Capítulo 7 — Quando o Tempo Começa a Levar

1469 Palavras
O primeiro sinal foi o cansaço que não passava. Não era mais aquele cansaço comum das noites m*l dormidas ou da dor controlada por remédios. Era algo mais profundo. Um esgotamento que parecia vir do centro do seu corpo, como se cada célula estivesse desistindo aos poucos. Você m*l conseguia manter os olhos abertos naquela manhã. — Amor… — chamei, tocando seu ombro com cuidado. Você abriu os olhos lentamente. — Eu tô aqui — murmurou, como se precisasse me tranquilizar. — Você não dormiu nada. — Dormi — respondeu. — Só… acordei cansada. Essa frase ficou comigo. Acordei cansada. Te ajudei a sentar. Seus movimentos eram lentos demais. Pesados demais. Quando tentou ficar em pé, suas pernas falharam. Eu te segurei antes da queda. — Não — você disse, frustrada. — Não faz isso. — Fazer o quê? — Me carregar como se eu já estivesse… — você não terminou a frase. — Como se você estivesse cansada — completei. — Porque você está. Você fechou os olhos, respirando com dificuldade. — Aaron… — sua voz saiu fraca. — Eu não sinto mais força. Levei você de volta para a cama. Chamei os médicos. Eles vieram rápido demais. Exames. Expressões sérias. Palavras medidas. — O organismo dela está entrando em exaustão — disseram. — A gravidez está exigindo mais do que o corpo consegue oferecer. — O que isso significa? — perguntei. Um silêncio curto. — Significa que precisamos estar preparados — respondeu um deles. Preparados. Nunca odiei tanto uma palavra. Quando ficamos sozinhos de novo, você virou o rosto para mim. — Eles estão falando comigo como se eu estivesse indo embora — disse. Engoli em seco. — Eles estão falando com cuidado — respondi. Você soltou um riso fraco. — Cuidado demais geralmente vem tarde. Sentei ao seu lado, segurei sua mão. — Você está com medo? — Não — respondeu, depois de alguns segundos. — Eu estou… triste. — Triste com o quê? — Com você — confessou. — Eu vejo você se segurando o tempo todo. Como se qualquer emoção mais forte fosse te destruir. — Talvez seja — respondi, honesto. Você apertou meus dedos. — Você n******e ir comigo — disse. — Seja lá onde isso termine. Minha garganta fechou. — Eu não sei ficar sem você — murmurei. — Vai aprender — respondeu. — E vai odiar cada segundo disso. As horas passaram arrastadas. Você dormia e acordava em intervalos curtos. Falava pouco. Respirava com esforço. No meio da tarde, você acordou assustada. — Aaron… — sua voz saiu diferente. — Alguma coisa não está certa. — O que você está sentindo? — Pressão — respondeu. — E dor… diferente. Chamei os médicos imediatamente. O quarto se encheu de gente outra vez. Monitores, vozes, mãos apressadas. — Ela está entrando em trabalho de parto — alguém disse. Meu coração parou. — Agora? — perguntei. — Não… n******e ser agora. — O corpo dela está tentando priorizar o bebê — explicou uma médica. — Não é escolha. É instinto. Você me procurou com o olhar, assustada. — Aaron… — chorou. — Eu não estou pronta. Segurei seu rosto. — Olha pra mim — pedi. — Você não precisa estar pronta. Eu estou aqui. — E se eu não aguentar? — perguntou. — Então eu vou segurar você — respondi. — Mesmo que doa. As dores começaram a aumentar. Você gemia baixo, tentando não gritar, como se até a dor fosse algo que você não queria me dar. — Para — pedi. — Para de tentar ser forte. — Eu não quero te assustar — respondeu entre lágrimas. — Eu já estou assustado — confessei. — Agora só fica comigo. Você apertou minha mão com força. — Promete que… se ele nascer… você vai amar ele por nós dois? As lágrimas caíram sem controle. — Eu prometo — respondi. — Com tudo que eu sou. Você fechou os olhos, respirando com dificuldade. — Então… — murmurou — talvez valha a pena. Essa frase me destruiu. O parto avançava, e seu corpo parecia se perder a cada contração. Sua pele estava fria. Seus lábios, pálidos demais. — Ela está perdendo forças — disseram. Eu fiquei ali, impotente. — Fica comigo — você repetia. — Não solta minha mão. — Nunca — respondi, mesmo sentindo que o mundo estava escapando pelos meus