Capítulo 6 — O Dia em Que o Amor Sangrou

1538 Palavras
Eu acordei com o som do monitor. Não era alarme. Era pior. Era o ritmo irregular que antecede o aviso. Você estava acordada, os olhos abertos, fixos no teto. Não parecia assustada. Parecia… calma demais. — Amor? — chamei, me inclinando sobre você. Você virou o rosto devagar. — Você não dormiu — disse. — Nem você. Um silêncio curto se instalou. — Aaron… — sua voz saiu baixa, mas firme — hoje eu quero conversar. Meu estômago afundou. — Sobre o quê? — Sobre depois. Fechei os olhos por um segundo. — Não existe depois sem você — respondi. Você respirou fundo. — Existe, sim. Só não é o que você quer. Sentei na beira da cama, passei a mão pelo rosto. Meus dedos tremiam — coisa que nunca acontecia. — Você está pior — eu disse, tentando mudar o rumo. — Seu corpo não está aguentando. — Eu sei — respondeu. — Eu sinto. Você levou a mão ao ventre com cuidado extremo, como se qualquer movimento pudesse machucar alguém invisível. — E eu sinto ele também. Engoli em seco. — Os médicos vão vir hoje — continuei. — Eles vão— — Eu já sei o que eles vão dizer — você me interrompeu. — Eles vão falar em termos, probabilidades, riscos. Mas no fim… — você me olhou — vão me pedir pra escolher. — Não — respondi. — Eles não vão. — Aaron… — você segurou minha mão. — Para de lutar contra isso como se fosse um inimigo armado. Isso é… — sua voz falhou — isso é meu corpo. Apertei seus dedos com força. — Seu corpo é meu lar — falei. — E eu não vou deixar ele desabar sem lutar. Você sorriu triste. — É exatamente isso que me assusta. Quando os médicos entraram, o ar ficou pesado. Não houve rodeios dessa vez. — A febre, os exames, a progressão da doença… — começou um deles. — Precisamos agir agora. Você assentiu lentamente. — E agir significa… — você pediu. O médico respirou fundo. — Escolher o protocolo mais agressivo. O que oferece a melhor chance para você. — E o bebê? — você perguntou. Silêncio. — Não resistiria — respondeu ele. Eu senti algo se quebrar dentro de mim. — Não — falei, me levantando. — Isso não é uma opção. — Senhor Valente— — Não é uma opção — repeti, com a voz fria. — Encontrem outra. — Não existe outra — disse o médico, firme. — E insistir nisso é colocar a vida dela em risco imediato. Você apertou minha mão. — Aaron… senta. Obedeci. Não porque concordava. Mas porque você pediu. — Eu preciso que você me escute — você disse, olhando direto para mim. — Sem tentar me salvar agora. Minha garganta fechou. — Eu não sei fazer isso — respondi. — Então aprende — disse, com doçura c***l. — Só por um minuto. Respirei fundo. — Eu estou com medo — você continuou. — Muito. Mas também estou… certa. — Certa de quê? — perguntei, a voz falhando. Você levou minha mão até sua barriga. — Certa de que eu não posso tirar a vida dele para tentar salvar a minha. — E se isso custar você? — perguntei, desesperado. — Então vai custar — respondeu, chorando. — Mas pelo menos eu vou embora sabendo que amei até o fim. — Isso não é justo — eu disse. — Não com você. Não comigo. — A vida nunca foi justa com você, Aaron — respondeu. — E mesmo assim… você ficou. Eu abaixei a cabeça. — Eu não consigo aceitar isso — confessei. — Eu não consigo imaginar acordar sem você. Você tocou meu rosto. — Eu não consigo imaginar você vivendo sem mim também — disse. — Mas eu preciso acreditar que você vai. As lágrimas começaram a cair antes que eu pudesse impedir. — Eu não quero ser forte — murmurei. — Eu só quero você. Você me puxou para perto, com a pouca força que tinha. — Então fica aqui — sussurrou. — Agora. Comigo. Os médicos saíram para nos dar espaço. O quarto ficou silencioso demais. — Você vai me odiar? — você perguntou. — Nunca. — Vai me culpar? — Só o mundo. — Vai amar nosso filho? A pergunta me destruiu. — Como se ele fosse você — respondi, chorando abertamente agora. Você sorriu. — Então… eu fiz algo certo. Ficamos assim por muito tempo. Abraçados. Chorando. Respirando juntos como se isso pudesse adiar o inevitável. — Aaron… — você murmurou, já mais fraca. — Se em algum momento… se eu não acordar… — Não fala— — Escuta — insistiu. — Promete que não vai transformar isso em