Capítulo 5 — O Ultimato

1665 Palavras
O médico não levantou a voz. Não precisou. Algumas verdades são tão cruéis que não exigem força para ferir. — Nós não podemos mais adiar — ele disse, com as mãos cruzadas sobre a mesa. — O câncer está avançando. Os exames mostram isso com clareza. Você estava sentada ao meu lado, menor do que nunca naquela cadeira grande demais. Vestia um casaco largo, tentando esconder um corpo que já não obedecia como antes. — Eu me sinto… igual — você respondeu. — Cansada, mas igual. O médico respirou fundo. — O corpo mente antes de cair — disse. — Mas os exames não mentem. Eu senti sua mão apertar a minha. — E a gravidez? — perguntei. Ele hesitou. — A gravidez impede que intensifiquemos o tratamento. Se continuarmos assim, os riscos para ela aumentam drasticamente. Ela. Você. Minha esposa. — E o bebê? — você perguntou, a voz baixa, mas firme. — Se interrompermos a gestação, podemos agir com mais agressividade — respondeu. — A chance de remissão aumenta. A palavra interromper pairou no ar como uma sentença de morte dupla. — E se não interromper? — você insistiu. O silêncio foi a resposta mais c***l. — Então precisamos aceitar que estamos colocando a sua vida em risco — completou ele. — Não existe caminho seguro para os dois. Eu me levantei antes de perceber. — Não — falei, a voz fria, controlada à força. — Isso não é aceitável. O médico me encarou com calma profissional. — Senhor Valente, isso não é uma negociação. Inclinei-me sobre a mesa. — Tudo é uma negociação. Você tocou meu braço. — Aaron… — sua voz saiu fraca, mas firme. — Para. Sentei de volta, com o peito em chamas. — Nós precisamos de tempo — você disse. — Mais exames. Outras opiniões. — O tempo não está do lado de vocês — respondeu ele. — E cada semana perdida reduz as chances. Quando saímos do consultório, você estava tremendo. Não de frio. De medo. No carro, o silêncio foi pesado demais para ser ignorado. — Você está com raiva — você disse. — Não — respondi. — Estou pensando. — Pensar em quê? — Em como ninguém tem o direito de te colocar contra a parede desse jeito. Você virou o rosto para mim. — Eles não estão fazendo isso — disse. — A doença está. — Eu posso resolver — falei. Você soltou um riso curto, amargo. — Você n******e atirar no câncer, Aaron. Parei o carro no acostamento. — Você não sabe do que eu sou capaz. Você me encarou, os olhos marejados. — E você não sabe do que eu estou com medo. Respirei fundo, tentando me recompor. — Do quê? — De você se perder tentando me salvar. A frase doeu mais do que qualquer diagnóstico. Em casa, você foi direto para o quarto. Sentou na cama, abraçando o travesseiro como se fosse um escudo. — Eu não quero escolher — você disse. — Eu não posso. Ajoelhei à sua frente. — Então não escolhe agora — respondi. — A gente vai encontrar outro caminho. — Não existe outro caminho — você chorou. — Só existem perdas diferentes. Segurei suas mãos. — Me escuta — falei. — Eu já perdi tudo antes. Família. Amigos. Partes de mim. Mas você… — minha voz falhou — você é a única coisa que não posso perder. Você levou a mão ao ventre. — E ele? A pergunta ficou suspensa entre nós. — Ele também é você — respondi. — E se meu corpo não aguentar? — você perguntou. — E se eu ficar… e ele não? Ou se ele ficar… e eu não? Eu fechei os olhos. — Então eu vou quebrar — respondi com honestidade brutal. — Mas não vou te abandonar no meio disso. Naquela noite, você passou m*l de novo. A dor veio mais forte, mais persistente. Não era só enjoo. Era algo profundo, interno, assustador. — Aaron… — você gemia. — Alguma coisa não está certa. Te levei ao hospital às pressas. Os médicos foram rápidos demais. As expressões, sérias demais. — Precisamos internar — disseram. Você segurou minha mão com força. — Não me deixa sozinha — pediu. — Nunca — prometi. Horas depois, sentado naquela cadeira dura, observando você dormir ligada a máquinas, eu percebi o quanto estava impotente. Eu podia mandar m***r. Podia mandar proteger. Podia comprar silêncio, lealdade, cidades inteiras. Mas não podia comprar tempo. Meu telefone vibrou. — Temos problemas — disseram do outro lado. — Alguém está se aproveitando da sua ausência. Olhei para você. — Que se aproveitem — respondi. — Eu não saio daqui. Desliguei. A enfermeira entrou silenciosa. — Ela vai precisar tomar uma decisão em breve — disse. — Não — respondi. — Ela não. — Senhor— — Eu — corrigi. — Se alguém vai sangrar com essa escolha, vai ser comigo. Ela me olhou com pena. — Nem todo sacrifício pode ser terceirizado. Quando você acordou, parecia fraca demais para