Cael Sterling
02h40 da madrugada.
Eu já tentei de tudo.
Tudo mesmo.
Histórias inventadas na hora. Voz mansa. Ameaça de castigo. Promessa de desenho no dia seguinte. Ficar em silêncio. Bater a porta. Voltar atrás. Pedir desculpa sem saber exatamente pelo quê.
Nada adianta.
Theo está chorando de soluçar há quase três horas. Três horas que parecem uma vida inteira. O som atravessa a casa como um alarme que ninguém consegue desligar, um lamento fino que me arranha por dentro toda vez que ressoa pelo corredor.
Ele está trancado no quarto. E o choro piora sempre que me aproximo da porta. Como se a simples ideia de me ver fosse mais um motivo para desmoronar.
Ele deveria estar dormindo.
Tem aula amanhã.
Eu deveria estar dormindo também. Tenho reuniões cedo, decisões que não se tomam com olheiras roxas e a cabeça latejando.
Mas nenhum de nós dois dorme.
Tudo por causa de uma birra que cresceu demais, ganhou pernas, dentes e agora morde.
A campainha toca.
Eu quase levanto as mãos aos céus, rindo de alívio, agradecendo a qualquer divindade aleatória que tenha resolvido me notar nessa noite miserável. Abro a porta e dou de cara com Sebastian, com a expressão amassada de sono, e Ayla ao lado dele, me olhando como quem avalia um paciente em estado crítico.
- Você está h******l, Cael - ela dispara, sem filtro algum. A pena disfarçada na voz é quase pior que a crítica. - Onde ele está?
- Agradeço pelo carinho, Ayla - murmuro, abrindo espaço. - No quarto, lá em cima. Vocês já conhecem o caminho.
Ela não perde tempo. Segue direto para a escada, passos apressados, como se fosse mais mãe do que eu naquela m***a de casa.
Sebastian me acompanha até o escritório. Assim que entramos, ele se joga no sofá como se o corpo tivesse desligado no modo economia de energia. Vou até a adega, pego uma garrafa de rum e dois copos. Sirvo doses generosas. Hoje não é noite para fingir sobriedade emocional.
- Você tá um caco, cara - ele comenta, girando o copo entre os dedos. - E olha que a Ayla já fez questão de avisar. O que foi agora?
- Mia deu açúcar demais pro Theo - respondo, a exasperação escorrendo junto com o álcool. - O moleque virou um gerador nuclear. Brincou de tudo o que uma criança pode imaginar... e mais um pouco. Eu tentei acompanhar. Juro que tentei. Mas chegou uma hora que eu só queria sentar e... existir em silêncio.
Tomo um gole longo.
- Ele me chamou pra dançar de novo. Eu recusei. Ele insistiu. Eu fui firme demais. Aí o pequeno gênio resolveu me mostrar a língua. - Solto uma risada seca, sem humor. - Eu levantei o tom. Ele se assustou. Chorou. Pediu pela Mia como se eu fosse um vilão de desenho animado.
Sebastian faz um som baixo, solidário.
- É f**a, irmão.
- Eu sei que é f**a. O problema é que agora ele me odeia. - passo a mão pelo rosto, sentindo a pele repuxar de cansaço. - Tentei entrar no quarto. Tentei pedir desculpa. Ele só chora mais alto quando me vê. Parece que eu virei o monstro da história de dormir dele.
- E a Mia?
- Saiu com alguém. - dou de ombros. - Liguei, mandei mensagem. Nada. Mas também... ela não tem obrigação nenhuma com isso. Não posso estragar a noite dela porque eu fui um pai de m***a hoje.
Sebastian me encara por um segundo a mais do que o confortável.
- Ela viria correndo se soubesse o que tá rolando. E você sabe disso.
- Eu sei. - a palavra sai baixa, quase um suspiro. - Mas não quero ser esse cara. O que joga tudo nas costas dela.
Ele bebe mais um gole.
- Falando sério agora... você precisa de ajuda. Uma babá, alguém fixo. Você não dá conta disso sozinho.
- Você acha que eu não penso nisso? - apoio os cotovelos nos joelhos, o copo pendendo frouxo na mão. - Só de pensar em entrevistas já me dá vontade de enfiar a cabeça numa parede. É um circo: gente estranha entrando na minha casa, olhando pro meu filho como se ele fosse um item de checklist. E no final, o Theo pode simplesmente odiar a pessoa. Criança não faz processo seletivo, faz veto emocional.
Sebastian solta um riso curto.
- Bem-vindo à paternidade: onde nada é lógico e tudo é pessoal.
- Você é péssimo em dar conselhos.
- Eu sei. - ele dá de ombros. - Mas pede pra Mia ajudar com isso. As entrevistas, pelo menos.
- Não. - respondo rápido demais. - Ela já carrega o mundo nas costas com os restaurantes, a própria vida, o caos dela. Não vou jogar mais esse peso em cima. Ela já faz muito pelo Theo. Mais do que eu tenho coragem de admitir.
O silêncio cai entre nós por alguns segundos. Só o choro distante do meu filho atravessa as paredes, como um lembrete c***l.
