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Na Mira

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Sinopse

O que acontece quando o GELO encontra o FOGO? Yasmin aprendeu cedo que o silêncio é a melhor estratégia de sobrevivência. Criada sob a sombra da violência de um pai imprevisível e o domínio do tráfico no Rio de Janeiro, ela e sua mãe encontram uma saída desesperada: atravessar o mundo para trabalhar como domésticas em uma das mansões mais ricas de Seul.Lá, o pavor da violência física é substituído pelo peso da tradição e de uma opulência sufocante. Yasmin acredita estar finalmente segura, até cruzar o caminho de Park Min-jun, o herdeiro enigmático da família. Com um olhar gélido que parece ler segredos que ela nem sabia que escondia, Min-jun é tudo o que ela deveria evitar.Enquanto Yasmin tenta se encontrar em uma cultura que a enxerga como invisível, ela descobre que as gaiolas de ouro também possuem grades. Entre corredores silenciosos e madrugadas compartilhadas em segredo, uma conexão inesperada nasce. Mas o passado que ela deixou no Brasil tem braços longos, e o preço da liberdade na Coreia pode ser mais alto do que ela imagina.Pode o calor de uma sobrevivente derreter o coração do herdeiro de gelo, ou eles serão destruídos pelo abismo que os separa?Yasmin, agora navegando pelos corredores da mansão Park. Park Min-jun : O sobrenome Park confere a ele uma linhagem de prestígio na sociedade coreana, reforçando a barreira social entre ele e a filha da nova funcionária da casa.

