Tenho tentado me concentrar o dia todo, mergulhado no trabalho. Preciso ser produtivo… ser produtivo… Vamos, Nick, você consegue. É só uma humana pequena, delicada — mas deliciosa — que está me enlouquecendo…
Aaaaaaa
Quero matar alguém!
E meu lobo quer despedaçar alguma coisa agora mesmo. Ele está desesperado para marcá-la.
Eu vou morrer… a loucura lunar está me corroendo. Mas é tão difícil…
Não vou reivindicá-la. Ela é jovem demais. Não seria justo com ela. Me recuso completamente. Eu não vou fazer isso…
“MINHA.”
O que faltava… agora meu lobo já acha que ela é nossa. Mas nem sonhando vou me aproximar. Tenho medo de que, se chegar perto demais, ele perca o controle e tente marcá-la ali mesmo… diante de todos.
Não. Nunca.
É um segredo. Só Jax sabe. E ele não vai contar para ninguém…
Espero.
Mas, mesmo que soubessem, não os culparia. Todos precisam de sua Lua. E mesmo que não digam nada para não me preocupar, a matilha não cresce por causa disso. Mas eu não posso… não sou egoísta, só que ela é uma criança, Diosa!… Seu cheiro está me enlouquecendo. Quero correr até ela e jogá-la no ombro — sim, como um homem das cavernas. Será que ela gosta de algo mais rústico? Já teve alguma experiência…?
Não acho…
Ou será que sim?
“MINHA.”
Chega. Ela não é nossa. Nem sua, nem minha. Nem de ninguém.
De ninguém…
É isso.
Estou perdido. Isso vai ser mais difícil que lutar com multinacionais por mercado. E eu odeio elas mais que tudo.
Aquela ratinha pequena e delicada é linda, inocente, sexy… mas não quero para mim. Não pareceria certo. Aposto que nem temos nada em comum. Deve ser mimada, escandalosa.
O que conversaríamos?
Sobre… manicure?
“MINHA.”
Droga… entendi, tá bom?!
Com o tempo percebi que meu lobo me odeia. Ele faz o oposto do que eu quero. Em tudo. Não temos harmonia. Desde aquele maldito dia da tempestade, quando o Alfa da matilha vizinha e sua Lua morreram em nosso território… Eu estava em uma patrulha na floresta.
Um cheiro de baunilha e coco tomou conta do meu olfato, me desestabilizou. Eu era um adolescente bobo que não sabia nada da vida.
Tentei… juro que tentei não seguir aquele cheiro.
Mas a imagem que encontrei me paralisou.
…Mas a imagem que encontrei ao chegar à estrada me paralisou.
Quando voltei a mim, percebi que uma garotinha de, no máximo, dois anos estava presa no assento especial na parte de trás do carro.
Naquele instante, senti como se um trem tivesse passado por cima do meu peito.
Custei a reagir. Aquele anjinho era a fonte daquele cheiro viciante que me deixava tonto.
Meu lobo ficou desesperado para protegê-la.
Tudo o que eu queria era entender que diabos tinha acontecido para o carro estar naquele estado.
Aquilo tinha sido premeditado — tinha certeza.
Mas assim que saí do choque, outro cheiro apareceu — o cheiro dos traidores.
Meu lobo assumiu o controle e, com o máximo de cuidado, tirou a bebê do carro.
E então, aqueles olhos azuis intensos me atingiram como um raio direto no coração.
Desde aquele dia, nunca mais fui o mesmo.
Passei um mês sem conseguir me transformar de novo.
Quase deixei meu pai louco, achando que seu filho estava danificado.
Mas aquela bebê…
Aquela bebê era a coisa mais preciosa que já vi na vida.
A sensação de calor no meu peito não passou até que ela se acalmou em meus braços e começou a brincar com os dedinhos.
Tentei distraí-la o tempo todo para que não visse os corpos dilacerados dos pais.
O que mais me chocou foi ver que a Lua da matilha havia sido atacada.
Elas são sagradas.
São a flor mais delicada e amada de toda matilha.
E mesmo assim, haviam sido massacrados.
Como eu era um Alfa por nascimento, meu cheiro era forte e os traidores fugiam de mim.
Mas eu sabia…
Algo terrível havia acontecido ali.
Só depois, quando entreguei a bebê aos tios, descobri que eram os alfas da Matilha Presa Dourada.
Eu estava apavorado.
Seria minha apresentação oficial como herdeiro da Matilha Lua de Sangue.
Meu pai me obrigara a treinar dia e noite para esse momento.
Nada podia dar errado.
Eu não podia falhar.
Sempre precisei ser o melhor em tudo.
Afinal, estava destinado a ser o homem mais poderoso da matilha.
