Vozes, Verdades e um Sonho em Construção
Um mês havia se passado desde o pedido, e a ilha já não sussurrava — comentava abertamente. O namoro de Alicia com Alex e Alan era assunto recorrente, atravessando corredores, varandas e, principalmente, a cozinha.
Alicia percebia. Não precisava olhar para confirmar. Bastava entrar no ambiente e captar frases soltas, risadinhas contidas, pausas repentinas quando ela se aproximava.
— Dizem que é sério…
— Ouvi falar em casamento…
— Será que é verdade mesmo?
Ela mantinha a postura, concentrada no que fazia, mas o coração batia mais rápido a cada comentário. Não era vergonha. Era o peso de ser observada, julgada, imaginada.
Foi então que Alex e Alan entraram juntos na cozinha.
O burburinho cessou como se alguém tivesse girado um botão invisível. Talheres pararam no ar, panelas ficaram imóveis, olhares curiosos se fixaram neles. Alex apoiou as mãos na bancada; Alan ficou ao lado, firme, tranquilo.
— A gente veio esclarecer uma coisa — disse Alex, com a voz segura.
Alan continuou:
— As fofocas acabam aqui.
Um silêncio atento se instalou.
— Eu, meu irmão e a Alicia estamos noivos — afirmou Alex, sem rodeios. — E não há nada de escondido, errado ou indefinido nisso.
Algumas bocas se abriram, outras sorriram, outras apenas assentiram, surpresas.
— Ela é nossa escolha — completou Alan. — E esperamos respeito.
Alicia sentiu os olhos marejarem. Não pelo anúncio em si, mas pela forma como foi feito: clara, firme, protetora. A cozinha, aos poucos, retomou o fôlego. Uma cozinheira mais antiga sorriu e disse:
— Então… parabéns aos três.
O clima mudou. O peso se dissolveu.
No almoço, já em casa, o assunto era outro — futuro.
Alex espalhou algumas plantas e fotos sobre a mesa.
— Pensamos em duas opções — explicou. — Uma casa pronta, confortável, prática… ou—
— Construir do zero — completou Alan. — Como sempre sonhamos. Cada detalhe pensado por nós.
Alicia passou os dedos pelas imagens, imaginando janelas, um quintal, a luz entrando pela manhã. Uma casa que não fosse apenas paredes, mas começo.
— Vocês querem que eu decida? — perguntou, emocionada.
— Queremos que seja nossa decisão — disse Alex, sorrindo.
Alan segurou a mão dela:
— Mas queremos ouvir seu coração.
Alicia respirou fundo. Pela primeira vez, não havia fofocas, nem cochichos. Só escolhas, sonhos e um futuro que, enfim, podia ser dito em voz alta.