Hannah Brooks
— Eu não sou advogado dos seus pais, não sou líder de culto e… o que quer que esteja passando pela sua mente agora, eu só… — ele hesita, escolhendo as palavras com cuidado. — tenho uma proposta a lhe fazer e…
— Agradeço, mas eu já tenho namorado. Noivo, na verdade. Então não preciso de um s*********y… apesar que… — levo a mão ao queixo, fingindo ponderar seriamente. — Eu preciso de dinheiro, então talvez não fosse uma ideia tão r**m. O problema é que, d***a… o Ryan não iria gostar muito disso. Você se importaria se eu continuasse com meu noivo?
— O QUÊ?! — ele eleva o tom de voz, me fazendo erguer os olhos e voltar a encará-lo de vez. — Eu não…
— m***a, eu sei, é irreal, né? — continuo, sem lhe dar espaço. — Você não pode sustentar a mim e ao Ryan. Ele também é orgulhoso, não aceitaria algo assim.
Faço um beicinho de falso pesar, teatral demais até para mim mesma.
— É uma pena, mas eu amo meu noivo. Então vou ter que recusar você como meu s*********y. Mas, ei… boa sorte por aí.
O homem à minha frente pisca algumas vezes, como quem ainda tenta entender em que universo paralelo foi parar. Se ele, que causou essa situação bizarra, está confuso, quem dirá eu, que nem conheço esse maluco.
Ele bufa, inflando o peito como um touro prestes a investir, e me encara com a raiva faiscando nos olhos.
— Eu não sou a p***a de um advogado, não sou líder de culto e muito menos alguém que se prestaria ao papel de s*********y de alguém, garota. — a voz dele sai firme, carregada de uma convicção quase agressiva. — Como alguém consegue pensar tanta besteira em tão pouco tempo?
— Olha aqui, seu neandertal — retruco, já no limite da paciência. — São quase nove da noite. Eu acabei de sair de um turno de oito horas em pé, ouvindo cliente insuportável reclamar de tudo, e um homem de meia-idade dando um chilique por causa da p***a de um brinquedo que veio errado.
Dou um passo em sua direção, encarando-o com fúria. Ele recua instintivamente, um único passo, mas o suficiente para eu perceber.
— Depois de um dia infernal desses, eu definitivamente não preciso de um i****a aleatório me dizendo que eu só falo besteira. Sai da frente.
Minha voz sai mais dura do que eu pretendia, mas já não me importo. Tento passar por ele e, mesmo com um estacionamento inteiro à disposição, ele faz questão de continuar parado bem no meu caminho.
Dou um passo para a esquerda.
Ele acompanha.
Dou um passo para a direita.
Ele repete o movimento.
— Que p***a… — rosno, sentindo a irritação ferver por dentro. — O que você quer, afinal?
— Olha a boca, garota — ele me repreende, em um tom autoritário que parece ter vindo direto do século passado. — Se você estivesse agindo como um ser humano comum, já teria me deixado falar e nós dois não precisaríamos estar nessa situação ridícula.
— Claro, porque um ser humano comum aborda outro no meio do estacionamento de uma lanchonete à noite, sem ao menos se apresentar — deixo o sarcasmo escorrer pelas palavras. — Mas, por favor, prossiga. Me conte seu grande plano para salvar o mundo.
— Insolente — ele murmura, quase para si mesmo. — Estou aqui para lhe fazer uma proposta de emprego. Observei você e meu filho esta tarde e…
— Já tenho emprego, obrigada — tento passar por ele de novo, mas ele se move no mesmo instante, bloqueando minha passagem com o corpo.
— Eu observei você e meu filho esta tarde — repete, agora falando tudo de uma vez, como se soubesse que, se demorasse mais dois segundos, eu o mandaria para o inferno com direito a mapa. — E gostei da forma como lidou com ele. Por isso, queria lhe fazer a proposta de trabalhar para mim como babá do Theo.
— Não sei quem é seu filho e não sirvo pra ser babá — digo, tentando passar por ele apenas para ser barrada mais uma vez. — Tá de brincadeira? Dá pra fazer o favor de me deixar em paz?
Ele revira os olhos, visivelmente perdendo a pouca paciência que ainda lhe restava, e sem dizer nada retira o celular do bolso. Desbloqueia a tela e a vira na minha direção.
A foto me atinge em cheio.
Um garotinho de cabelos loiros, olhos azuis brilhantes e bochechas rechonchudas sorri para a câmera, com aquela expressão inocente que parece capaz de derreter até corações de pedra. Um anjinho. Literalmente o mesmo anjinho que aparece toda semana na lanchonete e que, por algum motivo misterioso, me apelidou de Nana.
Eu o chamo assim porque ele realmente parece um daqueles anjinhos de desenho animado, com cara de quem nunca faria nada errado… mesmo quando está claramente fazendo.
— Ah, então você é o pai que esqueceu ele na escola — digo com calma demais para meu atual estado. Ergo o olhar para encará-lo e percebo a vermelhidão tomando conta de seu rosto. Vergonha, talvez. Raiva, provavelmente. Ou a mistura desconfortável dos dois. — Papai herói, então.
Cruzo os braços, avaliando-o por um segundo que se estende mais do que deveria.
— Eu agradeço pela proposta, mas não estou interessada.
Ele pisca algumas vezes, como se não estivesse acostumado a ouvir um “não”. Como se a rejeição fosse um idioma estrangeiro que ele ainda não aprendeu a traduzir.
