Reforço de Desejo

1372 Palavras
A sala da diretoria estava silenciosa, exceto pelo som das teclas do computador sendo pressionadas com firmeza por Renata. O relógio marcava 17h40, e ela finalmente concluía o quebra-cabeça dos horários de aulas de reforço daquele semestre. Planilhas abertas, blocos coloridos na tela, nomes de alunos e professores sendo encaixados como peças frágeis de um sistema sempre à beira do colapso. Ela ajustou os óculos no rosto e murmurou: — Agora só falta... Elisa Andrade. Renata abriu a aba com os nomes dos docentes disponíveis. Procurou por algum professor de Redação ou Literatura com horários livres — mas a lista era curta. Muitos com a agenda cheia, outros em licença, e alguns com histórico de não se adaptarem bem ao reforço individual. Quando seus olhos passaram pelo nome “Rafael Duarte”, ela parou. Um bloco inteiro da manhã ainda estava disponível. Era o único com disponibilidade. E, ironicamente, ele dava exatamente as matérias onde Elisa estava indo pior. — Perfeito — murmurou, como se o universo tivesse facilitado as coisas pela primeira vez no dia. Rafael era novo na escola, sim. Mas parecia competente. Calmo, educado, firme. Do tipo que passava confiança. Se havia alguém que poderia ajudar uma aluna com dificuldades, especialmente nas matérias dele, esse alguém era ele. Renata pegou o telefone interno e discou. — Professor Rafael, poderia vir à minha sala, por gentileza? Do outro lado, a resposta foi breve. Ela desligou satisfeita e ajeitou as anotações sobre Elisa sobre a mesa. Poucos minutos depois, três toques na porta. — Pode entrar. Rafael entrou com postura reta e uma pasta em mãos. Apesar da expressão neutra, os olhos denunciavam cansaço — ou talvez inquietação. — A senhora me chamou? — Sim, professor. Pode sentar um instante? Ele se acomodou à frente da mesa, cruzando as pernas discretamente. — Estava organizando os horários dos reforços individuais. E temos uma aluna com rendimento muito abaixo do esperado em três disciplinas. Duas delas são as suas: Literatura e Redação. Rafael manteve o olhar firme, mas sentiu o estômago se contrair. Sabia exatamente de quem Renata falava, mesmo antes que ela dissesse. — O nome dela é Elisa Andrade. Pausa. Ele respirou fundo, sem demonstrar surpresa. — Ela está com notas muito ruins. E acabou de me confidenciar que a situação em casa está complicada, os pais em conflito constante... o que explica a falta de concentração. — Imagino — murmurou ele, apertando levemente a pasta entre os dedos. — Você tem horários disponíveis, é novo na equipe, e sinceramente, acredito que seria perfeito para esse acompanhamento. Claro, será pago pelas horas extras, como previsto. O reforço começaria esta semana mesmo. Ela já foi avisada que aguarda na biblioteca. Rafael ficou em silêncio por um instante. Elisa. O nome ecoava na mente dele com um peso novo agora. Ele fechou os olhos por um breve segundo, como se quisesse apagar a imagem dela — ou pior: do sonho. A respiração dela. A pele dela. A boca dizendo seu nome como se o conhecesse por dentro. Era loucura. Era só um sonho. Mas estava tudo tão vívido. E agora, a realidade decidia brincar com ele. Ela era sua aluna. Era jovem. Brilhante, ainda que distraída. E ele… ele não podia. Sabia disso. — Diretora Renata… — começou, com a voz cuidadosamente calma — eu entendo a urgência, mas talvez outro professor... — Você é o único com horário disponível — interrompeu, sem tom de pressão, mas com firmeza. — E, sinceramente, confio na sua postura e competência. Acho que você pode fazer a diferença pra essa aluna. Postura. Competência. Palavras que apertaram em Rafael como lembranças de quem ele precisava ser — e não de quem ele desejava ser. Ele sabia o que devia responder. Recusar poderia gerar desconfiança. E a última coisa que ele queria era manchar sua reputação. Não naquela escola. Não depois de ter lutado tanto por aquele emprego. — Certo — disse, por fim. — Aceito. Renata sorriu, satisfeita. — Ótimo. Ela está te esperando na