Cão de Raça Narrando
Meu nome é Carlos Eduardo Amorim. Tenho quarenta e seis anos, sou loiro, olho azul, um metro e noventa e dois de altura e um corpo que não foi moldado por luxo. Foi disciplina. Sempre foi. Rotina rígida, treino pesado, cabeça no lugar. Meu físico acompanha minha mente. Frio, resistente, focado. Meu vulgo é Cão. Cão de raça. Não é apelido bonito, é marca de sobrevivência.
Servi ao BOPE. Batalhão de Operações Policiais Especiais. Pra quem não sabe, é a tropa que entra quando todo mundo corre. Missão de alto risco, confronto armado, guerra urbana, favela em ebulição. Lá não tem herói, tem gente preparada pra morrer e pra matar. Medo não sobrevive ali.
Mas antes da farda preta, antes do fuzil, antes do respeito imposto no olhar… eu fui rua.
— Morei na rua com a minha mãe.
E quem nunca passou por isso não entende. Dormir em papelão encharcado, acordar com o corpo travado de frio, o estômago ardendo de fome. A dignidade vai embora aos poucos. Você vira invisível. As pessoas desviam o olhar, seguram bolsa, atravessam a calçada. Como se pobreza fosse crime.
Morador de rua não sofre só fome. Sofre abuso, violência, desprezo. Apanha da polícia, apanha de bandido, apanha da própria sociedade. Vi mulher ser violentada em beco escuro. Vi criança disputando resto de comida no lixo. Vi velho morrer durante a madrugada e só perceberem horas depois. Vi minha mãe engolir o choro pra não me quebrar. Eu não conheci a pörra do meu pai.
Nunca apareceu. Nunca ligou. Nunca fez falta porque nunca existiu. Minha mãe era tudo. Quando ela morreu, eu já era homem. Tinha uns vinte anos. Trabalhava em serviço pesado, descarregando caminhão, fazendo bico. À noite, estudava. Morava numa kitnet minúscula, cama encostada no fogão, banheiro apertado. Era o que dava pra pagar. Eu estudava feito um doido.
Não era sonho. Era obsessão. Minha meta era virar autoridade. Ter poder. Ter voz. Ter uma arma legal na mão. Eu queria fazer cada filho da p**a pagar pelo que fizeram comigo e com a minha mãe. Queria inverter o jogo.
Passei no concurso. Aguentei o treinamento. Vi n**o desistir, chorar, quebrar. Eu fiquei. Entrei pro BOPE e ali deixei de ser só homem. Disciplina sempre foi meu forte.
No BOPE não existe meio termo. Ou você é frio ou você morre. Foi lá que me deram o apelido. Cão. Porque eu tinha faro. Eu sentia o alvo. Não precisava de muito papo. Eu ia direto. Não errava. Missão dada era missão cumprida.
— Peguei muito filho da p**a e mandei pro inferno.
Bandido abria a boca pra tentar se explicar, eu já calava com bala. Sem conversa. Sem piedade. Doze anos assim. Doze anos vivendo em guerra constante.
E no meio disso tudo, mulher nunca faltou.
— É impressionante como uma farda e um fuzil abre pernas.
Conheci várias. Nenhuma ficou. Até a Jane aparecer. Mulher linda pra c*****o. Corpo quente, sorriso fácil. Toda folga eu brotava na casa dela. A fudelança era absurda. Sem romance, sem promessa. Só intensidade.
Até o dia que ela apareceu diferente.
— Tô grávida, Carlos.
Nasceu a Carla. Minha filha. Olho claro igual ao meu. Jane quis casar. Quis família. Quis rotina. E eu não sabia ser isso. Eu nasci um cão. Alma de pipa voada.
Um dia cheguei pra ver minha filha. Casa vazia. Jane sumiu. Fui atrás da família dela. Descobri que ela tinha ido pro Sul. Tava vivendo bem. Fiz contato pela irmã dela. Entramos em acordo.
— Eu pago a pensão. — E ela respondeu.
— Contato, não.
Não vi minha filha crescer. Nunca ouvi ela me chamar de pai.
Depois disso, veio a queda. Armaram pra mim dentro da corporação.
Crime que eu não cometi. Prova plantada. Dossiê forjado. Saí como traidor. Expulso. Nome manchado. Aquilo arrancou meu chão. Eu sempre fui leal. Nunca fui covarde com meus irmãos de farda.
Ali o Carlos morreu. Só o Cão ficou.
Virei matador de aluguel. Serviço limpo. Alvo certo. Pagamento justo. Sem peso na consciência. E deixei me pegarem, porque eu sabia onde ia parar. Prisão especial.
E sabia quem tava lá. O verdadeiro traidor. No banho de sol, eu já tinha tudo planejado. Quando minhas mãos fecharam no pescoço dele, não teve hesitação. Estrangulei até virar nada.
Transferido pro presídio comum, conheci a Diana. Minha advogada. Mulher firme, leal, cabeça fria. Virou melhor amiga, comadre, família. Nunca me julgou. Só quis a verdade.
Com ela e com o LD, levantamos minha ficha inteira. Foi aí que a bomba caiu. Eu era o herdeiro do ADA.
ADA. Amigos dos Amigos. Uma das maiores organizações criminosas do Rio. Sangue. Origem. Destino.
Saí da cadeia com um plano. Derrubei quem tinha que derrubar. Fiz a limpa. Tomei o comando à força. Hoje eu tô no trono.
E daqui ninguém me tira, Porque eu não sou cria de luxo.
Não sou herdeiro mimado. Eu sou forjado na rua.
Aqui no comando eu não ando sozinho.
— Meu braço direito é o Memeu.
Irmão que a vida me deu, não foi sangue, foi guerra. A gente se conheceu no pior cenário possível, quando confiar em alguém podia custar a vida. Memeu tava lá quando ninguém mais tava. Dividiu fome, bala, fuga e silêncio. Nunca me virou as costas, nunca vendeu meu nome, nunca tremeu quando a coisa apertou.
Nossa amizade não é de abraço e frase bonita. É de olhar. Um entende o outro sem falar nada. Quando eu entro em um lugar, ele já leu o ambiente. Quando eu penso em agir, ele já calculou as consequências. Memeu não questiona liderança, fortalece. Não disputa poder, protege o comando.
— Ele segura a base enquanto eu seguro o topo.
Ser chefe de comando não é só mandar. É carregar o peso de cada decisão. Cada ordem minha mata ou mantém alguém vivo. Não existe descanso real. Você dorme com um olho aberto e a mente ligada. Confiança é moeda rara, e traição é o preço de errar.
Eu não posso ser fraco, não posso hesitar, não posso demonstrar dúvida. Aqui respeito vem do medo e da lealdade. Quem tá comigo come. Quem vacila, cai. Simples assim.
— O trono não é confortável.
É solitário pra Carälho. Mas enquanto eu tiver o meu comando, eu sei que tô cercado de cobra. Mas essa é a pörra da vida que eu escolhi.