Judá Narrando
O dia amanheceu daquele jeito. Sol rachando, céu limpo, calor antes mesmo de eu abrir o olho. Olhei pro relógio e soltei um riso curto.
Caralh0, hoje é dia de baile.
Aniversário meu. Dia que o morro vira vitrine. Dia que tudo tem que sair perfeito, porque aqui não é só festa, é demonstração de força, de ordem, de respeito. Quem manda tá vivo. Quem manda aparece.
Levantei da cama sem pressa. Corpo pesado da noite passada, cabeça já ligada no automático. Dono de morro não acorda no susto, acorda em alerta. Fui direto pro banheiro, joguei água no rosto, me encarei no espelho. Trinta e um anos. Cicatriz aqui, tatuagem ali, olhar de quem já viu coisa demais pra idade.
Café preto forte, sem açúcar. Pão nem olhei. Costume antigo. Enquanto bebia, já tava no celular, mensagem pra todo lado, cobrando andamento, perguntando status, alinhando detalhe.
Judá: Quero tudo redondo hoje. Nada de erro.
Resposta vinha rápido. Aqui ninguém demora quando eu chamo.
Saí de casa cedo. Dei uma volta no morro, a pé mesmo. Gosto de sentir o clima. Criançada correndo, mulher varrendo calçada, som de rádio ligado. Todo mundo já sabendo que hoje o dia era diferente. Olhares me seguindo. Uns com respeito, outros com admiração, outros com medo. Normal.
Passei na boca. Ali é o coração do negócio. Encostei, subi no degrau, geral se ajeitou na hora.
Judá: Atenção geral. Hoje é dia de baile, então ninguém vacila. Quero tudo limpo, organizado, sem gracinha.
Um dos menor assentiu rápido.
Fabinho: Tá tudo alinhado, chefe.
Judá: Segurança dobrada. Quem beber demais, alguém segura. Não quero confusão desnecessária.
Outro entrou na conversa.
Gel: Se aparecer polícia?
Judá: Avisa antes. Hoje não é dia de estresse. Hoje é dia de mostrar que aqui tem ordem.
Fiquei mais um tempo ali, observando o movimento, sentindo se tinha algo fora do lugar. Não tinha. Tudo fluindo. Dei mais umas ordens pontuais, coisa de rotina. Dono de morro não pode sumir, tem que ser visto.
Depois subi pra quadra. Lá já tava a montagem do baile. Luz pra todo lado, palco quase pronto, som sendo testado. O grave batendo no peito mesmo desligado. Olhei em volta e sorri.
Caralh0, tava ficando top demais.
Fabinho tava lá, conferindo tudo.
Fabinho: Tá vendo? Falei que ia ficar pesado.
Judá: Se não ficasse, tu tava fodid0.
Ele riu.
Fabinho: Hoje o Morrão vai parar.
Andei pela quadra inteira, conferindo detalhe por detalhe. Iluminação, camarote, acesso, saída. Tudo pensado. Não tem improviso quando o nome tá em jogo.
O dia passou rápido. Almocei qualquer coisa, mais por obrigação do que por fome. Voltei a circular, subi, desci, falei com um, cobrei outro. Energia diferente no ar. Expectativa.
Quando deu umas nove da noite, subi pra casa. Hora de virar a chave. Dono do morro também se produz.
Tomei banho demorado. Água caindo nas costas, lavando o dia inteiro. Saí, me enxuguei, fui pro quarto. Escolhi a beca sem pensar muito, mas tudo combinado. Camisa preta, corte bom, aberta no peito mostrando as tatuagens. Calça escura, justa do jeito certo. Tênis caro, limpo, impecável. Relógio pesado no pulso. Corrente discreta. Estilo de quem não precisa exagerar pra ser notado.
Passei perfume. Daquele que chega antes de mim e fica depois que eu saio.
Me olhei no espelho de novo. Postura. Presença. Hoje não era só meu aniversário. Era um lembrete pra todo mundo.
Desci, entrei no carro. Som ligado. Grave estalando. Funk pesado. A rua abrindo caminho. Gente gritando meu nome, acenando, sorrindo.
Judá!
É o dono!
Hoje é teu dia!
A sensação bate forte. Não vou mentir. Ser adorado pela quebrada vicia. Energia da galera sobe junto com o som. O morro inteiro pulsando comigo.
