Capítulo 25

729 Palavras
As Verdades que Acordam No chalé, a manhã caminhava preguiçosa. O sol parecia brincar com a madeira clara das paredes, acendendo pequenas brasas douradas. Alicia sentia algo parecido com coragem pulsar sob a pele, como se seu coração tivesse recebido uma carta anônima dizendo: é hoje. Alan a observava com aquela serenidade que desarmava tempestades. Alex, por outro lado, parecia um raio domesticado, inquieto, faminto de significados. E ela, filha única, órfã, marcada por cicatrizes que nunca exibira, agora estava ali, no centro de dois mundos que enfim a enxergavam. "Quer que eu comece?" Alicia perguntou, ajeitando uma mecha atrás da orelha. Parecia um gesto simples, mas naquele momento era uma convocação para revelações. Alan inclinou a cabeça, sempre médico, sempre atento ao subtexto. "Quando estiver pronta." Ela respirou fundo. O ar do chalé cheirava a cedro, pão fresco e promessas. "Eu cresci com dois pais que viviam me lembrando que queriam ser avós" ela disse, sorrindo de um jeito que misturava carinho e luto suave. "Eles diziam que, quando encontrasse alguém, eu deveria escolher alguém que cuidasse de mim como eles cuidaram." Alex aproximou-se um pouco mais, como se estivesse preocupado que suas palavras escorressem pelo chão. "Eles morreram quando eu tinha dezessete anos." A voz dela não tremeu, mas o silêncio ao redor se inclinou em respeito. "Desde então, tudo ficou mais... barulhento por dentro. E mais vazio por fora." Alan tocou a mão dela, um toque leve, quase estudioso, como se estivesse avaliando um músculo dolorido. "Você nunca contou isso para ninguém no trabalho." Ela riu, um som breve e doce. "Eu m*l contava para mim mesma." Mas havia mais, e ambos esperavam, não com cobrança, mas com aquela devoção silenciosa que só quem realmente deseja conhecer o outro é capaz de sustentar. Alicia apoiou as mãos nas próprias pernas, apertando os joelhos para criar coragem. "Minha antiga chefe..." Ela revirou os olhos. "Ela insistia para que eu... ‘agradassse’ certos clientes. Dizia que seria bom para os negócios. Tentou me empurrar para situações que eu não queria." Alex imediatamente anotou algo no pequeno bloco mental que ele mantinha atrás do olhar intenso. Não era ciúme. Era alerta. Fera acordada. Alan franziu o cenho. Não o franzido rabugento de Alex, mas o franzido clínico, de indignação controlada. "Ela te pressionou, Chef?" "Pressionou, insinuou, tentou manipular." Alicia deu de ombros. "Mas eu nunca cedi." Alex se inclinou para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, como se estivesse pronto para atravessar paredes. "Ela chegou a encostar em você?" "Não. Mas falava como se eu devesse encostar em quem ela mandasse." A temperatura no chalé caiu um grau. Alan fechou a mão devagar, transformando indignação em foco estratégico. Alex não transformou nada. Ele simplesmente ficou perigoso. "Eu também tive um ex namorado," Alicia continuou, ainda que as palavras pesassem. "Ele tentava... me convencer. Forçar encontros, insistir. Ele achava que tinha direito ao meu corpo só porque era meu namorado." Os irmãos trocaram um olhar. Uma conversa silenciosa. Uma avaliação rápida e afiada. E mais uma anotação mental de ambos: proteger. Alicia sentiu o ar mudar. Não era agressivo, nem ameaçador. Era... devoto. Como se tivesse sido aceita em um templo que antes nem sabia que existia. "Eu nunca... nunca estive com ninguém," ela admitiu. "Não por medo, mas porque ninguém me olhava do jeito que eu precisava ser vista." Alex foi o primeiro a falar. "A gente olha." Era verdade. Era simples. Era um juramento dito sem cerimônia. Alan colocou a mão sobre a dela novamente, desta vez firme, sólido. "Alicia, nada do que você viveu te diminui. Mas tudo que você escolher daqui pra frente... escolhemos juntos, no seu tempo. E com o cuidado que você merece." Ela inspirou devagar, sentindo o peito se expandir como uma tenda recém-aberta para a luz. "Agora é minha vez de perguntar," disse Alicia, virando-se para os dois, os olhos brilhando com uma coragem tranquila. "Quais são os maiores medos de vocês? Os maiores desejos? Quero ouvir tudo." Alex sorriu daquele jeito que parecia abrir portas trancadas. "Quer ouvir mesmo? Vai ser um dia longo, Chef." "É exatamente o que eu quero." Alan assentiu, quase emocionado. "Então começaremos do começo." No chalé, três histórias se preparavam para se alinhar como planetas no raro instante de um eclipse perfeito. E Alicia, pela primeira vez em anos, sentia que não estava sozinha na órbita.
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