🥀 Capítulo 9 🥀

1614 Palavras
☆Hannah Brooks☆ O último mês desde que fui praticamente expulsa da casa dos meus pais — tudo porque me recusei a trancar a faculdade para ajudar a financiar o carro novo da minha irmã — foi uma sequência interminável de tombos emocionais. Uma verdadeira montanha-russa de altos e baixos… com mais baixos do que altos, se eu for honesta comigo mesma. É como se o universo tivesse escrito “Palhaça” bem no meio da minha testa, em letras garrafais e fluorescentes, e depois tivesse me empurrado para dentro de um picadeiro lotado, dizendo: se vira. Ou você aprende a fazer malabarismo com as próprias desgraças, ou vira almoço dos leões. Céus… eu nem sei mais o que estou dizendo. Minha cabeça dói, meus olhos ardem e meu corpo inteiro parece pedir arrego. Tô exausta. Passei os primeiros cinco dias na casa da Susan e do Peter antes de finalmente aceitar que não dava para fingir que aquilo era só uma fase rápida, uma noite m*l dormida que logo se resolve. Eles foram incríveis comigo, do tipo que restaura um pouco da sua fé na humanidade. Me ofereceram o quarto de hóspedes para ficar por tempo indeterminado, fizeram questão de dizer que eu era bem-vinda, que não estava atrapalhando, que eu podia ficar o tempo que precisasse. Mas eu não consegui. Não sei se é orgulho, culpa ou simplesmente medo de me acostumar com o conforto e depois ter que ir embora de novo. Eu não queria ser mais um peso na vida de alguém. Já me sentia um fardo o suficiente na minha própria. Foi conversando com a Jane, minha colega de trabalho, em um daqueles turnos longos em que a lanchonete parece engolir sua alma aos poucos, que acabei contando toda a minha situação. Não planejei desabafar — as palavras só escaparam. Ela ouviu tudo com aquela cara de quem finge estar normal, mas já está calculando soluções na cabeça. E então disse, quase casualmente, que estava procurando uma colega de quarto. Duas frases depois, a decisão já estava meio tomada. Nos combinamos, e dois dias após aquela conversa eu já estava me mudando. O lugar não é nada chique, longe disso. É um apartamento simples em um bairro tranquilo, com dois quartos, sala e cozinha em conceito aberto e um banheiro pequeno, mas funcional. Não é o tipo de lugar que você vê em vídeos de tour no t****k, mas… é um teto. É um começo. Vamos dividir as contas, aluguel, mercado, tudo meio a meio. E, bem… é tranquilo para mim, sabe? Quero dizer, eu já pagava metade de tudo na casa dos meus pais. Sem falar no trabalho invisível de manter a casa limpa, organizada, funcionando. Então, no fundo, não é tão diferente assim. A diferença é que agora, pelo menos, ninguém joga na minha cara que eu “deveria ser grata por ter onde morar”. Mas, como eu disse: altos e baixos. Duas semanas depois de sair de casa — uma semana já dividindo apartamento com a Jane — recebi um e-mail da universidade. Um e-mail que fez meu estômago despencar como se eu tivesse perdido o chão. Meus pais tentaram entrar em contato com a administração em meu nome. Se passaram por mim, dizendo que eu gostaria de encerrar meu curso por “motivos pessoais”. Como eu sou maior de idade, nada pôde ser feito sem minha assinatura e um consentimento por escrito. Ou seja: o plano não deu certo. Mas isso não impediu que eles tentassem algo ainda mais baixo. Enviaram uma carta falsa, em meu nome, solicitando oficialmente meu desligamento da universidade. Foi um caos. Um daqueles momentos em que você percebe que a realidade consegue ser mais absurda do que qualquer ficção m*l escrita. Eu tive que correr atrás, explicar a situação, provar que não fui eu, que a assinatura na carta — apesar de assustadoramente parecida com a minha — não era, de fato, minha. Jane me ajudou em tudo. Me acompanhou em reuniões, me deu carona quando minhas pernas pareciam de gelatina, me lembrou de respirar quando eu queria apenas gritar. Eu sou absurdamente grata a ela. E, como se não bastasse o drama familiar versão thriller psicológico, ainda precisei lidar com as brigas constantes com o Ryan. Talvez tenhamos brigado f**o umas três ou quatro vezes esse mês. Todas pelo mesmo motivo, como se estivéssemos presos em um disco arranhado que insiste em tocar a mesma música desafinada. Ele quer que eu vá morar com ele. Eu me recuso terminantemente a dar esse passo sem me sentir pronta. Ryan insiste que seria melhor para nós dois, que ele está pensando no longo prazo, que isso é “o próximo passo natural” do nosso relacionamento. Diz que, quando finalmente estivermos morando juntos, ele vai poder focar de verdade na maldita carreira de músico. Eu