Capítulo 1:
Saudades de Você
A chuva caía como um manto suave sobre a paisagem vasta da Quinta do Barny. As videiras, enfileiradas em perfeita harmonia, pareciam absorver cada gota, alimentando-se da generosidade da natureza. Miguel Barny, de 58 anos, almirante da Marinha aposentado e agora CEO da imponente propriedade vinícola, observava a cena através da janela de seu escritório. Era um ritual. A cada ano, no mesmo dia, na mesma hora, ele ficava ali, sozinho, encarando a chuva e o vazio que o tempo não conseguia preencher.
As lágrimas rolavam pelo seu rosto, silenciosas, quase imperceptíveis. Ele não as enxugava. Era como se deixar que elas caíssem fosse a única maneira de homenagear a memória de Carolina, sua esposa, que havia partido há exatos vinte anos. Uma dor que, embora não mais gritante, nunca havia realmente deixado seu coração.
Ele se lembrou do sorriso dela, de como ela dançava descalça sob a chuva na varanda da antiga casa que dividiam quando ainda eram jovens e cheios de sonhos. Miguel tocou o vidro da janela como se, ao fazer isso, pudesse sentir o toque dela novamente.
Mas a Quinta do Barny não era apenas sua fortaleza; era também sua prisão. Ele se refugiara ali após a morte de Carolina, dedicando-se à produção de vinhos e ao legado de sua família, mas também fugindo de um mundo que parecia cru3l demais para enfrentar.
Seu telefone vibrou no bolso. Era Sofia, sua assistente. Ele ignorou. No momento, qualquer interrupção parecia um sacrilégio. Mas então, algo quebrou o silêncio da sala: o som de passos no chão de madeira do corredor.
— Miguel? — chamou uma voz suave, familiar.
Ele se virou lentamente, surpreso. Lá estava Amélia Duarte, 47 anos, uma mulher de presença magnética e um brilho nos olhos que parecia trazer a primavera a qualquer ambiente. Ela era uma sommelière renomada que havia trabalhado em Paris nos últimos anos e tinha sido convidada por Miguel para ajudá-lo na nova linha de vinhos que ele queria lançar. Mas Amélia era muito mais do que uma consultora para ele. Ela era alguém que um dia havia sido capaz de tocar sua alma da mesma maneira que Carolina, embora ele nunca tivesse permitido que isso fosse longe demais.
— Pensei que pudesse precisar de companhia hoje — disse Amélia, com um sorriso gentil, segurando uma garrafa de vinho da safra especial que Miguel guardava apenas para ocasiões importantes.
Miguel hesitou, mas depois assentiu, gesticulando para que ela entrasse.
— Não sabia que você lembrava desta data — disse ele, com a voz rouca.
— Como esquecer? Você menciona Carolina toda vez que fala do que é importante na sua vida.
Amélia colocou a garrafa na mesa e começou a abrir, enquanto Miguel observava seus movimentos com atenção. Ela tinha uma delicadeza em tudo o que fazia, mas também uma determinação silenciosa que ele admirava.
— Vinte anos é muito tempo, Miguel. Você não acha que está na hora de se permitir viver novamente? — perguntou ela, servindo o vinho.
Ele desviou o olhar, encarando novamente a chuva pela janela.
— Talvez, mas como? Carolina era meu mundo.
Amélia suspirou, aproximando-se dele com a taça de vinho.
— Eu sei. Mas o mundo ainda está aqui, esperando por você.
Miguel pegou a taça, mas não bebeu. Em vez disso, olhou para Amélia. Havia algo em seus olhos, um misto de tristeza e esperança que parecia ecoar dentro dele.
— Talvez você tenha razão. Mas não sei por onde começar.
Ela sorriu, inclinando-se levemente para ele.
— Comece por aqui. Comece comigo.
Por um momento, o tempo pareceu parar. Miguel olhou para Amélia e sentiu algo que não sentia há anos: um pequeno lampejo de esperança. Talvez, só talvez, ele pudesse encontrar o caminho de volta à vida.
Miguel olhou para a taça de vinho na mão e suspirou. Não era o suficiente. Ele precisava de algo mais para preencher o vazio que sentia naquele momento.Mas para ele, não seria Amélia a ajudá-lo a tirar esse vazio.
— Me desculpe. Não posso.
—Tudo bem, me chame se mudar de ideia.
Com passos lentos, foi até a adega que ficava ao lado da sala. Cada garrafa ali guardava uma memória, uma história, mas ele sabia exatamente qual escolher.
Seus dedos passaram por várias garrafas até encontrar uma especial: um vinho tinto robusto da safra de 1999, o mesmo ano em que ele e Carolina se casaram. Ele a trouxe com cuidado, quase reverentemente, como se estivesse segurando algo sagrado.
De volta à sala, Miguel abriu a garrafa, o som da rolha se soltando ecoando pelo ambiente silencioso. Ele serviu uma taça generosa, mas, antes de levar o vinho à boca, caminhou até o antigo rádio na estante. Ligou-o e começou a girar o dial até encontrar a estação certa. As primeiras notas de "É o Amor", de Zezé Di Camargo e Luciano, encheram o ambiente, trazendo uma onda de nostalgia avassaladora.
Miguel voltou para a poltrona junto à janela, segurando a taça de vinho enquanto deixava a música e as memórias o envolverem. Cada verso parecia feito para ele, para o que sentia naquele instante. Ele tomou um gole longo e profundo, deixando o vinho aquecer seu peito enquanto a melodia sertaneja fazia o resto.
Depois de um tempo, como se guiado por uma força invisível, Miguel se levantou e foi até a grande estante de madeira no canto da sala. No meio dos livros e objetos antigos, havia uma caixa de madeira com detalhes entalhados, que ele não abria há anos. Ele hesitou, os dedos pairando sobre a tampa, mas então, com um suspiro profundo, decidiu abrir.
Dentro da caixa estava um álbum de couro envelhecido, com as palavras "Miguel e Carolina" gravadas em dourado na capa. Ele sentou-se de volta na poltrona, com o álbum em mãos, e abriu na primeira página. Lá estava uma foto dos dois no dia do casamento. Carolina sorria radiante em seu vestido de noiva, enquanto Miguel, de uniforme branco da Marinha, parecia o homem mais feliz do mundo.
As lágrimas que ele havia segurado por tanto tempo começaram a cair sem resistência. Ele passava as páginas lentamente, cada uma trazendo uma lembrança viva: o corte do bolo, a primeira dança, o beijo no altar. A cada imagem, sentia-se mais próximo dela, mas também mais consciente de sua ausência.
A música continuava tocando no fundo, e Miguel, sem perceber, começou a sussurrar os versos junto com Zezé e Luciano. Era um lamento, um pedido, um adeus que ele nunca conseguira dizer.
Quando chegou à última página do álbum, onde havia uma foto deles dançando sob as estrelas na festa, ele fechou os olhos e encostou a cabeça na poltrona. O vinho, a música e as memórias formavam um misto de dor e conforto. Carolina estava ali, em cada detalhe, em cada pedaço da vida que ele construiu, e, de alguma forma, Miguel sabia que ela sempre estaria.
Naquele momento, com o álbum ainda em seu colo e a garrafa de vinho pela metade na mesa ao lado, ele sussurrou para si mesmo:
— Eu ainda sinto sua falta, minha Carolina...
E deixou que as lágrimas dissessem o resto.