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1225 Palavras
Morte narrando Chegou no meu ouvindo burburinho. Diz que a dona Verinha lá do restaurante trouxe uma parente pra morar com ela. Fiquei só escutando de canto, sem dar muito papo. Já mandei logo o Ratinho dar aquela sondada. Se tem uma parada que eu não gosto é de ser pego de calça curta, tá ligado? Esse bagulho de ser avisado com a merda já rolando só dá prejuízo. Aqui na Babilônia a favela tem dono, e dono tem que saber de tudo. Morte: Vai lá, Ratinho. Vê se essa tal de parente existe mesmo, de onde veio, quem é, o que faz. Não quero mulher de problema batendo ponto aqui sem aviso não. Ratinho: Pode deixar, chefia. Já tô indo agora mesmo. Fiquei na minha. Fui dar uma volta, dar papo pros cria, ver como tava o movimento. O tempo passou, o rádio não chiou, e logo Ratinho voltou. Veio com aquela cara de safado dele, todo empolgado, parecia até que tinha ganhado prêmio. Morte: E aí, qual foi? Ratinho: Rapaz, a mina é linda, chefe. Loirinha, olhos azuis, toda gostosinha. Fina, tá ligado? Parece uma boneca, pego fácil. Revirei os olhos. Esses caras não podem ver uma saia que já ficam abobalhado. Mulher bonita aqui aparece toda semana, mas ficha limpa que é raro. Não dei bola pra empolgação dele. O que importava pra mim era saber se a ficha da garota tava na mesa. Morte: Pegou o nome dela? Ratinho: Peguei sim, Ariana. Morte: Beleza. Já é. Agora só falta cruzar os dados. Quero saber se é isso mesmo que tão dizendo. Parente ou não da Verinha, eu preciso saber se é flor que se cheire. Já mete o Gordo nessa pesquisa. E assim ficou. Não fui atrás. Não quis saber de olhar ou puxar papo. Tô nem aí pra rosto bonito. Bonita até a traidora da minha ex era. Não me iludo mais não, parça. O que interessa é a verdade, o resto é enfeite. Mais tarde, fui pra casa. Tomei um banho demorado, deixei a água bater nas costas, aliviei a tensão do dia. Depois vesti minha camisa preta, bermuda da Lacoste, corrente no pescoço, relógio brilhando. Tava no pique. Hoje era dia de baile na Rocinha, e o chefe de lá é firmeza. Sempre fortalece quando vem nos nossos, então hoje era dia de prestigiar. Desci com meu bonde, fuzil no banco do carro, janela abaixada e batidão rolando no último volume. No caminho, fui pensando em nada. Só no som, na batida, na rua passando rápida. Chegando lá, os cara já abriram caminho. A gente tem moral. Cumprimentei uns conhecido, abracei o chefe da Rocinha, brindei com os cria. A festa tava fervendo, as luzes piscando, cheiro de lança no ar, mulherada descendo até o chão como se a vida dependesse disso. Fiquei de canto, só observando. Eu não sou muito de curtir assim no meio, prefiro a visão ampla, entender o ambiente. Ver quem tá com quem, quem chegou sozinho, quem não devia estar. No baile, muita coisa se revela. E aqui o vacilo não passa batido. Chefe da Rocinha: E aí, Morte, veio fortalecer mesmo, hein?” Morte: Cê é cria, né? Tamo junto sempre. Chefe da Rocinha: Se quiser escolher umas meninas aí, fica à vontade. Só qualidade. Morte: Valeu, mas hoje eu tô tranquilo. Só na minha. Ele riu, achando que eu tava fazendo charme. Mas a real é que minha mente já tava em outra. Não era em mulher, nem em baile. Era naquela tal de Ariana. Não pela beleza que o Ratinho falou. Mas porque meu instinto apitou. Quando a intuição fala, eu escuto. Sempre escutei. E quase nunca erra. Voltei pra Babilônia na madruga, com a mente funcionando mil por hora. Vou esperar a ficha dela chegar. Aí sim eu vejo se ela é só uma loirinha perdida ou se tem algo mais por trás desse rostinho bonito. Porque aqui, na Babilônia, ninguém entra sem passar pelo crivo do Morte. Acordei cedo como sempre. O sol ainda nem tinha dado as caras direito e o morro tava num silêncio raro. Gosto dessas horas. Quando tudo ainda tá meio parado, o rádio calado, a quebrada ainda dormindo. Me levantei, joguei uma água no rosto, escovei os dentes e botei o chinelo. Desci a viela com calma, camisa simples, bermuda e corrente no pescoço. Fui direto pra padaria da esquina, a mesma de sempre. Lugar de rotina, onde os cria já sabem até meu pedido. Entrei e o cheiro de pão quente já bateu no nariz. Era cedo, mas já tinha gente no balcão. A moça do caixa deu aquele sorrisinho de sempre, meio com medo, meio por respeito. Eu só assenti com a cabeça e fui em direção ao balcão. Foi aí que aconteceu. Tava de boa, só esperando pra fazer meu pedido quando ela virou. Uma mina loira, linda. Cabelo preso num coque meio bagunçado, olho azul que parecia furar o peito. Tava com um saco de pão na mão, camiseta branca simples, legging preta e chinelo no pé. Mas, mano, mesmo sem produção, parecia que o mundo parou dois segundos ali. Ela virou e me olhou. Simples assim. Um olhar rápido, nada demais. Mas pra mim foi tipo uma pancada no peito. Nesses dois segundos meu olhar varreu o corpo dela inteiro, sem vergonha nenhuma. Linda demais, do tipo que não se vê por aqui todo dia. Pele clara, boca rosada, jeitinho de quem não tem noção da beleza que carrega. Ela saiu andando tranquila, atravessando a rua. Fiquei olhando até sumir na esquina. A mente já começou a conectar as peças. Deve ser a tal da sobrinha da Verinha, só pode. Olhei pro mano que tava no balcão e mandei na lata. Morte: Quem é aquela ali, a loirinha do saco de pão? Atendente: Ah, é a Ariana. Sobrinha da dona Verinha, chegou esses dias. Gente boa, mó educada. Já tá até ajudando a tia no restaurante. Só confirmei com a cabeça. Não falei mais nada. Peguei meu pão na chapa e meu café preto sem açúcar. Do jeito que eu gosto. Fui até a mesinha no canto, sentei, dei um gole no café e fiquei pensando. Então é ela, a que o Ratinho ficou todo empolgado. Não mentiu, a mina é linda mesmo. Não sou de me deixar levar por rosto bonito não. Já aprendi, do pior jeito, que beleza não significa nada. Mas a presença daquela menina me chamou atenção. Não sei explicar, foi um bagulho diferente. Não foi só atração. Foi como se meu corpo tivesse entendido antes de mim que aquela mina ia cruzar meu caminho. Terminei meu pão com calma, café quase frio. Saí da padaria como quem não quer nada. Só que por dentro a cabeça já tava formada. Já sei onde vou almoçar hoje. É no restaurante da Verinha, claro. Não que eu precise justificar onde almoço ou deixo de almoçar. Mas hoje eu quero ver de perto. Sentar ali e observar. Ver como ela se move, como fala, como olha. Ver se esse barato estranho que eu senti passa ou piora. Não tô dizendo que vou fazer algo. Não ainda. Só quero entender. Porque quando algo me chama atenção desse jeito, eu não deixo passar batido. E essa garota já me fez querer voltar onde nunca gostei de ir: no inesperado.
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