dedos. E enquanto a vida tentava nascer… outra parecia se despedir. Naquele quarto, eu entendi algo que jamais imaginei sentir: O amor não dói porque acaba. Ele dói porque continua… mesmo quando tudo está sendo levado. As contrações vinham em ondas desiguais. Algumas curtas, outras longas demais. Cada uma arrancava um pedaço de você, e eu sentia como se arrancassem de mim também. Seu corpo se arqueava, os dedos se fechavam com força absurda ao redor da minha mão. — Aaron… — você sussurrou entre uma dor e outra. — Não deixa eles me levarem pra longe. — Ninguém vai te levar — respondi, mesmo sabendo que já estavam. A médica se aproximou novamente, falando baixo com a equipe. Eu via pelos olhos dela: aquilo não estava indo como deveria. — Você precisa respirar comigo — pedi, encostando minha testa na sua. — Olha pra mim. Só pra mim. Você tentou. Tentou mesmo. Mas seus olhos começavam a perder o foco entre uma contração e outra, como se o cansaço estivesse finalmente vencendo. — Eu tô tão cansada… — murmurou. Essa frase me destruiu mais do que qualquer grito. — Eu sei — respondi, passando a mão pelo seu cabelo suado. — Descansa nos intervalos. Eu seguro o resto. Você soltou um riso fraco, quase inexistente. — Você sempre tenta segurar tudo. — Dessa vez eu tenho motivo — respondi. Em determinado momento, você começou a tremer. — Frio? — perguntei. — Não… — respondeu, com dificuldade. — É como se meu corpo estivesse… desligando. — Não — falei, firme demais. — Fica comigo. Olha pra mim. Você abriu os olhos com esforço. — Se eu fechar… — sua voz falhou — me chama. — Eu nunca vou parar de chamar você — respondi. Os médicos trocaram olhares rápidos demais. Um deles se aproximou de mim. — Precisamos ser realistas — disse baixo. — O corpo dela está entrando em falência progressiva. A palavra ecoou na minha cabeça como um tiro silencioso. — Não — respondi. — Ela está lutando. — Está — concordou. — Mas ninguém vence todas as batalhas. Olhei para você. Suada. Pálida. Fraca demais para segurar a própria cabeça agora. — Amor — chamei, com a voz quebrada. — Você precisa ouvir minha voz. — Eu tô ouvindo — respondeu, fraca. — Só… não muito longe. — Então fica aqui — pedi. — Só mais um pouco. Você respirou fundo, com dificuldade. — Ele… — murmurou. — Ele vai nascer? — Vai — respondi. — E vai ser forte. Como você. Você sorriu de leve. — Tomara que ele tenha seus olhos… — disse. — Pra nunca esquecer de onde veio. As dores voltaram mais fortes. Você gritou dessa vez, sem conseguir segurar. E eu agradeci em silêncio, porque aquilo significava que você ainda estava ali. — Está quase — disseram. Quase. Essa palavra nunca foi tão c***l. — Aaron… — você chamou de novo, a voz mais fraca do que antes. — Promete uma última coisa? Meu coração afundou. — Tudo. — Se eu começar a ir… — você respirou fundo — não me puxa de volta à força. Não me deixa presa entre dor e medo. As lágrimas caíram antes que eu pudesse impedir. — Eu não sei como fazer isso — confessei. — Só… — você tocou meu rosto com dificuldade — me ama. Até o fim. Inclinei-me e encostei minha testa na sua. — Eu te amo — disse, com a voz quebrada. — Mais do que qualquer coisa que já existiu em mim. Você fechou os olhos por alguns segundos. — Então… tá tudo bem — murmurou. Os médicos começaram a se mover mais rápido. O parto avançava. O mundo parecia girar fora de controle, enquanto eu permanecia parado, preso a você. — Está vindo — disseram. Você fez força com o pouco que tinha. Seu corpo tremia inteiro. Suas mãos escorregaram das minhas por um segundo, e o pânico me atravessou. — Amor — chamei, desesperado. — Olha pra mim! Você abriu os olhos pela última vez naquele momento. — Eu tô aqui… — sussurrou. — Ainda. Segurei sua mão com força, como se pudesse ancorar sua alma ali. E naquele instante, enquanto a vida lutava para nascer e a sua lutava para ficar, eu tive a certeza mais c***l de todas: O tempo não estava levando você de uma vez. Estava levando aos poucos. E eu estava assistindo… sem poder impedir.
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