falar. — Aaron… — murmurou. — Estou aqui. — Promete… — sua voz tremia — que, aconteça o que acontecer… você não vai me odiar por escolher? Senti o chão desaparecer. — Nunca — respondi, segurando seu rosto. — Eu só vou te amar. Você fechou os olhos, uma lágrima escorrendo. E naquele instante, eu soube: O mundo estava nos empurrando para um abismo. E em breve, alguém teria que cair. A madrugada no hospital não tem horas. Ela se arrasta. As luzes nunca se apagam completamente. Há sempre passos no corredor, vozes baixas, monitores apitando como lembretes cruéis de que o tempo não descansa. Você dormia m*l. Se mexia a cada poucos minutos, como se seu corpo estivesse tentando fugir de si mesmo. Eu estava sentado ao seu lado, a mão envolvendo a sua, sentindo o quanto estava quente demais… fraca demais. — Dor? — perguntei quando seus olhos se abriram. Você assentiu de leve. — Onde? — Em todo lugar — respondeu. — Mas principalmente aqui. Sua mão foi direto ao ventre. Meu peito apertou. Chamei a enfermeira. Depois o médico. Eles falaram palavras técnicas demais para algo que doía de forma tão simples: você estava piorando. — Precisamos controlar a dor — disseram. — E monitorar a gravidez de perto. Monitorar. Como se observar fosse suficiente para impedir o pior. Quando ficamos sozinhos de novo, você virou o rosto para mim. — Você está com aquela cara — disse. — Que cara? — A de quando você acha que pode resolver tudo sozinho. Suspirei. — Eu preciso tentar. — Aaron… — sua voz saiu fraca, mas firme. — Eu não quero que você destrua o mundo por mim. Aproximei-me da cama. — Eu já destruí coisas por menos — respondi. — E não me arrependo de nenhuma. Você segurou meu rosto com dificuldade. — Eu me arrependeria — disse. — Se você se perdesse por minha causa. Fiquei em silêncio. Porque essa era uma verdade que eu não sabia rebater. Horas depois, um médico diferente entrou no quarto. Mais sério. Mais direto. — Precisamos conversar — disse. Você tentou se sentar, mas não conseguiu. Eu ajudei. — Os exames mostram que o tratamento atual não está surtindo o efeito esperado — explicou. — E a gravidez limita nossas opções. — Então diga — você pediu. — Sem rodeios. Ele respirou fundo. — Se adiarmos mais, o risco de perder você aumenta significativamente. Você fechou os olhos. — E se intensificarem o tratamento? — O bebê corre risco extremo. O silêncio caiu pesado. — Existe alguma chance… — você abriu os olhos — alguma… de salvar os dois? O médico demorou a responder. — Chance não é promessa — disse por fim. — E promessas seriam cruéis agora. Você assentiu lentamente. — Obrigada pela honestidade. Ele saiu. E o quarto ficou pequeno demais para tudo o que não foi dito. — Eu sinto ele — você murmurou. — O quê? — perguntei. — Não mexer… mas existir. — Um sorriso triste surgiu. — É estranho amar alguém que eu ainda não conheço. Engoli em seco. — Ele já conhece você — respondi. — Pelo som da sua voz. Pelo jeito que você toca a barriga quando está com medo. Você começou a chorar. — Eu não quero que ele cresça sem mim. A frase me destruiu. — Você não vai — falei, embora não tivesse certeza nenhuma. — Não mente pra mim — pediu. — Eu preciso da verdade agora. Respirei fundo. — A verdade é que eu não sei como salvar todo mundo — admiti. — Mas sei que vou ficar até o último segundo. Você encostou a testa no meu ombro, fraca demais para sustentar o próprio peso. — Se eu tiver que escolher… — você sussurrou — eu já sei o que vou fazer. Meu corpo inteiro gelou. — Não — falei. — Não diz isso. — Aaron… — você se afastou um pouco para me olhar. — Não me faz dizer em voz alta. Ainda não. Segurei seu rosto com cuidado. — Você não precisa decidir hoje. — Mas talvez meu corpo decida por mim — respondeu. À noite, você teve febre. Alta. Perigosa. O quarto encheu de gente, de vozes, de ordens rápidas. Eu fiquei encostado na parede, observando você ser tocada, virada, medicada. Inútil. Quando tudo se acalmou, você estava pálida demais. — Fica comigo — murmurou. — Sempre. — Mesmo se eu não acordar? Minha garganta fechou. — Principalmente. Você sorriu fraco. — Então… não tenho mais medo agora. Isso me aterrorizou. Porque quem perde o medo… às vezes já está se despedindo. Quando você adormeceu novamente, eu fiquei ali, segurando sua mão, encarando o monitor que marcava cada batimento como uma contagem regressiva. E pela primeira vez desde que tudo começou, eu aceitei algo que não queria aceitar: O ultimato não vinha mais dos médicos. Nem da doença. Vinha do tempo. E ele não negocia com ninguém.
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