sempre o apoiei em tudo. Em cada sonho meio impraticável, em cada plano que parecia grande demais para a nossa realidade. Mas claramente não vou bancar isso financeiramente. Não agora. Não quando eu mesma m*l consigo me sustentar e pagar a faculdade sem precisar passar o resto do mês sobrevivendo à base de macarrão instantâneo e café requentado. Eu posso até ser muita coisa. Mas não vou ser a fundação de um castelo que ainda nem começou a ser construído. Por conta disso, brigamos repetidamente nesse último mês, e eu tenho sentido o Ryan mais frio, mais distante. Como se cada discussão colocasse mais um tijolo invisível entre nós. Mas céus… nós vamos nos acertar. Eu sei que vamos. Eu só preciso de tempo. Nós precisamos de tempo. É o que eu repito para mim mesma como um mantra cansado, mesmo quando a dúvida cochicha no meu ouvido como uma serpente paciente. — Hannah, tá pronta? — a voz da Jane ecoa do outro lado da porta do banheiro, me arrancando dos meus próprios devaneios. — Levi e eu já estamos de saída. — Saindo em um minuto! — respondo, fazendo uma concha com as mãos e enchendo de água. Jogo no rosto em seguida, como se pudesse lavar não só o cansaço, mas também o peso do dia inteiro. O dia havia sido brutal. Corrido demais, exigente demais, com mais cobrança do que deveria existir para um salário tão baixo que beira a ofensa. Gente impaciente, pedidos errados, caras tortas por atrasos que não dependiam de mim. O pacote completo da vida adulta m*l paga. Seco o rosto com papel-toalha, jogo a mochila sobre os ombros e saio do banheiro, agradecendo mentalmente aos céus por ter sobrevivido a mais um turno sem perder completamente a sanidade. Jane e Levi já estão no estacionamento da lanchonete, próximos à caminhonete dele, ambos rindo de alguma coisa aleatória, daquele tipo de riso leve que parece um pequeno luxo depois de um dia pesado. Estou prestes a me aproximar quando alguém para bem na minha frente, como se fosse uma muralha humana, disposto a impedir minha passagem. Dou um passo para o lado. O homem à minha frente repete o movimento. Dou um passo para o outro lado. Ele copia de novo. Paro. Respiro fundo. Conto mentalmente até três para não xingar um completo desconhecido no estacionamento m*l iluminado de uma lanchonete. Ergo o rosto para encará-lo, tentando identificar se já o tinha visto antes. Mas não, nenhuma lembrança vem à mente. E, sinceramente, a meia-luz amarelada dos postes não estava ajudando em nada. — Com licença — começo, reunindo toda a calma que me resta depois de passar o dia inteiro lidando com o público. — Eu preciso passar e você não está colaborando. Pode, por favor, sair da frente? — Estou mais do que disposto a deixá-la ir embora, mas antes preciso que me conceda apenas cinco minutos da sua atenção. A voz dele ecoa firme, rouca, formal demais para qualquer ser humano normal às oito e quinze da noite de uma terça-feira. Aquela entonação que parece saída de um escritório com ar-condicionado, não de um estacionamento cheirando a gordura fria e gasolina. Eu o encaro por um momento. Ele usa roupas sociais, que destoam completamente do cenário ao redor. Ergo os olhos para observar melhor seu rosto: maxilar firme, traços marcantes, barba por fazer como se tivesse esquecido de si mesmo por alguns dias, alto — bem mais alto do que eu —, cabelos escuros presos atrás da cabeça, olhos azuis… gélidos, firmes, analíticos. Bonito, ao menos sob a iluminação questionável do estacionamento. E claramente mais velho. — Você é algum tipo de advogado que meus pais contrataram para me infernizar por eu não querer financiar o carro da minha irmã? — pergunto, sentindo minha paciência se esvair pelos dedos. — Porque, se for, já vou avisando que… — Eu não sou nenhum advogado e… — ele faz uma pausa, me encarando com uma curiosidade quase genuína. — Espera. Seus pais estão te processando por você não querer financiar um carro para sua irmã? Isso é… possível? Ele me olha como se eu fosse um ser de outro mundo, o que me faz revirar os olhos com força suficiente para quase ver o cérebro. — Eu nem sei se é possível. Mas eles estão tentando — dou de ombros, cansada demais para me chocar com o absurdo da minha própria vida. — Se você não é advogado, então… é algum líder de culto maluco querendo me converter para a sua religião? — O quê? — a estranheza na voz dele me faz segurar o riso. — Quer dizer… não, eu não sou. Ele respira fundo, passando a mão pelos cabelos, como se estivesse tentando organizar um discurso que claramente não ensaiou direito.
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