Capítulo 2:
Entre Promessas e Dúvidas
Laura Paixão, aos 28 anos, estava no auge de sua carreira. Veterinária dedicada e apaixonada por animais, sua rotina era marcada por visitas a fazendas, cuidados com pequenos animais em sua clínica e a constante busca por aprender mais sobre as espécies que amava. Ela havia construído uma vida que muitos consideravam perfeita, mas, no fundo, algo parecia faltar.
Naquela manhã, Laura estava na clínica, terminando de atender um cãozinho que havia machucado a pata. Enquanto dava os últimos retoques no curativo, o som familiar do celular vibrando em sua mesa chamou sua atenção. Era uma mensagem de Gabriel Prado, seu noivo de 31 anos, engenheiro agrônomo e alguém que compartilhava com ela o amor pela vida no campo.
"Bom dia, amor. Pensei em passarmos o fim de semana na fazenda do meu pai. O que acha? Seria bom para relaxarmos um pouco."
Laura sorriu ao ler a mensagem. Gabriel sempre tinha o cuidado de tentar equilibrar o ritmo intenso de suas vidas. Eles estavam juntos há cinco anos e tinham uma conexão forte, mas ultimamente Laura vinha se questionando sobre o futuro. O casamento estava marcado para daqui a seis meses, e, embora ela amasse Gabriel, algumas dúvidas começavam a surgir.
— Doutora Laura? — chamou Camila, a recepcionista, interrompendo seus pensamentos. — O próximo cliente já está na sala de espera.
Laura colocou o celular de lado, respondendo rapidamente à mensagem de Gabriel:
"Parece uma ótima ideia. Vamos sim!"
Mais tarde, ao chegar em casa, Laura encontrou Gabriel esperando por ela. Ele estava na cozinha, preparando o jantar, algo que fazia com frequência quando sabia que ela teria um dia cheio. Gabriel era o tipo de homem que demonstrava seu amor em gestos simples, e isso era algo que Laura sempre admirou.
— Chegou na hora certa — disse ele, sorrindo enquanto colocava os pratos na mesa. — Fiz aquela comidinha simples e leve que você gosta.
Laura se aproximou e deu um beijo rápido nele.
— Você é um anjo, sabia? Meu dia foi uma loucura. — O que você fez dessa vez?
— Arroz integral, salada verde, picadinho de legumes e uma carne de panela, hummmm! Desmanchando na boca! Respondeu Gabriel animado.
—Uau! Caprichou em! Falou Laura sentando se à mesa.
Os dois se sentaram à mesa, e Gabriel começou a falar sobre a ideia de melhorar o trabalho de Laura na clínica.
— Estive pensando… você já considerou expandir a clínica? Talvez contratar mais veterinários ou abrir uma segunda unidade?
Laura balançou a cabeça.
— Já pensei nisso, mas não agora. Quero ter certeza de que consigo equilibrar as coisas antes de assumir mais responsabilidades.
Gabriel assentiu, respeitoso como sempre.
— Tudo bem, amor. Só quero que saiba que estou aqui para te ajudar no que precisar.
Ela sorriu, mas, por dentro, sentia algo que não sabia explicar. Gabriel era perfeito no papel de noivo, mas havia algo sobre o futuro que a deixava inquieta.
No dia seguinte, enquanto Laura trabalhava, ela recebeu uma ligação inesperada de um amigo antigo. Era Rafael Almeida, com quem havia estudado na faculdade de veterinária e que agora trabalhava em uma ONG de proteção animal na Amazônia. Ele tinha uma proposta interessante:
— Laura, estamos precisando de alguém com sua experiência aqui. É uma oportunidade única. Sei que você está estabelecida aí, mas pense na possibilidade de passar uns meses conosco. Seria uma experiência incrível.
Laura ficou em silêncio por alguns segundos, processando a ideia.
— Rafael, eu… não sei. Estou noiva e com a clínica, seria complicado.
— Eu entendo, mas pense com carinho. Não é uma proposta qualquer. Estou te enviando um e-mail com todos os detalhes.
Ao desligar, Laura ficou pensativa. A proposta de Rafael despertava nela um desejo de aventura, algo que parecia tão distante da vida que havia construído ao lado de Gabriel.
Naquela noite, ao contar sobre a ligação para Gabriel, ele não escondeu sua preocupação.
— Laura, isso é incrível, mas… você realmente consideraria deixar tudo o que construímos aqui?
Ela suspirou, sentindo o peso da decisão.
