Capítulo 8 — O Som Que Ficou

1246 Palavras
O choro veio primeiro. Fraco. Curto. Mas real. Por um segundo — apenas um segundo — eu achei que o mundo tinha decidido nos poupar. — Nasceu — alguém disse. As palavras chegaram até mim como se eu estivesse debaixo d’água. Meus olhos estavam presos em você, no seu rosto pálido demais, no suor frio escorrendo pela sua têmpora, na sua respiração irregular. — Amor… — chamei, desesperado. — Ele nasceu. Você não respondeu. — Ela está perdendo pressão — ouvi alguém dizer. — Precisamos agir agora. O choro do bebê ecoou de novo. Um pouco mais forte dessa vez. Um som pequeno demais para carregar tudo o que custou. — Amor, olha pra mim — pedi, segurando seu rosto com cuidado. — Ele tá aqui. Você conseguiu. Seus olhos se abriram devagar. Você sorriu. E aquele sorriso… Foi o mais cansado e o mais bonito que eu já vi na vida. — Eu disse… — você murmurou — que ia tentar ficar. Engoli em seco. — Você ficou — respondi. — Você venceu. Você respirou fundo, como se estivesse juntando o pouco que ainda tinha. — Aaron… — sua voz saiu fraca, mas clara — ele chorou? — Chorou — respondi. — Do jeitinho que você imaginou. Você fechou os olhos por um instante. — Então… — murmurou — valeu a pena. E foi ali que tudo começou a dar errado. — Estamos perdendo ela! — alguém gritou. As mãos se moveram rápido demais. As vozes ficaram altas demais. O quarto, pequeno demais. — Amor — chamei, a voz já sem controle. — Fica comigo. Não agora. Por favor. Você tentou falar. Não conseguiu. O monitor começou a apitar diferente. — Não — eu disse, em voz alta agora. — Não, não, não. Senti alguém me afastar da cama. — Senhor, por favor— — NÃO — gritei. — Ela é minha esposa! Mas já não era sobre posse. Era sobre desespero. — Aaron… — sua voz voltou, quase inaudível. Aproximei-me imediatamente. — Eu tô aqui — respondi, segurando sua mão. — Eu tô aqui. Seus dedos apertaram os meus uma última vez. — Cuida… — você tentou dizer. — Cuida dele. As lágrimas caíam sem controle agora. — Eu prometo — respondi, a voz quebrada. — Eu prometo com tudo que eu sou. Você me olhou. E naquele olhar não havia medo. Só amor. E despedida. O monitor fez um som longo demais. — Hora do óbito… — alguém disse. Eu não ouvi o resto. Porque naquele instante, o mundo acabou. Fiquei parado. Segurando sua mão. Esperando você voltar. Mas você não voltou. O choro do bebê ecoava do outro lado do quarto. Vida e morte dividindo o mesmo espaço. — Senhor… — uma enfermeira tocou meu ombro com cuidado. — O seu filho… Meu filho. A palavra parecia estrangeira. Me virei devagar. Ele estava enrolado em um pano branco, pequeno demais, frágil demais. O rosto enrugado, os olhos fechados, a boca ainda tremendo pelo choro recente. — Ele é lindo — eu disse, sem emoção alguma na voz. Peguei-o nos braços. E naquele momento, senti tudo. A dor. A perda. A culpa. O amor. Tudo de uma vez. Eu fiquei ali por tempo demais. Ninguém me disse quanto. Ninguém me tirou de você à força. Talvez porque ninguém soubesse como arrancar um homem do fim do mundo sem perder algo no processo. Sua mão ainda estava na minha. Fria agora. Leve demais. Como se já não fosse feita da mesma matéria que a minha. — Amor… — chamei de novo, num sussurro ridículo. — Você prometeu reclamar de mim quando eu fosse dramático. Nada. Encostei minha testa na sua. — Abre os olhos — pedi, sem força. — Só pra me xingar uma última vez. O silêncio respondeu. Alguém colocou uma manta sobre você. Um gesto simples. Humano. c***l. Cobriram seu corpo como se aquilo pudesse encerrar alguma coisa. — Não — murmurei. — Não cobre. A enfermeira hesitou, depois assentiu. A manta ficou apenas até seus ombros. Seu rosto continuava visível. Precisava continuar visível. Enquanto eu pudesse ver você, ainda parecia possível. O choro do bebê voltou, mais forte agora. A vida insistindo. Olhei para ele nos meus braços. Pequeno demais. Pesado demais. — Ei… — falei, sem saber se era para ele ou para mim. — Ela conseguiu, sabia? Ele se mexeu, o rosto vermelho, a boca procurando algo que não existia mais. Meu peito doeu de um jeito novo. Um tipo de dor que não tinha nome. — Ela queria tanto te conhecer — murmurei. — E você… você chegou. A porta do quarto se abriu com cuidado. Um médico entrou, o olhar respeitoso, cansado. — Senhor Valente… precisamos conversar sobre os próximos passos. Próximos passos. Como se eu ainda estivesse andando. — Depois — respondi, sem olhar para ele. — Agora não. — Quando o senhor quiser — disse ele, recuando. Fiquei sozinho de novo. Com você. Com ele. Com tudo o que sobrou. Inclinei-me sobre a cama e beijei sua testa outra vez. Sua pele estava fria demais agora. Definitiva demais. — Eu devia ter te levado embora — sussurrei. — Devia ter ignorado médicos, o mundo inteiro… devia ter sido egoísta. Segurei sua mão uma última vez. — Me perdoa — pedi. — Por não saber te salvar. Nada. Só o som baixo do monitor, agora desligado. Quando finalmente me afastei, senti como se estivesse cometendo uma traição. Como se virar as costas para você fosse aceitar algo que eu não estava pronto para aceitar. Saí do quarto com o bebê nos braços. O corredor parecia longo demais. Pessoas passavam, algumas olhavam, outras desviavam o olhar. Para elas, eu era só mais um homem segurando um recém-nascido. Ninguém via o que faltava. No quarto ao lado, uma mulher ria. Em outro, alguém chorava alto. O mundo seguia. E eu queria gritar com ele. No quarto do berçário, colocaram o bebê no pequeno berço transparente. Ele chorou outra vez quando o soltei. Meu corpo inteiro reagiu. — Não — falei, rápido demais. — Eu fico com ele. A enfermeira assentiu. — Como quiser. Sentei ao lado do berço, observando cada movimento mínimo. O peito subindo e descendo rápido. Os dedos fechando no ar. — Você tem os olhos dela — murmurei. — Ainda não dá pra ver direito… mas eu sei. Encostei um dedo no vidro. — E eu não sei como ser isso que você precisa agora. Ele se acalmou aos poucos. O choro virou um som baixo, depois silêncio. E naquele silêncio, algo se assentou em mim. Não paz. Nunca paz. Mas uma responsabilidade que doía mais do que qualquer perda. Eu tinha prometido. Voltei ao quarto uma última vez antes que a levassem. Fiquei parado à porta, incapaz de entrar de novo. — Eu volto — sussurrei, sem saber quando. E saí. Com seu filho nos braços. Com o coração enterrado naquele quarto. Com a certeza de que o amor não morre quando alguém vai embora. Ele fica. Pesado. Eterno. E cobra todos os dias. — Ela salvou você — murmurei para ele. — E eu não sei como viver com isso… mas vou tentar. Voltei até você. Beijei sua testa fria. — Eu te amo — disse. — Sempre vou amar. Não houve resposta. Só silêncio. E naquele silêncio, eu entendi: O som que ficou não foi o choro do nosso filho. Foi o vazio que você deixou. E ele nunca mais iria embora.
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