Capítulo 17

1107 Palavras
Três meses e meio. A barriga de Helena ainda era discreta, mas já não passava despercebida para quem a conhecia bem. Os enjoos haviam diminuído um pouco. Não desapareceram completamente, mas agora eram administráveis. O que aumentara era o cansaço. Helena estava sentada à mesa da cozinha numa manhã de segunda-feira, olhando para a agenda aberta. Reunião às 9h. Entrega de relatório às 11h, consulta de rotina na quinta, supermercado, lavar roupa, organizar armários. Ela apoiou a testa na mão. Miguel entrou já arrumado para o trabalho. — Você ainda não saiu do lugar. Ela suspirou. — Eu estou tentando organizar o dia. Ele aproximou-se e olhou a agenda. — Isso tudo é para hoje? — Não. Mas parece que é. Ele percebeu o tom. — Está pesado? Ela riu fraco. — Eu sempre dei conta da casa. Sempre dei conta do trabalho. Sempre dei conta de mim. Agora parece que tudo exige o dobro de energia. Miguel ajoelhou-se ao lado dela. — Você não precisa dar conta de tudo sozinha. Ela olhou para ele. E ali estava o ponto sensível. Helena sempre foi organizada. Independente. Orgulhosa da própria capacidade. — Eu não quero virar aquela pessoa que depende — disse, quase defensiva. Ele segurou as mãos dela. — Você não está dependendo. Está gestando. Ela desviou o olhar. — É diferente. — Não é fraqueza pedir ajuda. Ela ficou em silêncio, mas aquela conversa não terminaria ali. *** No sábado, decidiram ir ao centro comercial. Ainda parecia cedo. Mas Helena queria “ver coisas”. Só ver. Eles entraram numa loja de artigos para bebés. O cheiro de roupa nova, algodão macio e talco suave parecia envolver o ambiente. Helena parou na entrada. — Parece outro mundo. Miguel sorriu. Carrinhos alinhados. Berços montados. Pequenos conjuntos de roupas pendurados em cabides minúsculos. Ela caminhou devagar até uma arara de bodies brancos. Tocou o tecido. — Isso é tão pequeno. Miguel pegou um e segurou contra a própria mão. — Cabe na palma. Helena sentiu os olhos marejarem. — Você acha que ainda é cedo? Ele observou-a. — Você quer comprar? Ela hesitou. — Só uma coisa. Escolheram juntos um conjunto neutro. Branco com pequenos detalhes em bege. Nada extravagante. Mas simbólico. Quando a atendente colocou o pacote na sacola, Helena segurou-o como se fosse algo frágil demais para o mundo. No carro, ela abriu a sacola novamente. — Nós realmente estamos fazendo isso. Miguel sorriu. — Estamos. Mas, enquanto ela sorria, a mente dela já calculava. Fraldas. Berço. Consultas. Roupa. Creche no futuro. Responsabilidade tinha preço. E ela sabia. *** Nas semanas seguintes, o cansaço acumulou-se. Helena chegava do trabalho e ainda encontrava tarefas domésticas esperando. Louça. Roupa. Organização. Miguel ajudava — sempre ajudou. Mas ambos trabalhavam fora. E agora havia mais consultas médicas, exames, pesquisas. Numa quarta-feira à noite, Helena estava na cozinha lavando pratos. O relógio marcava 21h30. Miguel entrou e ficou observando por alguns segundos. — Por que você não me chamou? — Porque você também está cansado. — Isso não responde. Ela desligou a torneira. — Eu sinto que a casa precisa continuar funcionando. Ele encostou-se à bancada. — E você? Ela demorou. — Eu sinto que estou funcionando no automático. Silêncio. Ele aproximou-se e pegou a esponja da mão dela. — Vai sentar. — Miguel— — Vai. Ela não discutiu. Sentou-se na cadeira. E pela primeira vez, sentiu o peso real do que estava tentando manter sozinha. *** Mais tarde, já no quarto, Miguel falou: — Eu estava pensando numa coisa. Helena já sabia que era sério pelo tom. — Fala. — Talvez a gente devesse contratar alguém para ajudar na casa. Ela ficou imóvel. Era ali que o orgulho dela era testado. — Uma empregada? — Uma ajuda. Algumas vezes por semana. Helena cruzou os braços. — Você acha que eu não estou dando conta? Ele respirou fundo. — Eu acho que você está se esforçando além do necessário. — Eu sempre fiz isso. — Mas agora você está grávida. Ela desviou o olhar. — Eu não quero perder o controle da minha própria casa. — Não é perder controle. É dividir responsabilidade. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — As pessoas vão achar que eu fiquei acomodada. Miguel aproximou-se. — Quem são essas pessoas? Ela não respondeu. Porque no fundo sabia que era apenas uma cobrança interna. Ele segurou o rosto dela. — Você não precisa provar nada para ninguém. Os olhos dela encheram-se de lágrimas contidas. — Eu só não quero deixar de ser capaz. Ele beijou a testa dela. — Pedir ajuda também é capacidade. *** Uma semana depois, Helena estava exausta novamente. Dores leves nas costas. Inchaço no final do dia. Ela sentou-se na cama e olhou para Miguel. — Vamos procurar alguém. Ele não demonstrou alívio exagerado. Apenas segurou a mão dela. — Vamos fazer isso juntos. Encontraram uma senhora indicada por uma vizinha. Calma. Experiente. Discreta. Quando ela veio pela primeira vez, Helena sentiu um aperto estranho no peito ao ver outra pessoa mexendo nos armários da cozinha. Mas também sentiu algo inesperado. Alívio. Naquela tarde, Helena conseguiu deitar-se por uma hora sem culpa. Quando acordou, a casa estava organizada. E Miguel estava sentado ao lado dela, trabalhando no portátil. — Como você se sente? — ele perguntou. Ela pensou. — Menos sobrecarregada. Ele sorriu. — Era esse o objetivo. *** Naquela noite, já mais tranquila, Helena estava encostada no peito de Miguel. — Eu demorei para aceitar isso — ela confessou. — Eu sei. — Eu sempre achei que precisava dar conta de tudo para ser… suficiente. Ele acariciou os cabelos dela. — Você nunca precisou fazer tudo para ser suficiente. Ela colocou a mão sobre o ventre. — Eu quero ser uma mãe presente. Não uma mãe exausta. — Então você já está tomando a decisão certa. Ela suspirou. — A gente está crescendo, não está? — Muito. Ela levantou a cabeça e olhou para ele. — Eu gosto da gente assim. — Assim como? — Aprendendo a ajustar. Ele sorriu. — Isso é casamento. Ela riu levemente. — E agora é parentalidade também. Miguel colocou a mão sobre a barriga dela. — Nosso bebé já está ensinando antes mesmo de nascer. Helena fechou os olhos. A casa estava silenciosa, organizada. Mas, mais do que isso, equilibrada. Pela primeira vez desde o início da gravidez, Helena não sentia que estava tentando manter tudo intacto. Estava construindo espaço. Espaço para ajuda, espaço para mudança, espaço para crescer sem se perder. E enquanto adormecia nos braços de Miguel, percebeu algo importante: Ser forte não era fazer tudo sozinha, era saber quando dividir.
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