Capítulo 10 — Onde o Amor Nunca Morreu

670 Palavras
Ele aprendeu a andar numa tarde comum demais para algo tão grande. Eu estava ajoelhado no tapete da sala, cercado por brinquedos espalhados — um caos pequeno, colorido, vivo. Ele segurava o sofá com uma mão, a outra estendida no ar, como se procurasse algo invisível. — Vem — eu disse, sorrindo sem perceber. — Eu tô aqui. Ele me olhou com os seus olhos. Os seus olhos. Os mesmos que eu vi se fecharem pela última vez naquele quarto branco. Ele deu um passo. Depois outro. Caiu. E riu. O som me atravessou como uma lâmina doce demais. — Você viu isso? — falei em voz alta, virando o rosto instintivamente para o lugar onde você costumava sentar. O sofá estava vazio. O sorriso no meu rosto morreu devagar. Ajudei-o a se levantar. Ele tentou de novo. Caiu de novo. Riu de novo. E naquele riso… havia você. Não como lembrança. Como presença. Naquela noite, depois que ele dormiu, entrei no seu quarto. O quarto que nunca deixei mudar demais. As cores ainda eram as que você escolheu. Os detalhes, os seus. Era a única parte da casa que o tempo respeitava. Sentei ao lado da cama pequena e fiquei observando sua respiração tranquila. — Ela te chamaria de mil nomes carinhosos agora — murmurei. — Todos ridículos. Todos perfeitos. Passei a mão pelos seus cabelos com cuidado. — E brigaria comigo por ser sério demais. Sorri fraco. — Ela sempre dizia que você ia me ensinar a sentir sem medo. Fiquei em silêncio por um tempo. Depois, continuei. — Eu senti culpa quando você riu pela primeira vez. Quando dormiu a noite inteira. Quando eu percebi que ainda sabia respirar sem doer o tempo todo. Engoli em seco. — Mas ela não ia querer isso pra mim… nem pra você. Levantei e fui até a janela. A cidade estava calma. Diferente daquela noite. Diferente de mim. — Eu sobrevivi — falei baixo, para o mundo. — Como você pediu. Voltei até ele e me ajoelhei. — E eu te contei tudo sobre ela — sussurrei. — Mesmo quando você ainda não entendia as palavras. No dia seguinte, levei-o até o cemitério pela primeira vez. Ele segurava meu dedo com força, curioso demais para entender o peso daquele lugar. Ajoelhei diante da lápide. Seu nome estava ali. Definitivo demais. — Nós viemos te ver — eu disse. — Ele está crescendo rápido demais. Coloquei-o no chão. Ele tocou a grama, distraído, vivo. — Ele tem seu jeito — continuei. — Seu silêncio. Seu olhar atento. Sua coragem quieta. Minha voz falhou. — E ele ri… — engoli em seco — como você ria quando achava que eu não estava olhando. Sentei ali por um tempo. Não chorei. Não porque não doía. Mas porque agora a dor tinha aprendido a ficar. — Eu ainda te amo — murmurei. — Do mesmo jeito. Sem menos. Sem mais. O vento passou leve. E por um instante — só um — eu senti paz. Naquela noite, em casa, ele acordou assustado. — Papai… — chamou, a voz pequena. Fui até ele imediatamente. — Tô aqui. Ele estendeu os braços. Eu o peguei no colo. — Sonhei… — murmurou — com a mamãe. Meu coração parou. — Como ela era? — perguntei, tentando manter a voz firme. Ele pensou por um momento. — Quente — respondeu. — Ela me abraçava. Fechei os olhos. — Ela faz isso — sussurrei. — Mesmo agora. Ele se aninhou em mim e dormiu de novo. Fiquei ali, segurando nosso filho, entendendo finalmente o que você tentou me ensinar até o último suspiro: O amor não acaba quando alguém vai embora. Ele muda de forma. Ele cresce. Ele fica. E mesmo que um coração tenha parado… outro continua batendo por dois. E eu prometo — como prometi naquela madrugada em que perdi tudo — Enquanto ele viver, enquanto eu viver, você nunca terá ido embora de verdade. Porque amar você foi a coisa mais viva que já aconteceu comigo.
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