🥀 Capítulo 8 🥀

1580 Palavras
Cael Sterling. Um mês depois. Mia está fora da cidade a trabalho. Charles está doente. Meus irmãos estão ocupados. E eu... eu não tenho com quem deixar meu filho. O último mês foi uma montanha-russa emocional daquelas que não te dão tempo nem de gritar. Os altos? A empresa cresceu. Fechamos contratos multimilionários. Os números subiram como fogos de artifício no gráfico do conselho. Foi, sem exagero, o melhor desempenho dos últimos três meses. Os baixos? Eu entrevistei quase cinquenta candidatas para a vaga de babá. Cinquenta. Quatro ou cinco chegaram a fazer um período de teste. Nenhuma delas chegou sequer perto do que eu precisava. Umas eram boas demais no currículo e péssimas com uma criança real. Outras até tinham boa vontade, mas zero pulso firme. Algumas simplesmente desistiram depois de dois dias convivendo com a energia infinita de um menino de quase quatro anos. Como se isso não bastasse, eu consegui a proeza de esquecer o meu próprio filho na escola. Esquecer. A palavra martela dentro da minha cabeça como um veredito. Eu estava no meio de uma reunião - investidores estrangeiros, projeções na tela, gente importante falando sobre números que valem mais do que a maioria das casas naquela rua - quando minha assistente entrou na sala com o rosto pálido, interrompendo tudo. - Senhor Sterling... a escola do Theo está ligando. Disseram que é urgente. Urgente. Meu estômago afundou antes mesmo de eu atender o telefone. Então sim. Agora estou descendo do carro com uma hora de atraso em relação ao horário habitual. Uma hora inteira de atraso. E já me preparo mentalmente para o impacto: os olhos grandes de Theo me encarando com aquela mistura c***l de decepção e abandono, vermelhos de tanto chorar. No alto-falante do celular, Mia praticamente atravessa a tela para me esfolar vivo. - CAEL, VOCÊ TEM IDEIA DO QUE FEZ? - a voz dela ecoa como um t**a na cara. - Eles quase chamaram o conselho tutelar! A diretora me ligou achando que a criança tinha sido esquecida no mundo! - Eu sei, eu sei, Mia, não precisa gritar. - EU NÃO PRECISO GRITAR ? - ela almenta o tom de voz o suficiente para me fazer fechar os olhos. - Por acaso você perdeu o juizo ? Como você pode esquecer o seu próprio filho na escola, Cael? - a voz dela ecoa do outro lado da linha, carregada de julgamento. - Theo só tem três anos. Consegue imaginar o quão traumático é pra ele ver todas as crianças indo embora e ele ficando pra trás? - p***a, Mia, eu sei disso, eu so... eu estava em uma reunião e... - NÃO INTERESSA. - ela me corta. - Você é o pai dele, não o CEO da paternidade! Seu filho não é uma pauta que dá pra adiar pra depois! Ela praticamente grita, me obrigando a afastar o celular do ouvido. - Eu não te liguei pra levar lição de moral, Mia. - rosno, a irritação fervendo. - Se eu quisesse sermão, tinha ligado pra nossa mãe. Eu só preciso de uma ideia de como buscar meu próprio filho sem começar uma guerra dentro daquela escola. Do outro lado da linha, ela me xinga de todos os nomes possíveis. Consigo ouvir o bufar irritado, o "rabugento do c*****o" vindo carregado de ódio fraterno. Escolho ignorar. É isso ou atravessar o celular pra cometer um crime. - Tem uma lanchonete temática perto da escola - ela diz, por fim, a voz estranhamente calma demais pra alguém que estava prestes a me esganar. - Leva ele até lá. Pede batata frita, deixa ele comer, brincar um pouco e- - Nem fodendo que eu vou submeter meu filho a um lugar como aquele. - corto, seco. Do outro lado, o silêncio dura meio segundo. Depois vem a explosão. - Pois então f**a-se, Cael. - ela dispara. - Eu tô do outro lado do país e você me liga porque não sabe como lidar com o próprio filho. Quando eu sugiro algo que claramente vai funcionar, você faz birra. Boa sorte tentando acalmar o Theo mais tarde. A ligação cai antes que eu consiga responder. Fecho os olhos por um segundo, sentindo a raiva e a culpa se misturarem num nó f**o no peito. Bloqueio a m***a do celular e guardo no bolso da calça. Melhor assim. Se eu ouvir mais uma palavra dela, vou acabar falando algo que não tem volta. Entro na escola. Na recepção, informo meu nome, a sala do Theo, o atraso constrangedor. A funcionária me lança um olhar profissional demais pra não estar carregado de julgamento. Alguns minutos depois, ela retorna. E traz com ela uma miniatura minha. Os mesmos cabelos claros da mãe. Os mesmos traços angulosos que eu vejo no espelho todos os dias. O mesmo jeito fechado, a mesma postura orgulhosa, pequena demais pra carregar tanto peso. Theo não corre até mim. Não me abraça. Não reclama. Ele simplesmente passa por mim como se eu fosse um estranho qualquer. E é naquele instante, vendo aquela versão pequena de mim mesmo me ignorar com a dignidade ferida de uma criança que esperou demais, que eu entendo: eu não estava pronto para encarar uma miniatura de mim mesmo... principalmente quando ela estava aprendendo a ser duro comigo do mesmo jeito que eu fui com o mundo. 