Cheguei. Desci do carro e o barulho aumentou. Grito, assobio, palma. Segurança abrindo espaço. Subi direto pro camarote. Lá de cima, dava pra ver tudo. O baile já fervendo, luz cortando a noite, gente dançando, bebida pra cima.
Fabinho chegou do meu lado.
Fabinho: Tá tudo pronto.
Eu assenti. Peguei a pistola, levantei pro alto. Não pra ameaça. Pra sinal. Pra ritual.
O som deu uma pausa rápida. A galera percebeu. Silêncio de segundos que pareceram eternos.
Eu levantei o braço.
Judá: Hoje é meu aniversário!
O grito veio como onda.
Judá: Esse baile é nosso!
A pistola ainda erguida, o DJ soltou o som com tudo. O grave explodiu. A quadra veio abaixo.
E ali, naquele momento, eu dei início ao baile do meu aniversário.
No topo. No comando. Vivo. Respeitado.
A Sílvia subiu pro camarote no meio do barulho. Demorei uns segundos pra ligar o nome ao rosto, mas lembrei. Era a mina de ontem. Marmita. Doidona. Veio com umas amigas, tudo se achando em casa. Normal.
Ela veio direto em mim, como se a gente tivesse combinado alguma coisa.
Sílvia: Tudo bem, Gato.
Eu só dei aquele meio sorriso de canto. Ela tentou me beijar ali mesmo, na frente de todo mundo. Virei o rosto, me esquivei sem fazer cena.
Judá: Hoje não, Garota.
Ela fingiu que não ouviu. Sentou no meu colo, passou a mão no meu peito, descendo devagar, se esfregando como se aquilo fosse intimid@de. A galera em volta até riu, achando graça.
Sílvia: Para com isso, Judá.
Eu segurei no braço dela, firme, sem grosseria, mas sem carinho também.
Judá: Já falei que hoje não.
Afastei ela de leve, mas com autoridade. Ela fez cara de contrariada, bufou, levantou e foi sentar mais pro canto, reclamando com as amigas. Problema dela. Eu não devo atenção pra ninguém.
Fiquei de pé no camarote, olhando a quadra lá embaixo. O baile tava no auge. Som pesado, luz piscando, gente dançando como se o mundo fosse acabar ali. Foi quando vi o Paulinho voltar. Ele vinha sorrindo daquele jeito que já entrega coisa.
Paulinho: Chefe,trouxe duas gatas.
Eu virei devagar.
Judá: Fala.
Paulinho apontou discretamente pra baixo.
Paulinho: A morena é minha. Mas a ruiva, porr@, gostosa também.
Na hora eu me levantei. Nem pensei. Meu olhar foi direto pra onde ele apontou. E quando eu vi.
Put@ que pariu.
Cabelo de fogo. Ruiva de verdade. Nada de luz enganando. Corpo desenhado, vestido colado, confiança no jeito de dançar. Livre. Solta. Diferente de tudo que tava em volta.
Meu peito deu uma batida errada. Coisa rara.
Ela girou o corpo, riu com a amiga, levantou os braços. O cabelo dela brilhava no meio das luzes como se tivesse pegando fogo mesmo. Linda demais. Não era beleza comum. Era presença.
Eu nem tirei o olho.
Judá:Chama elas.
Paulinho sorriu mais ainda.
Paulinho: Agora.
Eu fiz sinal pro Gel, que já tava atento.
Judá: Busca as duas. Agora. - Apontei.
Gel assentiu e desceu rápido. Fiquei observando lá de cima enquanto ele se aproximava delas. A ruiva olhou primeiro desconfiada, depois a outra.
Quando elas começaram a subir, senti o clima mudar. A Sílvia percebeu na hora. Ficou dura, olhando atravessado, mas eu nem liguei. Meu foco tava todo no último degrau.
Ela levantou o olhar. Nossos olhos se cruzaram.
Ela não desviou.
Segurou meu olhar por um segundo inteiro. Sem medo. Sem sorriso forçado. Aquilo me pegou de jeito. Eu cruzei os braços, mantendo a postura, mas por dentro algo tinha mudado.
Paulinho deu uma risada do meu lado.
Paulinho: Já sei onde isso vai dar.
Eu nem respondi.
E eu soube ali, naquele instante, que aquela noite ainda tinha muito pra acontecer.