Miguel Ruiz
O toque do telefone interrompeu meus pensamentos. Atendi no primeiro sinal.
— Oi.
— Olá, Miguel, quanto tempo, meu amigo! — era a voz animada de Levy, meu grande amigo dos tempos de faculdade.
— Oi, Levy! Você sumiu por muito tempo. Então, o que tem feito da vida todos esses anos? — relaxei, deitando no encosto da cadeira.
— Eu estive em Nova York trabalhando. Você sabe do meu sonho de ter meu próprio negócio sem a ajuda dos Lins.
— Você finalmente conseguiu, presumo — comentei com um largo sorriso.
Levy é meu melhor amigo, como um irmão, e sempre me apoiou, principalmente quando meu pai faleceu.
— Sim! Hoje eu sou o senhor Levy Lins, o dono da rede de hotéis cinco estrelas Lev's. Você precisa vir conhecer. Nós temos uma proposta diferente para cada público e uma linha exclusiva para um público em questão... — ele falou, soltando uma risada maliciosa.
— Não acredito que você realmente colocou em prática a sua ideia de hotéis private com jogos para casais! — ri alto, lembrando dos esboços antigos que ele me mostrava.
— É óbvio que coloquei, e faz muito sucesso. Ganhei três prêmios de inovação em hotelaria por essa proposta e ganhei muito dinheiro também.
— Eu estou muito orgulhoso, irmão. De verdade.
— Obrigado, irmão, eu também tenho muito orgulho de você. Eu vi que hoje você é o quinto homem mais rico de Londres, passou os More — ele disparou com satisfação. — Isso é um orgulho e tanto para mim e para os meus pais. Você sabe que eles te consideram muito.
— Eu sei disso. Eu também os considero muito — respondi com sinceridade.
A família Lins me acolheu em um momento de pura escuridão. Minha gratidão por eles é vitalícia.
— Bom, mas eu estou te ligando por outro motivo, tenho um convite muito especial. Eu vou ficar noivo e quero que você venha celebrar comigo.
— Olha só, finalmente o conquistador foi conquistado! Isso é realmente um motivo para comemorar.
— Eu achei o meu par, ela é linda, você vai ver. Você tem alguém para trazer como seu par? — Levy quis saber.
— Por quê? Ir acompanhado é necessário?
— Não é necessário... — ele hesitou um instante. — É que eu convidei os More, e você sabe que o Joseph e a Celine vêm junto no pacote família. Então, para você não parecer um cara abandonado e triste, é melhor vir com uma mulher gostosa.
Ele riu, mas eu sabia o sentido daquele pedido em forma de piada: Levy sabia que eu ainda amava Celine.
— Não se preocupe, eu vou acompanhado — garanti imediatamente. — E vou com uma mulher gostosa — completei, enquanto a imagem de Zahara vinha instantaneamente à minha mente.
Anotei o endereço e o horário que ele me passou antes de nos despedirmos. Desliguei o telefone e soltei uma risada baixa. Esse encontro com todos os More reunidos no mesmo lugar seria, no mínimo, muito interessante.
Após alguns minutos chamei Zahara à minha sala.
— Sim, senhor Ruiz — ela falou assim que entrou.
— Desmarque todos os compromissos para a próxima semana, nós vamos pra Nova York! — Falei sem rodeios.
— Sim senhor. Preciso preparar hospedagem e documentos para os compromissos lá?
— Não. Será uma viagem pessoal, você irá somente pra me fazer companhia. Você não se importa, creio eu — Respondi. Eu não olhei direito para ela, então não notei a mudança em seu rosto.
— Ok. E eu não me importo de forma alguma.
— Ótimo. Vá ao Vermont boutique e escolha umas roupas, vestidos de noite, roupas normais, enfim, tudo que você precisar — Zahara olhou para mim confusa, e finalmente prestei atenção nela, vendo a confusão em seu rosto e explicando: — Nós iremos para o noivado de um amigo, estarão meus antigos colegas de faculdade e também suas famílias, então você tem que está vestida à altura.
— Certo, entendi, eu irei providenciar tudo. — Zahara garantiu.
Quando ela saiu do escritório, eu só consegui pensar em Celine. Como vamos conseguir passar uma semana tão perto um do outro e ao mesmo tempo tão longe? Apertei as mãos com força ao pensar que terei que vê-la nos braços daquele homem, mas isso não será por muito tempo, eu já estou preparando a queda daquele maldito.
***
Quando Zahara e eu desembarcamos no aeroporto de Nova York, já havia um carro nos esperando. Assim que saí do avião, ouvi a voz de Levy ecoando pelo saguão, gritando meu nome.
