Capítulo 14

1267 Palavras
Já haviam se passado dois meses desde que voltaram da lua de mel. Sessenta dias de rotina, sessenta dias de contas, trabalho, compromissos familiares e adaptação. A vida tinha encontrado um ritmo. Helena acordava às 6h30. Miguel às 6h45 — sempre depois do segundo alarme. Café simples, conversas rápidas, um beijo na porta antes de cada um seguir para o trabalho. Eles estavam bem. Não como nas Maldivas — intensos e flutuando, mas firmes. E, ainda assim, naquela manhã de terça-feira, algo estava diferente. Helena abriu os olhos antes do despertador, o quarto ainda estava escuro. Ela ficou parada, olhando para o teto, sentindo o próprio corpo. Havia três dias que ela sentia um leve enjoo pela manhã, uma sensibilidade estranha nos s***s e um cansaço que não combinava com sua rotina. E havia outra coisa, o atraso, cinco dias. Ela virou lentamente a cabeça para o lado. Miguel dormia profundamente, respirando pesado. Ela calculou mentalmente de novo. Não podia ser ou podia? Seu coração começou a bater mais rápido. Eles não estavam tentando, mas também não estavam evitando com rigor absoluto. Era aquele tipo de descuido confortável de quem pensa: “Se acontecer… aconteceu.” Mas agora que poderia estar acontecendo…Ela sentiu medo. Helena levantou-se devagar e foi até o banheiro, trancou a porta, sentou na borda da banheira e respirou fundo. — Não entra em pânico… — sussurrou para si mesma. Ela abriu o aplicativo no celular, contagem do ciclo confirmado, atraso de cinco dias. O enjoo voltou, leve, mas suficiente para fazê-la fechar os olhos. Dois meses de casamento. Gravidez? Era cedo demais ou não? *** Miguel entrou na cozinha ainda sonolento, passando a mão no cabelo. — Bom dia… Helena estava parada diante da cafeteira, imóvel. — Bom dia — ela respondeu, tentando soar normal. Ele aproximou-se por trás e a abraçou. — Você está gelada. Ela forçou um sorriso. — Só acordei cedo demais. Ele beijou o ombro dela. — Está tudo bem? Ela hesitou, mas ali, naquele segundo, ela quase contou. Mas não queria criar alarme sem certeza. — Está. Ele a observou por alguns segundos. Miguel já a conhecia o suficiente para perceber quando algo estava fora do lugar, mas decidiu não pressionar. Sentaram-se à mesa. Helena mexia no café sem beber. — Você não está comendo — ele comentou. — Não estou com muita fome. Ele inclinou a cabeça. — Você nunca recusa pão de manhã. Ela respirou fundo. — Miguel… Ele levantou os olhos imediatamente. — O que foi? Ela sentiu o coração disparar. — Minha menstruação está atrasada. Silêncio. O som do relógio da cozinha ficou mais alto. Ele piscou duas vezes. — Quantos dias? — Cinco. Ele recostou-se na cadeira, não era medo, não era felicidade, erasurpresa crua. — Você acha que…? Ela deu de ombros. — Eu não sei. — Você está se sentindo diferente? Ela assentiu. — Um pouco enjoada. Cansada. Sensível. Miguel ficou em silêncio. Ela percebeu o maxilar dele tensionar levemente. — Fala alguma coisa — ela pediu. Ele passou a mão no rosto. — Eu estou… processando. — Está assustado? Ele a olhou com sinceridade. — Um pouco. Ela engoliu em seco. — Eu também. Silêncio novamente. — Você quer fazer um teste? — ele perguntou. — Quero, mas s tenho medo. Ele segurou a mão dela. — Seja qual for o resultado… é nosso. Ela sentiu os olhos marejarem. ** Helena foi trabalhar, mas não conseguiu se concentrar, cada sensação no corpo parecia amplificada. Ela colocou a mão no ventre discretamente várias vezes. Era possível sentir algo tão cedo ou era só ansiedade? Ela pesquisou no celular escondida na mesa: “Primeiros sintomas de gravidez.” Tudo parecia se encaixar, mas também podia ser psicológico. Às 11h30, Miguel enviou mensagem: > Compramos o teste hoje? Ela respondeu