- Você tá ferrado, irmão - Sebastian conclui.
- Obrigado por narrar a realidade - murmuro, fechando os olhos por um instante.
E lá em cima, no quarto do meu filho, o choro continua.
E, pela primeira vez na vida, eu não sei como consertar o estrago que eu mesmo fiz.
》☆☆☆《
03h27 da madrugada.
O barulho dos passos descendo a escada, acompanhado por um silêncio raro naquela casa grande demais para dois corações cansados, é um bom sinal. Um sinal quase sagrado. O tipo de silêncio que não pesa - alivia.
Sebastian e eu nos colocamos de pé ao mesmo tempo quando Ayla surge na porta da sala. Acho que a esperança de que Theo finalmente tivesse sido vencido pelo próprio corpo estava escancarada em nossos rostos, porque ela para por um segundo antes de falar, como se estivesse escolhendo a melhor forma de nos entregar aquela pequena vitória.
Os olhos dela passeiam entre mim e Sebastian. Há um cansaço honesto ali, o tipo de exaustão de quem já trabalhou o dia inteiro, cuidou de outras crianças, de outras dores... e ainda assim veio correndo no meio da madrugada segurar o caos da minha casa.
Ela sorri. Um sorriso curto, cansado, gentil.
- Ele finalmente dormiu. - diz, com aquele tom suave que ela reserva para dar notícias boas depois de longas horas ruins. - O Theo foi vencido pelo próprio cansaço. Pode ser que acorde com um pouco de dor de cabeça amanhã, pelo tempo que passou chorando... mas não é nada grave.
O alívio vem como um baque no peito. Caminho até ela e a puxo para um abraço que beira o desespero.
- Obrigado por ter vindo, Ayla. - minha voz sai rouca, falhada. - Eu... m***a, eu sinto que vou surtar. Sinto que a qualquer momento alguma coisa em mim vai simplesmente... quebrar.
Quando me afasto, percebo os olhares trocados entre ela e Sebastian. Não é julgamento. É preocupação. Do tipo que machuca mais do que bronca.
- Ele está crescendo, Cael. - Ayla começa, com aquele tom doce e ao mesmo tempo clínico que ela usa no consultório. - E ele precisa da sua atenção. Como pediatra infantil... e como mãe... eu afirmo: você precisa ser mais presente na vida do Theo. Ele já não tem mãe. A figura feminina mais constante que ele tem somos eu e a Mia. E a sua mãe, quando pode. Mas você é o pai dele. Isso não é um papel secundário. É o papel principal.
Engulo em seco.
- p***a, Ayla, eu tô tentando... - digo, sentindo a angústia se arrastar pela garganta. - Faz três anos que eu tento ser um pai melhor. Três anos tentando ser presente, acertar, não repetir os mesmos erros... mas tem horas que eu acho que... - passo a mão pelo rosto, frustrado. - d***a, tudo seria mais fácil se aquela filha da p**a não tivesse abandonado tudo pra fugir com o amante.
O silêncio pesa por um segundo.
- Você ainda se culpa. - a voz de Sebastian entra, baixa, firme. - Se culpa pela Serena ter ido embora. Se culpa pelo casamento ter acabado. E isso tá te corroendo por dentro, irmão. Você não segue em frente porque continua preso nesse inferno. - ele suspira. - Você precisa dar o primeiro passo irmão, precisa se livrar dessa culpa e seguir em frente. Nem que seja com alguém como a Hailey... vocês já estão nesse rolo estranho...
- Eu prefiro entrevistar mil candidatas a babá do que deixar a Hailey se aproximar do Theo. - corto, sem hesitar. - Eu sei como ela funciona. Ela não se aproxima de nada que não possa usar depois. Muito menos do meu filho. Eu vou contratar alguém. Vou fazer as entrevistas. Vou arrumar alguém competente o suficiente pra...
- Você vai subir para aquele quarto e vai dormir, Cael Sterling. - Ayla me corta, com uma autoridade que só quem já salvou criança de febre às três da manhã possui. - Agora. Você não vai resolver nada hoje. Amanhã, com a cabeça menos quente, você pensa em babá, entrevistas, no que for. Sebastian e eu fechamos a casa antes de sair.
Respiro fundo, encarando os dois. Existe um nó no meu peito que não é só cansaço - é gratidão misturada com vergonha por precisar tanto.
Eu não sei o que seria de mim e do Theo sem a minha família.
Não no sentido financeiro. Nunca foi isso.
É o emocional. É esse pacto silencioso de "a gente cai, mas cai junto". Sempre fomos assim: família cuida de família. E em noites como essa, quando eu me sinto pequeno demais para o peso que carrego no sobrenome... são eles que me mantêm de pé.
Subo as escadas em silêncio.
Antes de seguir para meu quarto, paro na entrada do quarto do Theo. Ele dorme de lado, os cílios ainda úmidos, o rosto manchado de choro, a respiração irregular de quem finalmente perdeu a guerra para o próprio corpo.
Eu sou um maldito desastre como pai.