O castigo do Destino

1199 Palavras
A sala dos professores estava silenciosa naquela tarde abafada. As janelas estavam abertas, mas nem a brisa se atrevia a entrar. Rafael se recostou na cadeira com uma pilha de folhas diante de si, todas escritas por seus alunos, como parte de um exercício de observação sensível — “Quero que escrevam sobre algo que nunca disseram a ninguém..” Ele lia em silêncio, marcando com caneta vermelha os textos que demonstravam esforço e sensibilidade. Até que uma frase o fez parar. "Quase ninguém percebe, mas existe prazer no olhar que demora um segundo a mais do que deveria. E é nesse segundo que tudo começa." Ele releu. Duas vezes. A letra era familiar. O nome no topo da folha confirmava o que ele já suspeitava: Elisa. A. Fechou os olhos por um instante. Aquilo não era apenas um bom uso da linguagem. Era um grito velado. Um sussurro perigoso. A frase parecia falar dele. De ontem. Do olhar dela na aula. Do esbarrão no corredor no inicio das aulas. Do sonho. Rafael largou a folha na mesa e esfregou o rosto com as mãos. Ele tinha sonhado com ela. E não foi um sonho inocente. Era o tipo de sonho que começava suave — uma sala vazia, uma porta trancada, o cheiro doce do perfume que ela sempre usava — e terminava com corpos colados, roupas pelo chão, gemidos abafados entre beijos famintos. Ele a colocava sobre a mesa. O calor do corpo dela contra o dele. O sussurro do nome dele em sua boca. A pele macia, as mãos famintas, o gosto dela… Rafael sentiu a respiração pesar. O corpo respondeu antes que ele pudesse impedir. Fechou as pernas instintivamente, recostando-se com mais firmeza na cadeira, alguém podia chegar e vê-lo e******o, tentou afastar as imagens que insistiam em invadir. — Se controla, Rafael — sussurrou para si mesmo, a voz baixa, firme. O coração ainda batia forte. Ele apertou os olhos, tentando pensar em qualquer outra coisa. Em provas, na lista de chamada, no horário da próxima reunião pedagógica. Qualquer coisa. Menos no jeito como Elisa o olhou depois do esbarrão. Menos na ousadia da resposta dela: “Não é da sua conta.” Aquilo o havia atingido como uma pedra lançada de surpresa. Por dentro, uma parte dele — que odiava admitir — gostou da provocação. Do desafio. Do olhar firme dela. Da coragem com que ela o enfrentava. Mas não podia. Ela era sua aluna. Repetiu isso como um mantra. Ela é sua aluna. Você é o adulto. O responsável. Isso não pode acontecer. Isso não vai acontecer. Voltou os olhos para a frase escrita por ela. Aquilo não era apenas um exercício escolar. Era uma confissão. Ou talvez fosse só imaginação dele, exacerbada pelo sonho maldito da noite anterior. Mas e se não fosse? E se ela também tivesse sentido? Rafael apertou o papel entre os dedos, como se pudesse extrair respostas da folha. Sentiu o corpo ainda reagindo, traidor. Se levantou de súbito e foi até a pia, jogando um pouco de água fria no rosto. O espelho acima mostrava sua expressão tensa, os olhos inquietos. — Você está perdendo o controle, murmurou. Voltou à mesa, pegou a folha de Elisa novamente. Leu pela quarta vez. "É nesse segundo que tudo começa." Sentou-se devagar, inspirando fundo. A verdade é que algo já tinha começado. Dentro dele. ---- ---- ---- ---- O sinal final tocou com um barulho seco e prolongado, como se anunciasse algo maior do que apenas o fim das aulas. Elisa ainda sentia a tensão vibrar no corpo depois da troca ríspida com Rafael no corredor. Sua mente estava longe dali — na sala escura de casa, nos gritos abafados dos pais discutindo pela décima vez na semana, e no sonho que insistia em voltar toda vez que ela fechava os olhos. Ela m*l teve tempo de respirar quando ouviu seu nome ecoando no corredor: — Elisa Andrade? Era a coordenadora. Ela estava séria, segurando uma prancheta contra o peito. — A diretora quer falar com você. Agora. Elisa sentiu o estômago embrulhar. Bia, que vinha logo atrás, soltou uma frase baixa: — Opa... puxão de orelha? Elisa apenas lançou um olhar cansado. Nem força tinha pra ironia. Atravessou o corredor em silêncio, os passos ecoando no piso. Bateu na porta da diretoria com os nós dos dedos e ouviu a voz firme responder: — Pode entrar. Dona Renata, a diretora, estava sentada à frente do computador. Óculos na ponta do nariz, olhar direto. — Sente-se, Elisa. Ela obedeceu, o corpo rígido, como se soubesse exatamente o que viria. — Nós recebemos hoje os relatórios com as notas do último bimestre — começou a diretora, sem rodeios. — E eu preciso conversar com você porque a sua queda de rendimento foi significativa. Especialmente em Literatura, Redação e Filosofia. Elisa baixou os olhos. Nenhuma surpresa. Só vergonha. — Tem algo acontecendo? — perguntou a diretora, com um tom mais brando. — Algo que queira me contar? Elisa engoliu em seco. A resposta não era fácil de dizer. Mas também não aguentava mais guardar tudo. — Meus pais... andam brigando muito. Em casa tá difícil de me concentrar. Quase não consigo dormir. Às vezes, eu chego aqui já cansada, pensando em como vai estar quando eu voltar. Dona Renata observou com atenção. Não parecia julgá-la. Apenas escutava. — Isso explica muita coisa — disse com calma. — E eu lamento, Elisa. Sei que não é fácil conviver com esse tipo de ambiente. Mas você precisa de apoio. E por isso mesmo estamos aqui. A diretora fechou a tampa do notebook, cruzando os braços sobre a mesa. — Vou te colocar em reforço escolar. A escola oferece esse suporte justamente pra casos como o seu, em que a vida pessoal acaba interferindo diretamente no rendimento. Elisa assentiu, aliviada por, pelo menos, não estar sendo repreendida. Mas ainda assim, havia um gosto amargo na garganta. — Eu vou verificar quais professores estão disponíveis. Ainda estamos fechando os horários do novo professor de Literatura, que acabou de chegar. Mas enquanto resolvemos isso, quero que você aguarde na biblioteca. Certo? — Certo. — E olha — completou a diretora, com um tom mais humano — você não está sozinha. A gente vai te ajudar, tá bom? — Tá. Obrigada. Elisa se levantou, sentindo-se menor do que quando entrou. Saiu da sala com a cabeça cheia. O corredor agora parecia maior, mais vazio. As vozes dos alunos iam sumindo à medida que ela se afastava da diretoria. Ao chegar na biblioteca, escolheu uma mesa ao fundo, perto da janela. Não queria conversar com ninguém. Pegou um livro aleatório só para parecer ocupada, mas não leu uma linha. A mente estava agitada demais. Pelas brigas em casa. Pelo esbarrão com Rafael. Pelo sonho que parecia tão real. Pela sensação de que tudo ao redor começava a fugir do controle. Encostou o queixo na mão e ficou olhando para o nada. E se, por alguma ironia c***l, o professor de reforço fosse justamente ele? A simples ideia fez seu estômago revirar. — Seria só o que me falta... — murmurou, baixinho. Mas o destino, ela aprenderia, sempre tem mais.
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