Dois meses e meio, era o tempo suficiente para a novidade deixar de ser surpresa e começar a virar realidade.
E o corpo de Helena parecia ter decidido que também queria participar intensamente desse processo.
Ela acordou antes do sol nascer.
Não por ansiedade.
Por náusea.
Um enjoo forte, diferente dos anteriores. Não aquela leve sensação matinal que passava com água e bolacha. Era profundo. Revolto. Insistente.
Ela correu para o banheiro.
Miguel despertou com o som.
— Helena?
A resposta veio abafada.
Ele levantou-se imediatamente.
Encontrou-a ajoelhada diante do vaso sanitário, o cabelo preso às pressas, o rosto pálido.
— Amor…
Ele segurou o cabelo dela com cuidado.
Helena tremia levemente.
Quando terminou, encostou a testa na borda fria e respirou fundo.
— Isso não estava no roteiro romântico da maternidade — murmurou, fraca.
Miguel tentou sorrir, mas havia preocupação genuína nos olhos dele.
— Está doendo?
— Não… só é… avassalador.
Ele ajudou-a a levantar.
Helena olhou-se no espelho.
Olheiras suaves. Pele mais sensível. Um cansaço diferente.
— Eu não me reconheço — ela confessou.
Miguel ficou atrás dela e a envolveu pela cintura.
— Eu reconheço.
Ela fechou os olhos.
— Eu me sinto frágil.
— Você está criando uma pessoa.
— Eu sei. Mas parece que perdi controle sobre o meu próprio corpo.
E ali estava algo que ela não tinha verbalizado antes.
O medo de deixar de ser ela.
***
Miguel insistiu que ela ficasse em casa naquele dia.
Preparou chá de gengibre, torradas, frutas cortadas em pedaços pequenos.
Helena tentou comer.
Mal conseguiu.
Sentou-se no sofá, coberta por um cobertor leve, olhando para o nada.
— Eu queria ser daquelas mulheres que brilham na gravidez — disse de repente.
— Você está linda.
Ela lançou-lhe um olhar cético.
— Eu vomitei três vezes antes das oito da manhã.
Ele sentou-se ao lado dela.
— Você está fazendo algo extraordinário. O brilho pode vir depois.
Ela respirou fundo.
Mas as lágrimas vieram sem aviso.
— Eu tenho medo, Miguel.
Ele ficou atento.
— Do quê?
— De não dar conta. De mudar demais. De você me olhar diferente.
Silêncio.
Ele segurou o rosto dela com delicadeza.
— Eu já olho diferente.
O coração dela apertou.
— Diferente como?
— Com mais cuidado. Com mais respeito. Com mais admiração.
Ela piscou, tentando conter o choro.
— Eu ainda sou sua mulher?
Ele sorriu, quase ofendido.
— Você é minha mulher. E agora é a mãe do meu filho.
A frase pairou entre eles.
Mãe.
Helena tocou o ventre ainda discreto.
— Eu ainda não me sinto mãe.
— Nem eu me sinto pai.
Eles trocaram um olhar sincero.
Era isso.
Não era falta de amor.
Era transição.
***
O enjoo melhorou um pouco depois do almoço leve.
Helena estava deitada no quarto, com a janela entreaberta.
Miguel entrou devagar.
Sentou-se ao lado dela na cama.
— Posso perguntar uma coisa?
— Pode.
— Você está arrependida?
Ela abriu os olhos imediatamente.
— O quê? Não.
— Nem um pouco?
Ela demorou alguns segundos.
— Eu estou assustada. Não arrependida.
Ele assentiu.
— Eu também.
Ela virou-se para ele.
— Você?
— Eu fico pensando… será que vou saber ser pai? Será que vou errar demais?
Helena estendeu a mão e tocou o rosto dele.
— Você já se preocupa. Isso é um começo.
Ele respirou fundo.
— Eu tinha planos… viagens, metas profissionais… uma certa liberdade.
— E agora?
— Agora eu tenho outra prioridade.
Ela observou-o atentamente.
— Você sente que perdeu algo?
Ele pensou.
— Eu sinto que estou trocando algo.
— Por?
Ele olhou para a barriga dela.
— Por algo que ainda nem conheço… mas que já pesa nas minhas decisões.
Ela sentiu um nó na garganta.
**
Mais tarde, já noite, Helena estava melhor.
Não completamente.
Mas mais estável.
Miguel apagou as luzes, deixando apenas o abajur aceso.
Ela estava deitada de lado.
Ele aproximou-se devagar, deitou atrás dela e envolveu-a.
Silêncio confortável.
Ele colocou a mão sobre o ventre dela.
— Ainda é pequeno — ele murmurou.
— Eu sei.
— Mas já mudou tudo.
Ela entrelaçou os dedos nos dele.
— Você acha que a gente vai mudar muito?
— Acho que já estamos mudando.
Ela virou-se de frente para ele.
Olhos nos olhos.
Sem pressa.
Sem tensão.
— Eu não quero deixar de ser sua prioridade — ela confessou, quase num sussurro.
Miguel aproximou a testa da dela.
— Você não vai.
— Mas vai ter alguém que depende de nós vinte e quatro horas.
— E isso não significa que a gente deixa de existir.
Ela respirou fundo.
— Promete?
Ele segurou o rosto dela com firmeza suave.
— Eu prometo que não vou deixar a gente desaparecer no meio da responsabilidade.
Ela passou a mão pelo peito dele.
— Eu tenho medo de me perder.
— Então a gente se encontra de novo. Quantas vezes for preciso.
O silêncio que veio depois não era pesado.
Era íntimo.
Helena aproximou-se mais.
Beijaram-se devagar.
Sem urgência.
Sem desejo impulsivo.
Era diferente.
Mais profundo.
Mais consciente.
Miguel apoiou a mão na cintura dela, com cuidado.
Como se ela fosse algo precioso e delicado.
— Você está confortável? — ele perguntou, atento.
Ela sorriu levemente.
— Estou.
Havia uma nova delicadeza entre eles.
Um cuidado que antes não era necessário.
E, curiosamente, isso não afastava.
Aproximava.
Eles permaneceram abraçados por muito tempo depois.
Helena sentiu o corpo relaxar contra o dele.
— Eu acho que estou começando a entender — ela murmurou.
— O quê?
— Que não é sobre deixar de ser quem eu era. É sobre expandir.
Ele sorriu no escuro.
— Exatamente.
Ela fechou os olhos.
— Você vai ser um bom pai.
Ele apertou-a levemente.
— E você vai ser uma mãe incrível.
— Mesmo vomitando três vezes antes das oito?
Ele riu baixinho.
— Principalmente por isso.
Ela riu também.
E pela primeira vez naquele dia, o medo não parecia dominante.
Ainda estava ali.
Mas já não comandava.
***
Já quase adormecendo, Helena falou:
— Você percebe que agora tudo o que fazemos influencia alguém?
— Sim.
— Isso é assustador.
— E bonito.
Ela suspirou.
— Eu nunca pensei que dois meses depois da lua de mel estaríamos assim.
— Eu também não.
— Você mudaria alguma coisa?
Ele pensou por um momento.
— Não.
Ela sorriu no escuro.
— Nem eu.
Miguel beijou a testa dela.
— Descansa.
Helena colocou a mão sobre o ventre.
Pela primeira vez, não sentiu apenas náusea.
Sentiu propósito, corpo estava cansado.
O coração estava aprendendo. E entre o medo e o amor, eles estavam encontrando uma nova identidade.
Não perfeita, não pronta, mas real e de algum modo, isso era suficiente.