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Prólogo
YASMIN Dizem que toda pessoa nasce pertencendo a algum lugar, mas eu nunca acreditei muito nisso. Nasci no alto de um morro onde as casas se amontoam umas sobre as outras, como se disputassem o ar para respirar. Cresci ouvindo o estampido dos tiros antes mesmo de aprender a tabuada, e o som de uma moto subindo a viela era mais familiar para mim do que a conjugação dos verbos. Descobri cedo demais que algumas pessoas já recebem o mundo embrulhado para presente, enquanto outras precisam sangrar para conseguir um pedaço dele. Meu nome é Yasmin, tenho dezoito anos e, durante muito tempo, achei que a minha existência inteira caberia dentro dos limites daquele morro. Eu estava errada — mas não da forma romântica que as pessoas costumam imaginar. Quando eu era criança, costumava subir na laje da nossa casa durante as noites abafadas de verão. Levava uma cadeira de plástico velha e ficava observando as luzes da cidade brilhando ao longe, onde os prédios pareciam estrelas invertidas salpicadas na escuridão. Eu gostava de imaginar quem vivia ali dentro: executivos, médicos, professores, artistas... gente importante que provavelmente nunca pisaria no chão de terra onde eu morava. Inventava nomes, famílias, problemas e sonhos para aqueles desconhecidos. Era engraçado porque, mesmo sem saber nada sobre eles, eu tinha a certeza absoluta de que suas vidas eram infinitamente melhores do que a minha. Hoje sei que o dinheiro compra conforto, mas não compra paz. Só que eu não tinha essa sabedoria naquela época; eu era apenas uma menina tentando encontrar algum sentido entre paredes sem reboco, contas atrasadas e promessas quebradas. Minha mãe dizia que estudar era o único caminho para sair dali. Eu acreditava nela, não por ingenuidade, mas porque Dona Isabel era a única pessoa que jamais havia mentido para mim. Ela passava mais tempo diante da máquina de costura do que na própria cama; suas mãos carregavam marcas de agulhas, calos antigos e o peso de anos de trabalho silencioso. Mesmo cansada, doente ou com o dinheiro curto até para o básico, ela continuava. Acho que foi dela que herdei a teimosia. Meu pai, por outro lado, preferia dizer que a vida era uma loteria, enquanto minha mãe insistia que ela era uma construção. Com o tempo, percebi que ele usava a sorte para justificar os próprios fracassos, e ela usava o trabalho para sobreviver aos dela. Escolhi o lado dela. Por isso eu passava horas devorando livros emprestados, suportava as piadas e insistia no sonho de ser professora, mesmo quando os outros riam. Ensinar significava provar que existiam saídas, que nem todo mundo precisava terminar exatamente onde começou. Mas a verdade é que havia outro motivo para a minha urgência, um que eu não confessava a ninguém: o medo. Medo de me tornar mais uma engrenagem presa àquele lugar, de olhar para trás aos quarenta anos e perceber que minha vida havia sido decidida por terceiros. Ali, no morro, a capacidade de escolha era um luxo raro, especialmente para meninas bonitas que chamavam a atenção de homens perigosos. O nome dele era Aranha, e só de pensar nisso meu estômago ainda se contrai. Eu o conhecia desde a infância; todo mundo conhecia. Seu nome circulava pelos becos e escadarias em conversas sussurradas atrás de portas fechadas, misturando respeito e pavor. Eu tentava fingir que ele não existia, ignorando os olhares pesados que sentia sobre as costas e os recados esporádicos que apareciam sem que eu os pedisse ou respondesse. "Quando terminar os estudos." "Quando chegar a hora." "Quando crescer." As frases mudavam, mas a sensação de ser observada por olhos ocultos na escuridão continuava a mesma. Eu odiava aquela impotência. Denunciar para quem? Fugir para onde? Restava-me ignorar, mas algumas ameaças não desaparecem quando fechamos os olhos. Elas apenas esperam. E Aranha era um problema paciente, silencioso e letal. Enquanto o perigo espreitava, minha rotina seguia seu curso normal, entre aulas, provas, amigas e discussões domésticas por causa da falta de luz ou de dinheiro. Eu não fazia ideia de que, longe dali — tão longe que parecia pertencer a outra realidade —, as engrenagens do mundo já se moviam em minha direção. Se alguém me dissesse que meu destino estava prestes a colidir com o de um homem cuja fortuna desafiava a minha imaginação, eu teria rido. A distância entre um bilionário e uma garota da favela parecia um abismo intransponível. Nossas vidas eram linhas paralelas, separadas por oceanos, dinheiro e cultura. Mas o destino, como aprendi mais tarde, adora zombar da arrogância humana e transformar o impossível em inevitável. Naquele momento, eu só sabia que tinha dezoito anos, uma mochila cheia de livros e sonhos grandes demais para o meu CEP. Sabia que minha mãe continuava costurando, meu pai continuava se afundando, Aranha continuava observando e eu continuava tentando escapar. Havia uma tempestade se formando além do horizonte, um aviso invisível no ar de que os limites do meu mundo estavam prestes a desaparecer. E que, quando isso acontecesse, não existiria caminho de volta. Naquela época, eu acreditava que os grandes acontecimentos anunciavam a própria chegada. Achava que mudanças vinham acompanhadas de sinais evidentes, de eventos extraordinários capazes de interromper a rotina e avisar que nada voltaria a ser como antes. Eu estava errada mais uma vez. As maiores transformações costumam chegar disfarçadas de dias comuns. Chegam numa manhã qualquer, quando você está atrasada para a escola. Chegam enquanto sua mãe costura em silêncio, enquanto o café esfria na mesa ou enquanto você reclama mentalmente da mesma vida de sempre. Chegam sem fazer barulho, escondidas atrás de coincidências tão pequenas que parecem insignificantes. E talvez tenha sido justamente por isso que eu não percebi. Enquanto eu lutava para sobreviver aos meus próprios problemas, o mundo continuava girando. Pessoas tomavam decisões. Negócios eram fechados. Aviões cruzavam oceanos. Destinos se aproximavam sem que seus donos sequer soubessem da existência uns dos outros. Eu não fazia ideia de que, naquele exato momento, alguém do outro lado do planeta vivia uma realidade tão distante da minha que parecia pertencer a outro universo. Enquanto eu contava moedas para pagar a passagem de ônibus, outras pessoas discutiam valores maiores do que tudo o que eu veria ao longo da vida. Enquanto eu dormia num quarto pequeno e abafado, havia gente morando em mansões tão grandes que eu provavelmente me perderia dentro delas. E enquanto eu caminhava pelas vielas do morro tentando proteger o pouco que tinha, alguém caminhava por corredores largos sem imaginar que nossos caminhos estavam destinados a se cruzar. Se existe uma coisa c***l no destino, é o fato de ele nunca pedir permissão. Ele simplesmente acontece. Arranca você da rota que planejou, destrói certezas, cria novas feridas e, às vezes, entrega oportunidades que parecem grandes demais para serem reais. Naquele momento, porém, eu ainda não sabia de nada disso. Eu era apenas Yasmin. Uma garota da favela. Uma filha tentando dar orgulho à mãe. Uma estudante agarrada aos próprios sonhos. Devorando os livros para não ser devorada pela vida. E uma presa que ainda não percebia, não sabia o tamanho da tempestade que se aproximava. E que essa tempestade tem um nome que enrola a minha língua e um olhar pesado que me sufoca toda vez que miram a minha pessoa.

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