— Caramba! — ele disse, me medindo de cima a baixo antes de me puxar para um abraço apertado. — Eu estou realmente impressionado, meu caro. Que mudança!
— Eu também estou impressionado — respondi, afastando-me um pouco para olhá-lo. — Eu esperava ver aquele cara magrelo de sempre, mas olha só para você. Tem músculos aqui. — Apertei os braços dele, rindo. — Você quase dobrou de tamanho.
Olhei de relance para Zahara. Ela observava nossa recepção calorosa com um sorriso leve no rosto. Percebi que ela parecia surpresa; provavelmente nunca tinha me visto sorrir daquela forma. Ali, longe do escritório, eu não era o homem frio que ela conhecia.
Levy se aproximou e cochichou no meu ouvido, tentando não ser ouvido por ela:
— Eu sabia que você traria uma mulher bonita, mas não imaginei que fosse tanto. Onde você encontrou esse monumento?
— Essa é minha secretária — respondi, conduzindo meu amigo até ela para acabar com o mistério. — Levy, essa é a Zahara. Zahara, esse é o Levy.
Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão.
— Muito prazer, senhor Levy — Zahara disse, mantendo um tom formal, mas sem perder o sorriso.
— Por favor, tire esse "senhor". Me chame apenas de Levy.
— Tudo bem, Levy — ela cedeu, dando uma piscadela simpática.
— Bom, vamos indo — Levy anunciou, pegando a liderança. — Vocês precisam descansar. Amanhã começa a nossa comemoração.
Quando chegamos ao hotel Lev's Private, fiquei impressionado. Como arquiteto, não pude deixar de reparar em cada detalhe da estrutura e da decoração. Não poupei elogios ao trabalho dele.
— Parabéns, Levy. Isso aqui está realmente muito bonito. Você é excelente no que faz!
— Fico muito feliz com a sua opinião — ele respondeu, visivelmente satisfeito. — Ninguém melhor que um arquiteto renomado para avaliar o meu trabalho.
Deixamos Zahara em seu quarto para que ela pudesse se acomodar. Em seguida, Levy me levou para um tour completo pelo hotel. Ele me mostrou toda a área externa, o salão de festas ao ar livre e o espaço coberto. Depois de conhecermos tudo, terminamos a noite no bar do hotel, onde passamos horas conversando e colocando o papo em dia.
— Você está realmente muito bem acompanhado, Miguel — Levy me olha com curiosidade — vocês dois estão só se pegando ou é algo mais sério? — Ele pergunta esperançoso, e sei que ele acha que seria ótimo se eu deixasse de vez o passado para trás.
— Nada demais. A Zahara é só minha secretária — respondi sem interesse.
— Sério que não tem nada?! — Levy me olhou e balançou a cabeça com desgosto — uma mulher gostosa daquela e você não tem nada, que decepção.
— Você sabe em quem eu tenho interesse, Levy. Eu não tenho interesse em nenhum relacionamento sério com nenhuma outra mulher — respondi com convicção.
— Eu sei, eu também sei que a mulher que te interessa está casada. Aliás, ela casou com outro por puro interesse — Levy não esconde a repulsa que tem por Celine.
O comentário dele sobre Celine me incomodou profundamente. Senti a necessidade de defendê-la imediatamente.
— Você sabe que ela não teve opção, Levy. O pai praticamente a vendeu em troca daquele investimento na empresa.
— Por favor, Miguel! — Levy rebateu, irritado — Você é um homem inteligente, esperto. Você sabe que, se ela não quisesse casar, ela não se casaria. Esse casamento foi escolha dela também.
— Se você visse a sua família falindo e seu pai arranjasse um casamento para salvar todos os seus bens, você recusaria? — encarei-o, desafiando sua lógica.
— Não adianta... — Levy balançou a cabeça, me olhando com um misto de pena e frustração — Você nunca vai ver um único defeito nela, não é mesmo, Miguel?
Fiquei em silêncio. Eu sabia que Levy tinha acompanhado toda a nossa história de perto. Ele acreditava que, embora Celine me amasse, ela jamais abriria mão do luxo por mim. Ele pensava que agora, que estou milionário, com dinheiro e poder, ela voltaria correndo, e o fato dela estar comigo, mesmo que às escondidas, ele acredita que é pelo dinheiro.
Na cabeça do meu amigo, eu merecia alguém melhor, alguém que me amasse de verdade pelo que sou. Mas meus sentimentos por ela não mudavam tão facilmente.
Me despedi de Levy e peguei o elevador. Quando abri a porta do meu quarto, percebi que Zahara ainda estava acordada, mas eu só passei por ela e segui direto para o meu quarto. Escolhi uma dupla com dois quartos.