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1068 Palavras
Ariana Narrando A rodoviária parecia ainda mais fria naquela noite. A mala nem era tão pesada, mas meu coração esse tava esmagado. Minha mãe comprou a passagem às pressas, me abraçou forte na porta de casa e disse que era pro meu bem. Eu ainda tentei argumentar, mas ela não quis me ouvir. Sabrina: Você vai, Ariana. Já falei com a tia Verinha, ela vai te buscar lá na Rodoviária. Eu vou depois. Primeiro você precisa se afastar desse inferno. Me afastei Do lugar, Do passado. De mim. Peguei o ônibus quase meia-noite. Sentei na janela, encostei a cabeça no vidro e fiquei vendo as luzes da cidade ficando pra trás, como se cada poste se apagasse com um pedaço da dor que eu carregava. Mas não apagava. Só doía mais. Passei a noite na estrada. Chorando. Me culpando. Engolindo o choro quando alguém passava pelo corredor. Coloquei o moletom, fechei o zíper até o queixo e torci pra ninguém puxar conversa. Lá pelas três da manhã, tirei uma foto do teste de gravidez e fiquei encarando. Meu filho, Minha criança. Não vou mentir, eu quis sumir do mundo quando tudo aconteceu. Mas olhando ali, a única coisa que eu sentia era amor e medo. Pensei no Paulo. No jeito que ele me olhava como se fosse um santo. Na voz mansa, nas palavras bonitas. No quanto eu fui burra de acreditar. Mas também pensei no momento em que ele gritou comigo, me mandando tirar o filho, ameaçando minha vida como se fosse dono dela. Aquele dia, tudo dentro de mim morreu, Menos meu filho. Ele sobreviveu. Eu fui idiot@ Eu pedi pra me envolver com aquele desgraçado. Mas meu filho, ele não é um erro, Nunca será. Não vou dizer que ele acabou com a minha vida porque isso seria uma mentira. Eu ainda tenho muita coisa pra viver. Só que agora, vivo por dois. E meu filho nunca será um fardo. Cheguei no Rio de manhã. O sol já batia forte na cara quando desci do ônibus. Olhei pra todos os lados, perdida. E então vi uma mulher sorrindo, de vestido florido. Era a tia Verinha. Ela correu até mim e me abraçou como se fosse minha mãe. Verinha: Minha filha, vem cá. Tá segura agora, Tô aqui, viu? E eu chorei. Chorei no ombro dela como uma criança, agradeci. Por ter um lugar pra ir. Por estar viva. A vida me jogou no abismo, mas eu vou subir de volta. E quando meu filho nascer, ele vai saber que a mãe dele pode ter caído, mas levantou por ele. A van subia o morro da Babilônia devagar, gemendo a cada curva estreita. Eu ia olhando pela janela, tentando entender onde eu tava pisando. As casas pareciam coladas umas nas outras, as crianças jogavam bola na rua como se não houvesse amanhã, e os olhares desconfiados de alguns moradores me deixaram ainda mais encolhida no banco. Verinha: Aqui é tranquilo, Ari. Só não se mete com o pessoal do movimento que tá tudo certo. Todo mundo vive em paz, cada um no seu canto. Assenti com a cabeça, Ela parecia tão segura, tão dona daquele lugar. A energia dela me acalmava. A casa dela é pequena, e ela mora sozinha, tem dois quartos, fiquei no que está desocupado, o filho dela mora em outro estado e quase não vem visitar ela. Depois de tomar um banho rápido e trocar de roupa, ela me chamou pra sair. Descemos para o restaurante. Pequeno, simples, mas limpinho e com cheiro de comida boa no ar. Uma faixa amarela desbotada com letras vermelhas dizia: “Sabor da Vê – Comida Caseira com Amor”. Senti um calor no peito. Pela primeira vez em dias, tive a impressão de que poderia dar certo. Verinha: Você vai me ajudar aqui. Uma mão lava a outra, né? Eu te dou um canto, comida, te ajudo no que precisar e você me ajuda no batente. Ariana: Claro, tia. O que a senhora mandar, eu faço. Ela sorriu e me deu um avental. Era rosa com babadinho branco nas pontas. Tia Verinha: Hoje cê vai começar leve. Só lavar umas folhas, picar uns legumes e ver como a cozinha funciona. Amanhã a gente vê o resto. Ela agradeceu a outra menina, que já tinha começado. A menina sorriu, mas quando ela virou as costas a garota mostrou o dedo, fingi que não vi. A cozinha era apertadinha, mas muito organizada. Panelas penduradas na parede, temperos em potes de vidro com etiquetas escritas à mão, e um fogão grande. O cheiro do alho fritando na manteiga já me deixou com fome. Fui pra pia, amarrei o cabelo e comecei a lavar alface. A água gelada escorrendo pelas mãos me fez esquecer, por um instante, toda dor que ainda carregava. Era como se, ali, eu pudesse recomeçar. Cada folha lavada era um pedaço meu sendo limpo também. Enquanto eu trabalhava, tia Verinha dava conta de três pedidos ao mesmo tempo. Ia e voltava do salão com pratos, respondia cliente, gritava pra moça da frente trocar o arroz no banho-maria e ainda encontrava tempo pra olhar pra mim e sorrir. Verinha: Tá indo bem, menina! Leva jeito pra coisa. Ariana: Obrigada, tia. Eu tô gostando. Naquele ritmo, o tempo passou voando. Quando vi, já era meio-dia e o restaurante lotado. Tia Verinha me chamou pra montar os pratos com ela. Foi ali que senti o peso de verdade. Era rápido, quente, cansativo. Arroz, feijão, carne, farofa, salada. Tudo montado com pressa, mas com capricho. Uma senhora sentou perto do balcão e me chamou. Cliente: Nova ajudante? Ariana: Sou sim. Cliente: Vai gostar daqui. Só tem que ficar esperta com uns moleques aí, mas no mais, é só seguir sua vida. Sorri de volta, agradecida. Todo mundo parecia conhecer minha tia. O respeito que ela tinha ali era nítido. E aquilo me dava segurança. No fim do expediente, sentei numa das mesas vazias com um prato de comida na frente. As pernas doíam, as costas pesavam, mas eu tava feliz. Tia Verinha me trouxe um copo de suco e sentou comigo. Verinha: Tô orgulhosa de você, menina. Hoje foi só o começo. Olhei pra ela, segurei a colher com as mãos suadas e respondi com a voz firme, mesmo que o coração ainda tremesse: Ariana: Eu também tô, tia. Morro da Babilônia esse vai ser meu novo endereço.
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