quase imediatamente: > Sim. Alguns segundos depois: > Está tudo bem? Ela demorou para responder. > Não sei ainda. ** Encontraram-se no fim da tarde, em frente a uma farmácia próxima de casa. Helena ficou parada do lado de fora. — Você entra comigo? — ela perguntou. Miguel segurou a mão dela. — Claro. Lá dentro, o mundo parecia absurdamente normal, pessoas comprando analgésicos, shampoo. vitaminas. E eles ali, parados diante da prateleira de testes de gravidez. Miguel pegou dois. — Melhor confirmar. Helena assentiu. Ela sentiu as mãos suarem ao pagar. A farmacêutica sorriu educadamente, sem imaginar o peso que aquele pequeno saco carregava. *** Em casa, o clima estava diferente, silencioso, carregado. Helena segurava a caixa na mão. — Quer que eu fique aqui? — Miguel perguntou. Ela pensou por um segundo. — Quero, mas não dentro do banheiro. Ele assentiu. — Eu espero na sala. Ela entrou no banheiro e fechou a porta. Sentou-se na tampa do vaso por alguns segundos antes de abrir a caixa. As instruções pareciam mais difíceis do que realmente eram. Ela respirou fundo, fez o teste, colocou-o sobre a pia. Três minutos, três minutos que pareciam três anos. Ela encostou na parede, seu coração estava tão acelerado que parecia audível. Do lado de fora, Miguel andava de um lado para o outro. Ele parou diante da porta. — Lena? — Espera… Silêncio. Ela olhou para o teste, um traço apareceu rapidamente. O controle. Ela fechou os olhos. — Por favor… — sussurrou, sem saber exatamente o que estava pedindo. Quando abriu novamente… Havia um segundo traço, fraco mas visível. O mundo ficou silencioso, ela sentiu o ar faltar por um segundo. Não era imaginação, ela pegou o segundo teste e repetiu o processo. Mais três minutos. Miguel estava com a mão apoiada na porta agora. — Helena… A voz dele estava baixa. Quando o segundo resultado apareceu… Claramente, dois traços. Ela levou a mão à boca, as pernas ficaram fracas. Ela abriu a porta devagar, Miguel levantou o olhar. — E então? Ela não conseguiu falar de imediato, apenas estendeu o teste para ele. Ele olhou, demorou dois segundos para entender. Quando entendeu… Os olhos dele mudaram, não era medo, não era pânico, era impacto. — Positivo? Ela assentiu. Silêncio absoluto. — Nós…?_Ela assentiu de novo. Ele passou a mão pelo cabelo, riu de nervoso. Depois ficou sério, depois riu de novo. — Eu… eu vou ser pai? Ela finalmente sorriu, com lágrimas escorrendo. — Parece que sim. Ele deu dois passos até ela, parou. — Você está bem? Ela respirou fundo. — Eu não sei ainda. Ele a abraçou forte. Como se estivesse segurando algo precioso e frágil ao mesmo tempo. — Dois meses de casados… — ele murmurou. — Eu sei. Eles ficaram abraçados por longos segundos. *** Mais tarde, sentados na cama, o clima era diferente, não era euforia, era consciência. — Isso muda tudo — Helena disse. — Muda. — Você está feliz? Ele demorou um pouco. — Estou assustado. Mas… feliz. Ela assentiu. — Eu também. Ele colocou a mão delicadamente sobre o ventre dela. Ainda plano, ainda silencioso, mas agora cheio de significado. — A gente dá conta? — ela perguntou. Ele olhou para ela com firmeza. — A gente aprende. Lembra? Ela sorriu. — Você sempre diz isso. — Porque é verdade. Silêncio confortável. Mas profundo. — Helena… — Hm? — Obrigado por me escolher para isso. Ela sentiu o coração aquecer. — Obrigada por ficar. Ele beijou a testa dela. E naquela noite, enquanto o apartamento permanecia silencioso, algo invisível já começava a crescer. Não apenas dentro dela. Mas entre eles. Uma nova fase. Mais intensa. Mais responsável. Mais real. Dois meses depois da lua de mel… A vida não apenas havia começado. Ela estava se multiplicando.
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