Morte narrando
Passei a manhã na correria da boca. Resolvi umas pendência, troquei ideia com uns vapor novo, botei pressão em dois que tavam vacilando e fechei com o parceiro que ia subir com as peça amanhã. O rádio tava chiando direto, movimentação vindo da parte baixa, mas nada demais. Coisa rotineira.
Lá pelas onze e pouca, dei aquele tapa no beck com o Ratinho. Só pra dar aquela acalmada na mente, tá ligado? O bagulho me deixou com o olho meio vermelho, cabeça leve. A fome bateu como um soco no estômago.
Morte: Desce comigo lá no restaurante da Verinha. Bora ver qual é da comida hoje.
Ratinho: Demorô, chefia. Tô com a larica monstra.
Descemos, Ratinho rindo à toa, brisando no caminho, ele falando besteira como sempre. O sol tava forte, a quebrada viva. Criançada jogando bola, rádio tocando funk de uma laje, cheirinho de alho fritando já batendo na esquina. Quando virei pra frente do restaurante, dei de cara com ela.
A loirinha da padaria. Só que dessa vez, de avental, cabelo preso, caderninho de pedidos na mão. Quando me viu, pareceu que travou por um segundo, mas disfarçou bem. Sorriu, aquele sorriso educado, leve. Linda demais.
Ariana: Boa tarde. Podem sentar onde quiserem, eu já atendo vocês.
Fui pro canto, mesa de dois, parede do lado. Sentei de frente pra entrada, visão geral. Ela veio até a mesa, caderno na mão, postura firme, mas o olhar era sereno. Me chamou atenção como ela era natural, simples, mas ainda assim chamava o olhar sem esforço.
Ariana: Boa tarde. Já sabem o que vão querer ou querem olhar o cardápio primeiro?
Morte: Pode trazer o do dia. Prato feito mesmo.
Ratinho: Eu também. Qual é o de hoje, moça?
Ariana: Hoje tem arroz, feijão, salada, purê de batata e carne assada ou frango grelhado. Bebida?
Morte: Carne. Suco de limão.
Ratinho: Frango e uma coca, por favor.
Ariana: Tudo bem. Já volto.
Ela anotou tudo direitinho, com letra bonitinha, e saiu andando com leveza. Eu fiquei ali, largado na cadeira, acompanhando cada passo dela com o olhar. O jeito que ela ajeitava o cabelo atrás da orelha, como mexia no avental, a forma que falava com os outros clientes. Tudo nela era tranquilo.
Não sei se é porque eu tô chapado ou se é coisa da minha cabeça, mas essa mina tem uma paz diferente. Parece que não combina com esse lugar.
Fiquei só observando. Ela ia e voltava, atendia, trazia copo, limpava mesa. Nada nela gritava por atenção, e mesmo assim eu não conseguia tirar os olhos. Quando ela voltou com os pratos, colocou tudo com cuidado, falou baixo, agradeceu e desejou bom apetite.
Ariana: Se precisarem de algo, é só chamar.
Assenti com a cabeça. Ela saiu. Ratinho já tava mergulhado no prato, comendo igual quem tava dois dias sem ver comida.
Ratinho: A comida é boa mesmo, chefe. E essa Ariana aí, cê viu, né?
Morte: Tô vendo.
Não falei mais nada. Só continuei encarando o prato, mas com a mente longe. Não sei explicar. Não era vontade de pegar. Era curiosidade. Aquela mina, tinha alguma coisa nela que mexeu comigo.
Posso tá enganado, mas ela parece tranquila. E nesse meu mundo cheio de guerra, ver alguém assim, dá uma pausa na loucura.
A tarde foi frenética na boca. Movimento intenso, rádio chiando sem parar, dois vapor tretando por ponto, uma encomenda que atrasou e eu já tava por explodir. Resolvi tudo como sempre: na voz firme e, se precisar, no tapa. Aqui ninguém faz o que quer. O morro tem dono, e o dono sou eu.
Quando o sol começou a cair, dei uma volta pela quebrada pra esfriar a cabeça. Passar ali, bater de frente com os cria, ver quem tava na contenção, quem tava no corre, faz parte. Às vezes minha presença é mais firme que qualquer ameaça. Só de me ver na rua, os vacilão já se alinham.
Na descida, o caminho me levou pra frente da casa da Verinha. Não foi de propósito, mas também não foi por acaso. A curiosidade tava me cutucando desde o almoço. Queria ver a tal da Ariana de novo, nem que fosse de relance. Mas a rua tava calma, só a porta entreaberta e o barulho de panela vindo lá de dentro. Da loirinha, nem sinal.
Fiquei encostado no poste, fingindo olhar o celular. Ratinho veio do lado e puxou assunto, como sempre.
Ratinho: Chefe, tu viu a Ariana hoje, né? Mina é diferenciada mesmo. Tô pensando em chegar nas ideia nela, ver qual é.
Parei de mexer no celular e olhei direto nos olhos dele. Sério, sem meio sorriso, sem rodeio.
Morte: Tu tá pensando errado, Ratinho. Esquece isso. Aquela ali não é pra gracinha não.
Ratinho: Tá certo, pô, relaxa. Só falei. Vai que cola, né?
Morte: Não vai colar. E se tentar, tu vai se enrolar. Respeita a casa da Verinha, e respeita a mina também. Entendeu?
Ele levantou as duas mãos, rindo com aquele jeitão debochado, mas eu sabia que ele entendeu o recado.
Ratinho: Já é, chefia. Suave. Boca fechada, mão quieta.
Balancei a cabeça e voltei a andar. Não precisava dizer mais nada. Comigo o papo é reto. Se eu falo, é pra cumprir. E quando digo que não é pra chegar com gracinha, é porque a parada é séria.
Fui pra casa, mas minha mente não desligava. Entrei, tirei a camisa, joguei o celular na cama e fiquei ali parado, olhando o ventilador girar.
Me joguei no sofá, liguei a TV só pra ter barulho, mas não prestei atenção em nada. Fiquei lembrando da hora do almoço, dela anotando o pedido, do cuidado que teve com cada prato. E mesmo sem saber da história dela, eu sentia que tinha alguma coisa diferente ali.
Só que eu não sou de me mover por impulso. Ainda tô esperando o resumo completo dela. Quero saber de onde veio, o que passou, se tem algum rastro de problema. Porque bonita muita é. Mas limpa? Rara. E eu não boto ninguém no meu radar sem saber onde pisa.
Enquanto o relatório não chega, fico na minha. Mas confesso, essa loirinha tá me tirando do eixo. E isso é perigoso. Pra ela, ou pra mim.