vá verificar os moleques da Baixada. Estão dizendo que tem gente sua querendo fazer cobrança por fora da minha tabela de preços. Se eu descobrir que tem um centavo saindo do meu império sem passar pela minha mão, o "erro de cálculo" vai ser o último dos seus problemas existenciais. Breno travou o maxilar, a veia no pescoço saltando. Ele queria gritar, queria provar que era o herdeiro legítimo do caos do nosso pai, mas o peso da minha autoridade construída sobre inteligência e medo — ainda o mantinha minimamente nos trilhos. Ele deu um tapa seco na mesa, virou as costas e saiu bufando, as botas batendo com raiva no chão. Eu esperei o som dele sumir no pátio do galpão para soltar a respiração que eu nem sabia que estava segurando. Recostei na cadeira, sentindo o peso da coroa de Pedra Bruta. A traição do meu irmão era uma tempestade inevitável no horizonte, algo que eu já estava planejando como conter. Mas o incêndio ruivo que eu tinha acabado de encontrar no Leblon... aquilo era uma variável externa que eu não conseguia catalogar. Passei a mão no rosto, sentindo o cansaço da noite. Dra. Íris Duarte. Ela achava que era dona do seu próprio destino. Ela achava que a autonomia dela era uma fortaleza inexpugnável. Mas ela acabara de colidir com o Arquiteto, e no meu mundo, eu não apenas construo impérios. Eu demolo as resistências até que não sobre nada além de rendição.
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