Capítulo 11 — O Que Ficou Vivo

757 Palavras
O tempo não cura. Essa foi a primeira verdade que eu aprendi depois de você. Ele apenas ensina onde dói menos tocar. Os anos começaram a passar de um jeito estranho — não em datas, mas em mudanças pequenas demais para serem notadas de imediato. O choro do bebê virou riso. O riso virou palavras. As palavras começaram a formar perguntas. Perguntas que eu temia. — Papai… — ele disse numa tarde chuvosa, sentado no chão da sala, montando um quebra-cabeça torto demais para a idade dele. — A mamãe morreu porque eu nasci? A peça caiu da minha mão. A pergunta ficou ali, nua, c***l, impossível de ignorar. Ajoelhei à frente dele. — Não — respondi com firmeza. — Você nasceu porque a mamãe amava muito. Ele franziu a testa, tentando entender. — Mas ela foi embora… Respirei fundo. — Ela ficou o tempo que pôde — disse. — E ficou do jeito mais forte que alguém pode ficar. Ele pensou por alguns segundos. — Então… eu não fiz m*l pra ela? Meu coração partiu de novo. — Você salvou ela — respondi. — Do medo. Ele sorriu pequeno, satisfeito com a resposta, e voltou ao brinquedo. Eu fiquei ali, ajoelhado, tentando manter o mundo inteiro dentro do peito. À noite, depois que ele dormiu, entrei no seu quarto outra vez. Ainda era o seu quarto. Eu nunca tive coragem de mudar muita coisa. O perfume ainda estava ali, fraco, quase imaginário. O livro continuava aberto na mesma página. Às vezes eu jurava que você ia reclamar da poeira. — Ele está crescendo — murmurei, sentando na cama. — E eu estou tentando não te apagar enquanto sigo em frente. Passei os dedos pela colcha. — Isso não é abandono, né? O silêncio respondeu como sempre. Mas, pela primeira vez, não me senti culpado por respirar. Nos dias seguintes, algo começou a mudar dentro de mim. Não alegria. Não paz. Permissão. Permissão para rir quando ele fazia careta. Permissão para descansar sem sentir que estava esquecendo você. Permissão para admitir que continuar vivendo não era uma traição — era uma promessa cumprida. — A mamãe gostava de chuva? — ele perguntou certa manhã. — Gostava — respondi. — Dizia que a chuva lavava o mundo quando ele ficava pesado demais. Ele ficou olhando pela janela. — Então… quando chove, ela tá limpando tudo? Engoli em seco. — Talvez — respondi. — Talvez ela esteja cuidando de nós de longe. Naquela noite, sonhei com você pela primeira vez em anos. Não era um sonho triste. Você estava sentada no sofá, do mesmo jeito que naquela noite em que tudo mudou. Usava roupas simples. O rosto calmo. Os olhos vivos. — Você parece cansado — você disse. — Eu estou — respondi. — Mas está inteiro — observou. — Do jeito que dá. Você sorriu. — Eu não queria que você parasse — disse. — Nem por mim. Acordei com lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto. Mas não era desespero. Era gratidão. Algumas semanas depois, ele ficou doente pela primeira vez. Febre alta. Corpo quente demais. Medo antigo voltando com força total. Passei a noite inteira acordado ao lado da cama dele, a mão na testa pequena, contando respirações — um hábito que eu pensei ter enterrado. — Papai… — ele murmurou, meio dormindo. — Você não vai embora, né? Meu peito apertou. — Não — respondi. — Nunca. — Promete? Encostei a testa na dele. — Eu prometo com tudo que sou. Quando a febre baixou, eu chorei no banheiro, sozinho, com a testa apoiada no espelho. Não de medo. De alívio. Naquela madrugada, eu entendi algo que levou tempo demais para aceitar: Eu não estava vivendo apesar de você. Eu estava vivendo por causa de você. Porque você me ensinou a amar sem garantia. A ficar sem promessas. A continuar mesmo quando o final não é feliz. E isso… isso mudou tudo. Na manhã seguinte, ele acordou melhor. Correu pela casa, rindo alto demais. — Papai! — gritou. — Olha eu correndo! Sorri. — Ela ia brigar com você agora — falei. — Mandar andar devagar. Ele riu mais ainda. — Então fala pra ela que eu tô correndo só um pouquinho! Olhei para o alto, pela primeira vez sem dor. — Ela tá vendo — respondi. E naquele instante, com a casa cheia de barulho de vida, eu percebi: Você não ficou no passado. Você ficou em tudo que continuou. E enquanto eu respirar… enquanto ele existir… O amor que nos uniu nunca vai morrer. Nunca.
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