Morte narrando
Nasci e fui criado no morro da Babilônia. Não tive luxo, não tive mimo, mas tive o que precisava pra sobreviver. Meu nome é André, tenho 28, sou loiro de olhos azuis, tenho 1,89 de altura, mas ninguém me chama pelo nome faz tempo. Aqui embaixo, na quebrada, sou conhecido como Morte. E não é à toa. Cada cicatriz minha conta uma história. Cada olhar que abaixo é mais uma alma que eu já levei. Eu não nasci monstro, mas fui criado por um.
O homem que me criou era temido por todo mundo. Chamavam ele de Monstro. E talvez fosse mesmo. Ninguém olhava nos olhos dele sem tremer. Só que comigo e com minha mãe, ele era outro. Me deu teto, comida e respeito. Nunca faltou nada dentro de casa. E quando eu completei quinze anos, ele me levou pela primeira vez pra boca e disse.
Monstro: Vai aprendendo, porque um dia isso tudo vai ser teu.
Eu aprendi. Rápido. Era bom de cabeça, frio no gatilho. Nunca fui de falar muito, sempre fui de resolver. O Monstro me ensinou a ser duro. Me ensinou que nesse jogo não tem espaço pra coração mole. Que quem ama demais, morre cedo. E eu vi isso acontecer com ele. Quando os inimigos descobriram o ponto fraco dele, minha mãe, foi só questão de tempo. Entraram na casa, mataram ela, e ele, no desespero, saiu que nem um bicho pra vingar. Levou três com ele antes de cair no chão, crivado de bala. Naquele dia, eu virei o chefe.
Com dezoito anos, já mandava e desmandava na Babilônia. Quem não respeitava, sumia. Quem jurava lealdade, tinha proteção. Fiz aliança com morro vizinho, expandi, cresci, mas nunca deixei de cuidar do meu. Principalmente das minhas irmãs. Uma tem vinte e dois, a outra fez dezoito mês passado. São meu ponto fraco, mas ninguém sabe. Pelo menos ninguém que esteja vivo pra contar.
Agora, se tem uma coisa que me quebrou de verdade, foi aquela desgraçada que eu chamei de esposa. Me envolvi com ela na época que ainda acreditava que podia ter uma vida normal. Casa, café da manhã, abraço antes de dormir. Sonho idiot@. Eu amava aquela mulher. Fiz tudo por ela. Botei no nome dela o salão que ela tanto queria. Dei carro, viagem, segurança. Deixei de sair na noite, deixei de olhar pra qualquer r@bo de saia que passasse. Fui fiel.
E ela? Me traiu.
Com quem? Com um merd@ infiltrado da facção rival. O plano deles era simples,ela me distrair, ele colher as informações e vazar pros inimigos. Mas o jogo virou. O cara se apaixonou de verdade por ela. E quando ela percebeu que se meteu com um rato, tentou pular fora. Disse pra ele que tava arrependida, que queria reatar comigo. Foi aí que ele matou ela. Por ciúmes. Por raiva. Por medo.
Não importa o motivo. Mesmo que ele não tivesse puxado o gatilho, eu puxaria. Traição não tem volta. Não tem perdão. Quando enterrei ela, não chorei. Nem um pingo. Só senti nojo. Foi naquele caixão que enterrei também meu coração. Desde então, nunca mais me apeguei a ninguém.
Hoje em dia, fico com quem eu quiser. Não prometo nada. Nem bom dia, nem aliança. Mulher pra mim agora é prazer e ponto final. Quem tenta criar laço, eu corto. Não porque eu gosto de ser cru.el. Mas porque aprendi da pior forma que amar demais enfraquece. E fraco eu não sou. Nem posso ser.
Tem gente que acha que me conhece. Que vê meu cabelo loiro, meus olhos claros e pensa que sou diferente dos outros bandidos. Engano de quem olha só a casca. Por dentro, sou mais escuro que a noite sem lua. Me tornei o que precisava pra sobreviver. E sobreviver aqui, nesse inferno disfarçado de comunidade, exige ser pior que o pior dos monstros.
Mas mesmo sendo o Morte que todo mundo teme, eu ainda tenho um código. Criança não se mexe. Mãe de cria tem que ser respeitada. Trabalhador tem paz. Quem pisa na bola, sofre. E se trair, morre. Não tem meio termo, não tem conversa. Por isso que minha quebrada é forte. Por isso que ninguém bate de frente sem pensar dez vezes antes.
E quer saber? Eu gosto da solidão do poder. Gosto de andar com meu fuzil nas costas, olhar de cima a favela inteira e saber que cada canto daquela biqueira me pertence. Gosto de ver o medo nos olhos de quem deve, e o respeito nos olhos de quem honra. Só não gosto de lembrar. Lembrar dói. Lembrar dela dói.
De vez em quando, de madrugada, quando o morro tá em silêncio e o rádio não chiou a noite toda, eu acendo um cigarro na laje, olho o céu e penso se, em outra vida, eu teria sido diferente. Talvez um pai de família, com uma menina no colo e um cachorro latindo no quintal. Mas aí eu dou um trago fundo, olho pro ferro no meu colo e lembro, nessa vida, meu destino sempre foi a guerra.
E se essa guerra tiver fim, vai ser quando minha hora chegar. Até lá, eu sigo sendo o Morte. O que decide quem vive e quem não vive. O que protege os seus e destrói os que traem. O que já amou um dia, mas hoje ama só o poder.
E Fim de papo.
Luísa é uma marmita bonita. Daquelas que sabem que são. Corpo feito, boca carnuda e olhar que tenta seduzir até sem querer. A primeira vez que ficou comigo foi depois de um baile. Tava de vestido colado, perfume doce, e a risada dela irritava de tão exagerada. Mas quando me puxou pelo pescoço e me beijou, eu deixei. A noite foi quente, intensa. Mas acabou ali.
Só que ela não entendeu.
Começou a mandar mensagem, perguntar onde eu tava, dizer que tava com saudade. Uma vez, chegou a aparecer na porta da minha casa com marmita feita. Eu fui direto.
Morte: Luísa, deixa eu te lembrar uma parada. Isso aqui é só sexo. Se tu tiver carente, adota um gato.
Ela ficou muda, me olhando como se eu fosse um monstro. Mas eu só fui honesto. Não iludo, não prometo. Não sou seu homem, não sou seu abrigo.
Depois disso, sumiu por uns dias, mas voltou. Porque ela gosta do perigo, da intensidade. Gosta de mim mesmo sem saber que não tem nada pra dar certo. E eu? Eu gosto do corpo dela. Só isso.
Mais que isso, nunca mais.