biblioteca, va até lá, combinar os horários com elas. — Claro. Ele se levantou, agradeceu e saiu, sentindo como se tivesse assinado um pacto com o próprio autocontrole. ---- ---- ---- ---- ---- A biblioteca da escola estava quase deserta, envolta naquele silêncio abafado que só os livros conhecem. Elisa estava com o corpo afundado na cadeira, os dedos brincando com a borda de uma página aberta — embora seus olhos não lessem nada. A cabeça fervia. O coração também. Ela mordeu o canto da unha. O ar parecia denso demais. Quente demais. Foi quando ouviu. Passos. Firmes. Calmos. Inconfundíveis. Seu corpo reagiu antes da mente entender. Um arrepio subiu pela nuca, desceu pela espinha. Sentou-se mais reta, disfarçando o descompasso da respiração. Rafael. Ela não precisava olhar. Sabia que era ele. Sentia. Era como se o corpo dela reconhecesse o som da presença dele antes de qualquer explicação lógica. Mas olhou. E lá estava ele. Aquela maldita camisa social com as mangas dobradas. O relógio no pulso. O cabelo bagunçado com elegância demais para ser descuido. A boca firme, os olhos verdes e intenso carregando algo que ela não conseguia decifrar — ou que, talvez, soubesse muito bem o que era, mas fingia não entender. Ele parou à frente dela, sem pressa, como se o tempo tivesse desacelerado de propósito. — Elisa — disse, com a voz baixa, quase íntima. Ela ergueu o olhar e arqueou uma sobrancelha. O corpo inteiro pulsava de nervosismo e… outra coisa que ela não queria nomear. — Com tantos professores nessa escola, tinha mesmo que ser você? Ele manteve o olhar fixo nela. Inabalável. Mas os dedos da mão esquerda apertaram a pasta com mais força, denunciando o desconforto. — Eu sou o único com horário livre. E dou exatamente as matérias em que você está indo m*l. — Péssimo critério de seleção — provocou, apoiando o queixo na mão, o olhar cheio de veneno e curiosidade. — Já viu como você me distrai? Ele desviou o olhar por um segundo. Mas só por um segundo. E quando voltou a encará-la, havia algo novo ali. Um brilho escuro. Um limite sendo testado. — Isso não tem nada a ver comigo — disse ele, com calma forçada. — O problema está em você. E se quiser mesmo melhorar, vai ter que aprender a separar o que sente daquilo que pensa. — E quem disse que eu penso quando você tá por perto? A frase saiu antes que ela pudesse filtrar. Rafael respirou fundo. O maxilar tensionado, o pescoço ligeiramente rígido. Mas mesmo assim, não se afastou. — Elisa… — murmurou, quase como um aviso. Ela se levantou devagar, sentindo o calor entre as pernas e o sangue correndo rápido demais. Agora estavam frente a frente. Perto. Quase perigosamente perto. O olhar dele caiu sem querer — ou querendo demais — sobre a curva do decote da blusa dela. E subiu de volta, como quem se pune e deseja ao mesmo tempo. — Me diz — ela sussurrou — você sempre aceita dar reforço assim… tão pessoalmente? — Só quando a aluna precisa muito — respondeu, e a voz dele falhou levemente no final. Desejo, tensão, culpa. Um coquetel em ebulição. Os olhos dele caíram brevemente nos lábios dela. Ela percebeu. Se aproximou meio passo. A respiração deles se misturou por um segundo. Um segundo longo, que gritou silenciosamente. O olhar dele vacilou. O dela incendiou. — A primeira aula é amanhã — disse ele, finalmente recuando meio passo, como se precisasse de ar. — Sala 03. Sete horas da manhã. Ela sorriu, lento. Ardilosa. — Vai ser só aula, professor? — Não teste os meus limites, Elisa. — E se eu quiser? Ele a olhou por um momento longo, intenso, como se a despisse com os olhos e, ao mesmo tempo, se obrigasse a recobrir cada centímetro do que havia imaginado. O desejo doía. Ele sentia. Ela também. Mas ele não podia. Não podia. Rafael se virou antes que dissesse algo que se arrependesse. Ao sair, murmurou: — Dorme cedo. Você vai precisar estar lúcida. Elisa ficou ali, assistindo ele ir embora, com o corpo ainda pulsando, as pernas fracas, o coração fora do ritmo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR