Capítulo 13

1450 Palavras
O som do despertador tocou às 5h30 da manhã, não era o som das ondas, não era o vento suave atravessando o deck do bangalô, mas sim um alarme comum. agudoe real. Helena abriu os olhos devagar, ainda confusa por alguns segundos. O quarto estava escuro. O ar-condicionado do hotel marcava 22 graus. Por um instante, ela não sabia onde estava. Então lembrou, utimo dia nas Maldivas. Hora de ir embora. Ela virou-se para o lado e viu Miguel ainda dormindo, o braço estendido ocupando metade da cama. — Mig… — sussurrou, tocando levemente o ombro dele. — Amor… está na hora. Ele resmungou algo ininteligível. — Cinco minutinhos… Helena riu baixo. — Você disse isso todos os dias aqui. Só que agora é diferente. O avião não espera. Ele abriu um olho. — Não fala de avião… eu ainda estou fingindo que a gente vai ficar mais uma semana. Ela sentiu o mesmo aperto no peito. Ficar, era tudo o que ela queria, mas a vida os chamava. Ela levantou-se primeiro, abriu a cortina e deixou a luz suave do amanhecer entrar. O mar estava calmo, quase como se também estivesse em silêncio, respeitando a despedida. Miguel sentou na cama, passou a mão pelo rosto e ficou olhando Helena em pé, iluminada pela luz dourada. — Você está diferente. Ela virou-se. — Diferente como? — Mais segura… mais serena. Não sei explicar. Ela sorriu. — Talvez seja porque agora eu sou oficialmente sua esposa. Ele levantou-se devagar, aproximou-se dela e segurou seu rosto com as duas mãos. — Você sempre foi minha, mas agora é para sempre. Eles ficaram alguns segundos em silêncio, apenas respirando o mesmo ar. A despedida começou ali. * O traslado até o aeroporto foi silencioso no início, enquanto Helena observava a paisagem passando pela janela, coqueiros, água azul, pequenos barcos. Miguel segurava a mão dela firme, como se quisesse prolongar o que ainda restava. — Você está triste? — ele perguntou. — Um pouco. Não pelo fim… mas pelo que isso significa. — Significa que agora começa a vida de verdade. Ela olhou para ele. — E isso me assusta um pouco. Miguel apertou sua mão. — A mim também. E foi ali, naquela conversa simples no banco de trás de uma van, que ambos entenderam: A lua de mel foi o sonho. Agora viria a construção. No aeroporto, entre malas, passaportes e filas, Helena percebeu algo curioso. Eles estavam diferentes. Não andavam mais como dois indivíduos, andavam como uma unidade. Miguel carregava as malas sem que ela pedisse. Ela conferia os documentos dos dois e eles se olhavam para confirmar decisões. Marido e mulher. ** Já sentados no avião, Helena encostou a cabeça no ombro dele. — Você acha que vamos conseguir manter o que construímos lá? Miguel demorou para responder. — Só se decidirmos todos os dias. — Todos os dias? — Todos. Ela ficou pensando naquilo. Amor não era apenas sentir. Era escolher. Durante o voo, conversaram sobre coisas práticas: — Segunda-feira eu preciso ir ao banco. — Minha mãe vai querer jantar com a gente. — Precisamos organizar a casa. — Você já pensou na nossa rotina? Pequenas coisas, mas eram essas pequenas coisas que definiriam o futuro. Em certo momento, Helena ficou em silêncio, olhando as nuvens pela janela. — O que foi? — Miguel perguntou. — Eu estou pensando… na gente brigando por coisas bobas. Ele riu. — Isso vai acontecer. — Eu sei. — Mas também vamos aprender. Ela respirou fundo. — Promete que nunca vai deixar o orgulho ser maior que a gente? Ele segurou o queixo dela e a fez olhar para ele. — Prometo lutar por nós, mesmo quando eu estiver errado. Ela sorriu, emocionada. * Era fim de tarde quando chegaram, a porta do apartamento parecia diferente. Helena ficou parada alguns segundos antes de entrar. — Pronta? — Miguel perguntou. Ela assentiu. A casa estava como deixaram antes do casamento. Algumas flores secas ainda na mesa. Cartões de felicitações empilhados, mas agora havia algo diferente. Eles. Helena entrou devagar, passando a mão pelo sofá. — Parece menor do que eu lembrava. Miguel riu. — É porque agora temos mais responsabilidades para caber aqui dentro. Eles largaram as malas no meio da sala. Ficaram se olhando. Sem mar, sem golfinhos, sem jantar à luz de velas preparado por terceiros. Só eles. — Então… — Helena disse, cruzando os braços. — Somos oficialmente um casal que mora junto. — Oficialmente e legalmente. Ela riu. Mas logo a realidade começou a bater. Malas para desfazer, roupas para lavar, mensagens acumuladas no telefone, família perguntando se chegaram bem. Miguel abriu a geladeira. — Não temos nada para jantar. Helena colocou as mãos na cintura. — Não acredito que esquecemos disso. Ele sorriu de lado. — Bem-vinda à vida real, senhora esposa. Ela pegou uma almofada e jogou nele. — Não começa. Ele aproximou-se, segurando a cintura dela. — Estou brincando. Vamos pedir comida. Ela suspirou. — Já começamos errando. — Não é erro. É adaptação. Ela ficou em silêncio por um segundo. — Você acha que vamos ser bons nisso? — No quê? — Em casar. Ele a abraçou. — A gente não nasce sabendo. A gente aprende. *** A comida chegou simples, nada sofisticado. Sentaram-se no chão da sala, porque a mesa ainda estava cheia de envelopes. Helena abriu uma caixa. — Engraçado… há dois dias estávamos comendo lagosta numa ilha privada. Miguel mastigou e respondeu: — E agora estamos dividindo batata frita fria. Ela riu. Mas algo mudou no olhar dela. — Sabe o que é mais estranho? — O quê? — Lá parecia fácil amar você. Aqui… parece mais sério. Miguel parou de comer. — Por quê? — Porque aqui tem contas. Rotina. Trabalho. Família opinando. Cansaço. Ele ficou alguns segundos em silêncio. Depois disse: — Amar no paraíso é romântico. Amar na rotina é compromisso. Helena sentiu aquilo atravessar o peito. — E você está pronto para o compromisso? Ele segurou a mão dela. — Estou pronto para aprender com você. ** Mais tarde, começaram a desfazer as malas, Miguel jogava roupas sobre a cama, Helena dobrava com cuidado. — Você pode pelo menos separar as roupas sujas? — ela disse, levemente irritada. — Eu ia fazer isso. — Quando? — Depois. Ela parou. — Você sempre deixa para depois. Ele respirou fundo. — Helena… — Não, é sério. Se começarmos assim, vai virar hábito. Ele fechou os olhos por um segundo. Pequena coisa. Mas já era o início da convivência real. — Você tem razão — ele disse, mais calmo. — Eu posso melhorar nisso. Ela suavizou o olhar. — Eu não quero parecer chata. — Você não é. — Só quero que funcione. Ele aproximou-se. — Vai funcionar. Mas vamos errar também. ** O apartamento estava silencioso, sem som de ondas, em vento tropical. Helena deitou-se na cama e ficou olhando o teto. — Está estranho. — O quê? — Miguel perguntou. — O silêncio. Ele puxou-a para perto. — Vamos criar nossos próprios sons. Ela riu. — Isso soou estranho. — Você entendeu. Eles ficaram conversando no escuro. Sobre medos, sobre expectativas. Sobre filhos — um dia. Sobre viagens futuras, sobre como queriam proteger o que construíram. — Você acha que a gente vai mudar? — Helena perguntou. — Com certeza. — E se mudarmos demais? — Então vamos nos reapresentar um ao outro quantas vezes for preciso. Ela sorriu no escuro. — Eu gosto de você, Miguel. — Eu amo você, Helena. — Eu sei. Mas hoje eu gosto de você. Como pessoa. Como parceiro. Ele beijou a testa dela. — Eu gosto de você também. Mesmo quando você implica com minhas roupas jogadas. Ela deu um leve t**a no peito dele. — Não começa. Silêncio novamente. Mas agora confortável. Ela fechou os olhos. E pela primeira vez desde que chegaram, sentiu paz. Não era a paz do paraíso. Era a paz de quem escolheu ficar. ** Já quase adormecendo, Helena sussurrou: — Obrigada. — Pelo quê? — Por não romantizar demais… nem dramatizar demais. Ele sorriu. — A vida real é bonita também. Ela apertou a mão dele. — Então vamos fazer ela valer a pena. — Todos os dias. E ali, no escuro de um quarto comum, sem luxo, sem cenário cinematográfico, começou oficialmente a fase mais importante da história deles. A fase onde o amor não seria sustentado por paisagens… Mas por decisões. O último dia da lua de mel terminou. E o primeiro dia da vida real começou. E, pela primeira vez, Helena não sentiu medo. Sentiu responsabilidade. E escolha. E compromisso. E isso… era ainda mais forte que qualquer pôr do sol nas Maldivas.
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