— Não sei, Gabriel. Só estou curiosa. Não quer dizer que eu vá aceitar.
Gabriel segurou suas mãos, olhando-a nos olhos.
— Eu só quero que você esteja feliz, Laura. Mas precisamos pensar juntos sobre o que isso significa para nós.
E assim, enquanto a noite avançava, Laura percebeu que estava em uma encruzilhada. Entre o amor seguro que compartilhava com Gabriel e a possibilidade de uma aventura que poderia mudar sua vida, ela teria que escolher qual caminho seguir.
Laura estava deitada no sofá, com a cabeça cheia de pensamentos sobre a proposta de Rafael e a reação de Gabriel. Sentia que precisava conversar com alguém que pudesse ouvir sem julgar, alguém que conhecesse seus dilemas mais profundos. Pegou o celular e abriu o Wh4ts4pp, clicando no nome de sua melhor amiga, Betânia, que morava em Portugal.
Após alguns toques, Betânia atendeu a chamada de vídeo com um sorriso caloroso.
— Laurinha! Quanto tempo, amiga! Como você está?
Laura tentou sorrir, mas não conseguiu esconder a expressão confusa.
— Betânia, eu precisava falar com você. Estou um pouco perdida e não sei o que fazer.
Betânia arregalou os olhos, ajustando o celular em sua mesa.
— Fala, amiga. O que está acontecendo? Você e Gabriel brigaram?
Laura balançou a cabeça.
— Não, não é isso. O Gabriel é incrível, você sabe disso. Mas… eu recebi uma proposta. Uma ONG na Amazônia me chamou para trabalhar com eles por alguns meses, e isso despertou algo em mim.
Betânia franziu a testa, curiosa.
— Algo como o quê?
Laura suspirou, passando a mão pelo cabelo.
— Betânia, estou noiva há cinco anos. A minha vida é boa, tenho a clínica, o Gabriel… mas, por melhor que tudo pareça, eu sinto que falta alguma coisa. É como se eu estivesse vivendo no automático, sabe? Como se estivesse presa em uma rotina que não me desafia mais.
Betânia ficou em silêncio por alguns segundos, analisando o que a amiga havia dito. Então, com sua sinceridade característica, respondeu:
— Laurinha, você precisa seguir o seu coração. Eu sei que essa frase parece clichê, mas é a verdade. Se você sente que falta algo, talvez seja porque está ignorando o que realmente quer. Gabriel é um cara incrível, mas isso não significa que você não possa buscar mais da vida.
Laura ficou em silêncio, mordendo o lábio enquanto assimilava as palavras da amiga.
— Eu só fico pensando… e se eu estiver sendo ingrata? E se isso for só uma fase? Eu amo o Gabriel, mas não consigo ignorar essa sensação de que estou incompleta.
Betânia sorriu levemente, com o tom de voz mais suave.
— Laura, às vezes precisamos sair da nossa zona de conforto para descobrir o que realmente queremos. Escuta, que tal fazer uma pausa? Vem passar umas férias comigo aqui em Portugal. Está chegando a Festa da Uva, e você vai amar! É uma oportunidade de descansar a mente, se inspirar, e depois, com calma, você decide o que fazer.
Laura arregalou os olhos, surpresa com o convite.
— Betânia, você está falando sério?
— Claro que sim! Faz anos que estamos tentando marcar de você vir pra cá. E agora parece o momento perfeito. Você precisa de um tempo para respirar e se reconectar com você mesma.
Laura ficou pensativa. A ideia de passar um tempo em Portugal, longe de sua rotina, parecia exatamente o que precisava.
— Você tem razão, Betânia. Talvez umas férias sejam o que eu preciso para clarear a mente. Vou conversar com o Gabriel e ver como organizar isso.
Betânia bateu palmas, animada.
— Isso mesmo! Vai ser incrível. E, quem sabe, a Festa da Uva não te dá um empurrãozinho para descobrir o que falta na sua vida?
Laura riu pela primeira vez naquela conversa, sentindo um peso sair de seus ombros.
— Obrigada, Betânia. Você sempre sabe o que dizer.
— Pra isso servem as amigas, né? Agora vem logo pra cá!
Após se despedirem, Laura ficou olhando para o celular, já pensando em como organizar a viagem. Talvez Betânia estivesse certa. Talvez tudo o que precisasse fosse uma pausa para redescobrir a si mesma e encontrar o próximo passo no caminho que tanto desejava trilhar.