Enquanto eu tentava encontrar coragem e murmurava palavras de incentivo para mim mesmo, algo passou correndo na minha frente…
Coques rosa claro.
Um anjo.
“É apenas a sua imaginação…”
“Ela será a sua destruição.”
O sussurro no meu ouvido me fez gelar.
“Ela não é sua destinada… jamais será.”
“É só mais um truque sujo da Deusa que te despreza.”
Não… isso não está acontecendo.
Ela toca minha mão com seus dedinhos suaves, e um sopro de coco com baunilha invade minhas narinas.
Meu lobo se aquieta, satisfeito.
Anseia por ela…
Mas é um anseio protetor.
Ela é uma criança.
Mas algo me assusta: ela está mancando.
O que aconteceu com a perna dela?
Quando a entreguei, estava perfeita.
“Vou matar quem machucou minha princesa.”
— Por que você está triste, príncipe? — ela perguntou.
Saí do meu transe.
— Estou preocupado, princesa.
— Não sou princesa.
— Claro que é. Você é minha princesa.
— Sério? Posso ser sua princesa? Porque você é meu príncipe.
Ela era tão perfeita…
Tão branca quanto leite, com olhos inocentes e brilhantes.
— Claro. Você gostaria disso?
— Te prometo que, quando eu crescer, vou me casar com você. Vamos viver em um castelo rosa. Eu amo rosa.
— Esse é um ótimo plano, minha preciosa. Mas por agora, escute seus tios e estude muito. Você precisa ser uma excelente Lua.
— Eu serei, eu prometo, meu príncipe.
Ela se aproximou e me deu um beijinho na bochecha.
Naquele instante, senti meu coração explodir de amor.
Amor puro.
Incondicional.
Ela se tornou meu universo.
Queria cuidar de tudo dela.
Mas então meu pai me mandou embora.
Disse que a Deusa tinha cometido um erro ao me vincular a uma criança.
Eles acreditavam que eu podia rejeitá-la.
— É só dizer as palavras, filho. Vai ser fácil.
— Pai… eu não acho que isso seja certo.
— Você enlouqueceu? Vai condenar toda a matilha! Vai ter que esperar uns dez, quinze anos para poder reivindicá-la, e até lá já estará perdido!
— Mas pai… a Deusa nunca se engana.
— Só faça o que é sua obrigação. Vamos encontrar uma loba sexy e pronta pra parir. Você precisa de filhotes, e logo.
— Por favor, pai, eu posso esperar que ela cresça…
— Já falei, Nicolas. É uma ordem.
O que eu não sabia era que ela estava ali, naquele exato momento.
Ela tinha sido trazida com mentiras para que eu a rejeitasse aos oito anos.
E naquele dia, meu coração morreu.
Jamais tinha visto o que acontecia ao rejeitar um vínculo…
E muito menos quando uma das partes ainda era só uma criança.
Quando fui forçado a dizer as palavras, ela começou a chorar, e eu também.
Minhas lágrimas escorriam sem controle.
A dor no peito foi tão brutal que achei que estava tendo um ataque cardíaco.
— Eu, Nicolas Dalton… AHHH!
— Príncipe, não! Você prometeu… AHHHH!
— Eu te rejeito… AAAAAHH…
— PRINCESA…!
Me recusei a terminar.
Ela desmaiou no meio do processo…
E não acordava.
Seus tios estavam desesperados.
Assim como eu.
Mas não me deixaram chegar perto dela.
Tudo que eu queria era garantir que ela estivesse bem.
Me arrastaram para fora do quarto quatro lobos de segurança, enquanto eu tentava me controlar.
Minha transformação estava incompleta.
Meu lobo queria sangue.
— Quero vê-la! MIAAAAA!
Meu lobo uivava de dor.
— Silêncio, Nicolas! Você é uma vergonha. Agora vai fazer o que mandei.
Meu pai me mandou imediatamente para fora do país para terminar meus estudos.
E me ordenou encontrar uma companheira substituta.
Minha princesa estava sepultada.
Ninguém podia mencionar o assunto.
Por mais que eu suplicasse…
Por mais que meu lobo gritasse…
Ninguém respondia.
Só sabia que ela estava viva.
Nada mais.
A partir daquele dia, nunca mais fui o mesmo.
Prometi me afastar dela.
Cumpri as ordens do meu pai.
Fui forçado a estar com outras mulheres.
Mas nada me preenchia.
Eu me sentia vazio, sujo, quebrado.
Traí meu vínculo.
Traí meu lobo.
E ele… ele me odeia por isso.
Minha vida virou cinzas.
Meu coração se endureceu.
Hoje só restou esse homem frio, c***l e sem alma.
Me escondi no trabalho…
Na matilha…
Na dor.
Ela nunca mais voltaria para mim.