》☆☆☆《 Eu não faço ideia de como Sebastian e Ayla fazem isso. Não faço ideia de como a Mia faz parecer tão fácil. Tudo o que eu sei é que o garoto à minha frente está emburrado, com os bracinhos cruzados, o bico mais dramático da história da humanidade nos lábios e os olhos marejados desde que chegamos à maldita lanchonete - que, claro, Mia jurou que seria a solução de todos os meus problemas. Spoiler: não foi. Eu trouxe o Theo. Comprei um combo absurdo de comidas calóricas que Mia jurou, com convicção quase religiosa, que resolveria qualquer crise emocional infantil. Paguei a mais por um boneco ridículo de um hambúrguer vestido de super-herói. Tudo isso... pra meu filho continuar me encarando como se eu fosse a criatura mais c***l que já caminhou sobre a Terra. - Com licença, senhor. - a voz feminina suave me tira dos meus pensamentos. - Há algum problema com a refeição? O senhor gostaria de algo mais? Temos também alguns pratos mais saudáveis, como- - Nanaaaa! A voz do Theo corta o ar pela primeira vez em quase três horas. O susto é tão grande que eu quase derrubo o copo. - Nana! Meu filho se levanta num pulo e se agarra às pernas da mulher à nossa frente. Ela não deve ter mais que vinte e poucos anos. Os olhos dela se arregalam por um segundo, antes de um sorriso genuíno se abrir em seus lábios. Ela se ajoelha para ficar da altura dele. Theo envolve os braços no pescoço dela num abraço apertado, como se estivesse se agarrando a um porto seguro no meio de uma tempestade. - Nana... - ele murmura, a voz pequena e cansada. - Anjinho. - ela responde, com aquela doçura que não se ensina, só se tem. Bagunça de leve os cabelos dele. - Como você tá, meu amor? Eles se afastam do abraço, e ela o observa com atenção. - Você tava chorando? O que aconteceu? Theo cruza os braços outra vez. O lábio inferior treme, traindo o esforço para não desmoronar. - O papai... o papai esqueceu de mim... Ele me deixou sozinho de novo na escola. - ele diz, apontando o dedo na minha direção como se estivesse apresentando o vilão da história. A moça ergue os olhos para mim. Não há julgamento ali. Só aquele olhar de quem já viu essa cena acontecer mais vezes do que gostaria. Um sorriso quase cúmplice surge em seus lábios. - Eu não acredito nisso. - ela diz, num tom de falsa severidade. - Papai, você não pode esquecer o Theo na escola. Ela pisca pra mim. Um pedido silencioso de: entra na brincadeira. - Eu... eu não esqueci, eu só estava- - Seu papai tava salvando o mundo, Theo. Eu congelo. - Salvando o mundo? - Theo pergunta, os olhos azuis arregalados de espanto. - Isso mesmo. - ela confirma, com uma convicção tão firme que por um segundo eu quase acredito. - Vou te contar um segredo, mas não pode sair daqui, tá bom? Theo balança a cabeça tão rápido que parece que o pescoço vai soltar. - Seu pai é um super-herói. Mas ele se disfarça usando terno. E hoje, quando demorou pra te buscar, ele tava salvando o mundo de um monte de vilões muito chatos. Theo me encara como se eu tivesse acabado de revelar minha identidade secreta. - Você... você é um herói, papai? A pergunta bate em mim como um soco no peito. Fico parado, atônito, enquanto uma completa desconhecida transforma meu pior erro do dia em uma história capaz de salvar o coração de uma criança. Ela ainda empurra o prato na direção dele com delicadeza. - Heróis precisam comer pra recuperar energia, sabia? Principalmente batata frita. É combustível oficial de super-herói. Theo pega uma batata.Depois outra. E, pela primeira vez desde que entramos naquele lugar, ele dá um sorriso pequeno. E é ali, observando aquela garota transformar caos em calma, que um pensamento me atravessa, perigoso e cheio de esperança: talvez... só talvez... eu tenha acabado de encontrar a garota ideal para a vaga de babá.
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