Quando chego em casa, depois de um retorno bem estranho, não sei exatamente o que estou sentindo.
É a primeira vez que encontro algo que realmente sei fazer bem.
Parece que meu chefe me leva a sério e, o principal: EU TENHO UM EMPREGO!
Já não serei mais a inútil da família. Espero que meu tio fique orgulhoso da minha conquista…
Ao chegar, vejo que todos estão em casa. Não percebi o quanto estava tarde até que o senhor Jackson me avisou.
O tempo voa quando a gente se diverte.
Adorei me sentir útil. Talvez até consiga fazer amigos.
Sei que será um pouco difícil, ninguém me leva a sério por causa da minha idade, mas eu vou conseguir.
Depois de guardar meu bebê na garagem e secá-lo com cuidado — preciso preservar o revestimento cerâmico que apliquei — fico admirando o brilho que o tratamento do fim de semana deixou.
Preciso protegê-lo ao menos por uma semana.
Guardo minhas coisas no cantinho que minha tia separou para mim e entro descalça. Ainda não sei o que me espera.
— Abi, você chegou…
— Oi, tia Lulu.
— Querida, como foi o seu dia?
— Tia, consegui o emprego! Estou tão feliz!
— Excelente, minha filha. Seu tio vai ficar muito satisfeito.
— Eu sei. Estou ansiosa pra contar.
— Então venha me ajudar a terminar o jantar e arrumar a mesa.
Estou radiante. Finalmente vão me levar a sério.
Sempre tive que aguentar nem ser incluída nas conversas…
Mas não vou dizer onde estou trabalhando. Nem sequer mencionarei meu chefe.
Hoje, nada vai estragar minha felicidade.
Arrumo a mesa com perfeição, como minha tia sempre me ensinou.
Ela é exigente em como devo me comportar, cozinhar e servir os convidados. Por isso o apelido de “senhorita perfeita”.
Odeio quando Lili me chama assim.
Sempre me senti tão triste…
Ninguém queria brincar comigo. Diziam que eu era estranha.
Sempre estive à frente dos outros da minha idade, nunca tinha com quem conversar.
Minha prima me ignorava por ser “pequena demais” para o grupo dela.
Fiquei anos de cama. As terapias e os estudos me tornaram solitária.
Queria que minha mãe estivesse comigo… talvez não me sentisse tão sozinha.
— Querida, a mesa está linda. Muito bem.
— Obrigada, tia. Fico feliz que tenha gostado.
— Se quiser, vá se trocar para o jantar. Seu tio não deve demorar. Acorde sua prima, ela está descansando.
— Claro, tia. Rapidinho.
Subo para chamar Lili e bato na porta do quarto.
— Lili, tia Lulu pediu pra você descer pra jantar.
— Já vou… — responde ela, se esticando nos cobertores.
Dormiu o dia todo?
Céus! Eu jamais perderia um dia inteiro desse jeito.
Ela sempre foi criada com mimos, achando que riqueza dá direito a não fazer nada.
Enquanto eu pedia permissão pra estudar durante a recuperação, ela só saía com os amigos.
Eu fazia os deveres dela pra praticar mais matérias.
Quando terminou a escola, decidiu esperar o “futuro marido”.
Ridículo. Homens gostam de mulheres preguiçosas?
Todo fim de semana sou eu quem limpa a casa. E quando ela está na academia, aproveito pra limpar o quarto dela.
Tem uns objetos que vibram e se movem… não entendo pra que servem. Só guardo de volta nas gavetas e tento esquecer que vi.
Entro no meu quarto — o meu lugar favorito.
Minha tia diz que parece uma oficina ou quarto de menino.
Mas está decorado com preto por todo lado e toques de verde-musgo.
Economizei muito pra comprar minhas almofadas felpudas verdes.
Tenho pôsteres de carros que enquadrei e coloquei na parede.
Claro que tenho que me vestir de rosa por imposição da minha tia.
Meu tio nem entra no meu quarto — diz que desmaia só de ver.
Tenho que ser delicada, submissa e obediente.
Ou pelo menos é o que dizem.
Troco de roupa por algo mais confortável, embora “confortável” não exista no vocabulário da minha tia.
Escolho um vestido neutro, de alças, sem aquele rosa horrível. Perfeito.
Antes de descer, passo novamente pelo quarto de Lili.
Ela ainda está esparramada.
Inacreditável.
Meu sonho?
Ter meu espaço, viver sozinha em paz.
Ah, e claro: com garagem coberta — meu bebê jamais dorme ao relento!
Na cozinha, vejo minha tia mais arrumada que o normal. Algo está estranho…
— Querida, termine de colocar as batatas num recipiente bonito. A mesa precisa estar impecável. E finalize a sobremesa de morango que você assou ontem.
— Sim, senhora.
— Mas… o que você está vestindo, menina?!
— Mas é só um jantar comum, tia…
— Quantas vezes já te disse que uma dama… sempre deve parecer perfeita?
— Sabe de uma coisa? Termine a sobremesa e vá se trocar. Deixei o vestido certo pendurado na porta do seu armário.
Socorro!
O vestido m*l tem tecido.
Isso é r**m… MUITO r**m.
Corro pro quarto e, quando vejo o vestido, quase desmaio.
Minhas costas são totalmente tatuadas em homenagem à minha mãe.
Os outros desenhos ficam escondidos — e meus tios não sabem.
Esse vestido vai me expor.
Procuro um casaco… qualquer coisa que esconda a tinta da minha pele.
— Isso tem que funcionar… senão estou perdida.
Quando termino a maquiagem, tudo parece no lugar.
Calço meus saltos favoritos — absurdamente altos, mas eu os amo.
Quero parecer mais alta.
E minha tia sempre diz: uma mulher deve parecer elegante.
Mas o que eu gosto mesmo é estar descalça…
Como um duendezinho, era o que meu pai dizia.
Ele me amava tanto…
É tudo o que lembro.
Eu era só um bebê quando meus pais partiram e me deixaram sozinha.
Um calor me invade, do nada.
Acabei de sair do banho!
Isso não é normal.
Desço e encontro minha tia arrumando os últimos detalhes.
Ela franze o nariz quando me vê com o casaco.
— Antes que me dê bronca, tia, estou com frio. Prometo que se esquentar, eu tiro.
— Assim espero, Abigail.
Ela está… nervosa?
De repente, a campainha toca.
— Abi, querida, vá com um lindo sorriso e abra a porta.
— Tá bom…
Mas se for só meu tio…
A não ser que tenhamos visita…
Ai não… era uma janta planejada?
Tonta!
Vou até a porta, mas… o calor volta. Forte.
Sinto-me… molhada. Em lugares que não deveriam estar assim.
Deus! Que vergonha.
A maçaneta parece em brasa. Nunca senti isso.
Abro a porta.
E meu mundo para.
— VOCÊ.