A cozinha estava silenciosa demais para o fim de tarde. O sol entrava pela janela pequena acima da pia, refletindo no piso claro e iluminando partículas de poeira no ar. O cheiro de produto de limpeza era forte, quase sufocante. Rita esfregava o fogão com movimentos firmes, mecânicos, como se precisasse daquela repetição para manter o controle. Luna parou na porta por alguns segundos antes de criar coragem. Estava pálida, os olhos inchados, o curativo ainda visível na mão. Sabia que não era bem-vinda ali. Sabia que aquele não era o momento ideal. Mas também sabia que, se não falasse agora, talvez nunca falasse. — Será que a gente pode conversar? — perguntou baixo, a voz falhando logo na primeira sílaba. Rita não respondeu de imediato. Continuou limpando, sem sequer virar o rosto. — Voc