Aproveito um descuido mínimo — um meio segundo em que ele relaxa a postura — e passo correndo ao seu lado. Deixo-o parado no meio do estacionamento, com uma expressão que oscila entre confusão e desespero. Viro-me enquanto caminho para trás e aceno em despedida, com um sorrisinho quase provocador.
— Boa sorte com o plano mirabolante de contratar babás no estacionamento.
Me aproximo da caminhonete do Levi, onde ele e Jane ainda conversavam animadamente. Eles me olham com aquela expressão curiosa de quem claramente acompanhou a cena de longe.
— Você conhece aquele cara? — Jane pergunta, inclinando a cabeça na direção do homem ainda parado, como se o chão pudesse engoli-lo a qualquer momento. — O que ele queria?
— Você não vai acreditar — começo, jogando a mochila no banco de trás. — Um completo estranho me abordou para me oferecer uma vaga de babá pro próprio filho, só por causa de uma interação aleatória que eu tive com a criança na lanchonete.
Levi arregala os olhos, e Jane começa a rir, uma gargalhada alta e sincera.
— Isso é o cúmulo do desespero parental — Levi comenta, ainda rindo. — O cara deve estar realmente no limite.
— Pois é — concordo, olhando rapidamente pelo retrovisor. O homem ainda está lá, agora falando ao telefone com uma expressão tensa. — Ou eu tenho uma cara muito confiável… o que é preocupante.
Jane comenta que eles estavam pensando em ir a um pub para beber alguma coisa e relaxar depois do turno longo. Eu penso no dia exaustivo, no Ryan distante, nos meus pais tentando sabotar minha vida acadêmica e naquele estacionamento estranho que pareceu o palco de uma comédia absurda.
E penso também no fato de que, no dia seguinte, eu não preciso correr atrás do ônibus às sete da manhã. Não tenho aula. Um raro respiro na agenda caótica.
— Quer saber? — digo, fechando a porta da caminhonete. — Eu topo.
Levi dá partida, e nós seguimos em direção ao pub, com a noite de Toronto se abrindo diante de nós em um emaranhado de luzes, promessas de bebida barata e aquela sensação perigosa de que algo importante acabou de passar por mim… e eu fiz questão de ignorar.
》☆☆☆《
Cael Sterling
Eu sinceramente não sei em que abismo mental eu estava para me prestar a um papel tão… patético. Ridículo, na verdade. Há coisas que o desespero nos empurra a fazer, decisões que a razão nunca assinaria em tempos de lucidez. Mas, p***a… o que foi que eu acabei de fazer?
Abordar uma mulher desconhecida no estacionamento do trabalho dela, no meio da noite, com a proposta inusitada de que ela fosse a babá do meu filho. Se alguém me contasse essa história como se fosse sobre outra pessoa, eu provavelmente diria que era um péssimo roteiro de comédia romântica.
E, ainda assim, não foi nem de longe minha maior façanha do dia.
A forma como aquela garota me encarou, como me desafiou sem o menor traço de medo, não combinava em nada com a mulher de poucas horas atrás. A mesma que se abaixou para falar com Theo na altura dos olhos, que teve paciência para ouvir suas histórias desconexas e que, em poucos minutos, arrancou dele um sorriso que eu não via há dias.
Droga.
Ela era insolente, afiada, quase agressiva. E, ao mesmo tempo, tinha sido gentil com meu filho. Duas versões da mesma pessoa, colidindo dentro da minha cabeça como placas tectônicas.
Mas o fato é simples, c***l e irrefutável: ela fez o Theo sorrir.
E isso, por si só, já a colocava acima de praticamente todos os requisitos da minha lista mental de “pessoas minimamente toleráveis para conviver com meu filho”.
Passo a mão pelos cabelos, respirando fundo, sentindo a tensão se acumular nos ombros. O celular ainda está em minha mão. Desbloqueio a tela e disco o número de um dos meus subordinados, movido por um impulso que não costumo permitir.
A chamada completa em poucos segundos.
— Axel Stone falando — a voz do meu assistente ecoa do outro lado da linha, profissional como sempre.
— Axel, preciso que descubra o nome de todos os funcionários que trabalham na lanchonete Captain Burger, próxima à escola primária no centro — digo, com a mesma firmeza com que costumo negociar contratos de milhões. — Todos, sem exceção. Quero essa lista no meu e-mail ainda hoje.
Faço uma breve pausa, não para dar espaço a questionamentos, mas para deixar claro o peso da ordem.
— Não quero saber que meios você vai usar. Apenas se vire e faça o que estou lhe pedindo.
Desligo antes que ele tenha a chance de elaborar qualquer desculpa esfarrapada. Não é crueldade. É eficiência.
Sigo em direção ao meu carro, estacionado do outro lado da rua, flanqueado por outros dois veículos onde meus seguranças aguardam atentos. Eu não pisaria em um lugar como aquele, à noite, sem p******o. Nunca.
Entro no banco de trás, e Simon, meu motorista, dá a partida sem dizer uma palavra, conduzindo o carro para longe das luzes baratas do estacionamento e em direção à casa de Sebastian. Ainda preciso buscar Theo antes de ir para casa.
Eu o deixei com Ayla mais cedo, antes de retornar para aquela lanchonete com a esperança quase infantil de que algo — ou alguém — pudesse consertar o pequeno caos que se instalou na minha rotina.