ódio. Não deixa isso te engolir. Fechei os olhos. — Eu não sei quem eu vou ser sem você — admiti. — Então seja alguém que ainda ama — respondeu. Quando você adormeceu, eu fiquei ali, segurando sua mão, sentindo o peso da decisão que não foi minha. E naquele instante, eu entendi: O amor não sangra só quando perde. Ele sangra quando precisa deixar ir. E eu nunca estive tão ferido. Eu fiquei ali depois que você adormeceu, com a sua mão presa à minha como se fosse a última coisa sólida no mundo. O monitor continuava marcando seus batimentos. Lentos. Irregulares demais para o meu gosto. Cada som parecia alto demais. Cada pausa, longa demais. Passei o polegar com cuidado pelo dorso da sua mão, traçando círculos pequenos, repetitivos, como fazia quando você tinha dificuldade para dormir. Um hábito antigo. Um gesto simples. Uma tentativa inútil de fingir normalidade. — Você prometeu que ia envelhecer comigo — murmurei, sem saber se você me ouvia. — Prometeu reclamar do meu mau humor e da bagunça do escritório… prometeu tudo isso. Sua respiração falhou por um segundo. Depois voltou. Eu congelei. — Amor? — chamei, baixo. Nenhuma resposta. Levantei na mesma hora, chamei a enfermeira. Ela entrou rápida, checando sinais, ajustando aparelhos. — Está tudo sob controle — disse. Nada parecia sob controle. Quando ela saiu, eu voltei a me sentar. Minhas mãos tremiam agora, e eu não fiz esforço algum para esconder. — Eu não sei como fazer isso — confessei, a voz quebrada. — Não sei como ficar aqui… esperando. Você se mexeu levemente. Abriu os olhos com dificuldade. — Aaron… — murmurou. Aproximei-me imediatamente. — Estou aqui. — Você está com medo — disse, mesmo fraca. — Dá pra ouvir na sua respiração. Tentei sorrir. — Eu sempre tive medo — menti. Você balançou a cabeça de leve. — Não desse jeito. Engoli em seco. — Eu queria trocar de lugar com você — falei. — Sem pensar duas vezes. Você levantou a mão com dificuldade e tocou meu rosto. — Eu sei — disse. — Mas eu não deixaria. — Por quê? — Porque você ainda tem coisas pra fazer — respondeu. — E eu… — sua voz falhou — eu preciso fazer isso sozinha. — Você não está sozinha — corrigi. — Nunca esteve. Você fechou os olhos por um instante, respirando com esforço. — Promete que vai ficar até o fim? — perguntou. — Mesmo se eu ficar… diferente? — Eu já fico — respondi. — Mesmo agora. Um silêncio pesado se instalou. — Aaron… — você voltou a falar — você precisa aceitar uma coisa. — O quê? — Que amar alguém… às vezes significa perder. A frase me atravessou como uma bala lenta. — Eu não aceito isso — respondi. — Mas vai — disse você, com uma calma que me aterrorizou. — Porque você é mais forte do que pensa. — Eu não quero ser forte — murmurei. — Eu só quero você. Você sorriu fraco. — E eu queria te dar isso. As lágrimas escorreram sem que eu tentasse impedir. — Desculpa — eu disse. — Desculpa por todas as vezes que cheguei tarde. Por todas as vezes que te deixei esperando. Por achar que sempre teria mais tempo. Você apertou minha mão com o pouco de força que tinha. — Nós tivemos tempo — respondeu. — Talvez não o quanto queríamos… mas foi real. Fiquei em silêncio. — Se ele nascer — você continuou, com dificuldade — quero que saiba que foi amado antes mesmo de respirar. Minha garganta fechou. — Ele vai saber — respondi. — Eu vou contar todos os dias. Você respirou fundo, cansada demais agora. — Então… eu posso descansar um pouco. — Pode — murmurei. — Eu cuido de tudo. Seus olhos começaram a se fechar. — Aaron… — disse pela última vez antes de adormecer. — Obrigada… por me amar sem tentar me consertar. Essa frase me quebrou de um jeito definitivo. Fiquei ali, imóvel, enquanto você dormia. Enquanto o tempo passava. Enquanto o mundo seguia sem pedir permissão. E naquele quarto silencioso, eu finalmente entendi algo que levei a vida inteira para aprender: Eu sempre achei que amar era proteger. Controlar. Vencer. Mas naquela madrugada, sentado ao lado da mulher que eu mais amei, eu descobri que amar também é permanecer, mesmo quando não há vitória possível. E isso… isso foi a coisa mais difícil que eu já fiz.
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